sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - Separáveis mas indivisíveis

- Olha aqui esta mulher. Bonita não é?
- Das melhores que já vi! Que mulher!
- Conheci-a ontem naquele bar a que costumamos ir ao Sábado. Ontem passei por lá depois de sair do escritório e a coisa deu-se.
- A coisa deu-se? O que queres dizer com isso?
- Isso mesmo. Tive sorte. Gostou de mim…
- Gostou? Isso não me surpreende… E tu? Gostaste dela?
- Claro! Já olhaste bem para a fotografia? O que há para não gostar?
- Pois… Isso também não me surpreende…
- Ai ai, como eu gosto deste jogo de sedução! As mulheres sempre todas arranjadas, com tanta luxúria… E eu, visto a minha máscara invencível e nada me consegue parar! Um uísque numa mão, um cigarro na outra, a cabeça que abana ao ritmo da música e o pé que a acompanha a bater no chão. Elas adoram os homens de fato…
- E tu adoras ficar ali sentado, horas a fio, sem fazer mais nada senão exibir uma imagem irreal, surreal. O teu eu que não és tu, alguém que não existe. Uma farsa…
- Bem… Sim… É mais ou menos isso… Faz-me sentir vivo!
- E a tua mulher em casa, à tua espera? Não te faz sentir vivo? Haverá algo no mundo que nos faço sentir mais reais do que a nossa metade que espera por nós no conforto do nosso lar? Chegar a casa e ser recebido com um beijo, com amor e carinho, perguntas sobre o dia, o jantar na mesa… Isso sim, é real, é vida!
- Não podia estar mais de acordo. Aliás, acabaste de me dar um retrato bastante fidedigno do que aconteceu ontem, depois do bar… É para isso que tenho mulher, eu gosto do conforto!
- Eu sei que gostas. Não te esqueças que eu sei exatamente o que pensas, o que sentes.
- Então deves saber que não trocaria a minha mulher por nada! É ela que me garante esse conforto, é ela que está lá para mim quando preciso, é ela que me mantém a casa da maneira que ela deve estar e será ela a dar-me um filho, um dia destes…
- E não achas errado que ela esteja em casa a velar por ti, a melhorar a tua vida, e que tu estejas nesses bares manhosos depois de um dia inteiro de ausência? E ainda por cima esqueceste-te de me convidar. Quiseste tudo só para ti. Trocas a amizade e o amor pela solidão e pela mentira dessa vida. Não achas que a tua mulher merece mais do que essas mentiras?
- Sabes lá o que ela merece… Sabes lá o que tu mereces… Sabes lá quem eu sou e o que penso. Não fiz nada de errado, apenas me apeteceu uma bebida depois de um dia de trabalho. Será isso crime? Será isso errado? Apenas troquei umas impressões com ela, e os números, e esta fotografia… Nada de mais. Não me dês lições de moral se nem sabes o que aconteceu, se nem sabes o que penso, se nem conheces as motivações para o que fiz…
- Farei mal em julgar-te? No final de contas tu és dono dos teus atos e podes fazer o que bem entenderes… Mas será que não tenho direito a julgar-te, a aconselhar-te? Será que os teus atos não têm consequências em mim, na minha vida? Eu sei exatamente o que se passou ontem. Apesar de não ter recebido convite eu estava lá, vi tudo… Sem te aperceberes, levaste-me contigo, contaste-me todas as tuas motivações e pensamentos. Sei mais sobre ti do que aquele teu eu irreal que levas-te ontem para o bar contigo. Não te esqueças que eu sei exatamente o que pensas, o que sentes. Não te esqueças que eu e tu, somos tão diferentes mas tão iguais. Não te esqueças que eu e tu somos apenas um, separáveis mas indivisíveis. Eu e tu, somos a mesma pessoa.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - Quando te verei pela primeira vez?

Um dia iremos casar. Tu de branco, pela pureza, com um vistoso vestido, redondo em baixo e justo em cima. Será feito à medida para o teu lindo corpo e bordado à mão com infinitos motivos a linha dourada. Ficarás deslumbrante, digna de uma grande rainha do antigamente. Eu irei de preto com um fato de modelo exclusivo feito pelo melhor alfaiate do país. Seremos o casal perfeito e completar-nos-emos na nossa perfeição. Quero viajar contigo, conhecer-te, beijar-te... Em menos de nada carregarás o nosso primeiro filho no ventre e, depois dele, mais quatro virão. Sempre quis ter cinco filhos! Cinco petizes a correr e a brincar pela grande casa que teremos no campo. Sonho com uma grande herdade, com cavalos e grandes prados. Imaginas o quão felizes seremos e o quão felizes poderemos fazer os nossos filhos? Crescerão num berço de ouro, sempre em contacto com a natureza,o ar-livre, as árvores... Poderás tomar conta deles, educá-los. Obviamente que não te terás de preocupar com trabalho e outros incómodos mundanos. Terás ajudantes contigo para cuidar da casa e regar os jardins, terás a dispensa sempre cheia e a mesa posta para recebermos as nossas visitas. O dinheiro não será problema.

Tenho tudo planeado! Concretizar o plano será fácil, penso eu. Tudo virá naturalmente, vais ver. Não é assim nas grandes histórias de amor? A pobreza é para quem não ama, para quem não sabe amar... Não vejo que seja possível vivermos o nosso amor num apartamento dos subúrbios, sem filhos e sem fartura. O amor não soa melhor quando é pintado em tons aristocráticos? Os nossos desejos estão destinados à concretização e passar a eternidade a teu lado é o que desejo acima de todas as coisas. Bem sei que apenas nos escrevemos há cinco meses mas não podia estar mais certo do meu desejo. Tens a minha promessa de que, no que depender de mim, tudo farei para que a vontade encarne a realidade. Enquanto viver, serás a minha prioridade absoluta e toda a razão da minha existência. Jamais deverei quebrar esta solene promessa.

Sabes uma coisa? Todos os dias levanto-me com um sentimento de dever para cumprir. Sinto que algo chama por mim, um destino. Estudo muito todos os dias. Praticamente é tudo quanto faço. Dizem-me que se estudar vou ser alguém no futuro, alguém importante. Vivo ansioso com a chegada desse futuro e a possibilidade de ele ser um ilusão consome-me. Quando não estou a escrever estas cartas que te endereço, estou sentado à minha secretária a lutar por ser o melhor. Um sentimento como este que nos une merece ser coroado com a concretização de todos os nossos desejos: a casa, as crianças, o bem-estar... É por isso que luto! Mal posso esperar por esses tempos que virão. Mal posso esperar por te ter nos meus braços. Quando te verei pela primeira vez?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - A carta que nunca lerás

Meu amor, meu sonho esquecido. Lembras-te dos tempos em que nos namorávamos por carta? Lembras-te de como éramos felizes e comprometidos sem sequer nunca nos termos visto e tocado? Três anos namorámos assim, à distância, à distância de uma caneta e de uma folha de papel. As palavras eram a nossa relação, o nosso mundo. 

Oh! e como éramos fiéis. Na altura estudávamos na universidade e mesmo assim não havia exame nenhum que nos impedisse de ler e responder aos bilhetes de amor que trocávamos por correio. Era uma troca constante se bem te lembras. As tuas palavras eram sentidas e reflectidas, uma obra-de-arte. Via-se que cada carta continha muitas horas de escrita e outras tantas de pensamento e reflexão. Sabia que cada palavra era escolhida a dedo para demonstrar o teu afecto por mim, o teu compromisso, a tua dedicação, a tua lealdade. Sabia-o porque elas transpareciam-no e porque também eu fazia o mesmo. Nessa altura fui feliz! Bem sei que dormia e que estudava sozinha, que ria sozinha e que passeava sem ti, de mão dada com o espectro da minha imaginação que figurava à tua imagem. 

Nunca te tinha visto… Sabia que estavas lá, que existias, que me amavas e isso bastava para preencher com cor aquele espectro informe. Depois daquela vez, a tinta da tua caneta permanente nunca mais secou embora ainda tivesse demorado um bocado até usarmos todo aquele material que foste comprando para adornar o nosso primeiro encontro. Sinto saudades desse tempo, sinto saudades tuas. Será que ainda existes? Será que ainda me amas? 

Agora já não me escreves, a criatividade das tuas palavras secou de vez. Nem é suposto que o faças, afinal de contas habitamos a mesma casa, vivemos juntos! Esta carta que te endereço é um exercício de futilidade, um evento sem nexo. É simplesmente um grito ao vazio, o grito de quem chora… Provavelmente nunca a irás receber pois nunca a irei enviar. Se não a deitar fora, arranjarei um baú ou o fundo de uma gaveta escura que trancarei para todo o sempre. Jamais estes meus sentimentos se destinam a ser conhecidos e muito menos por ti. Precisava apenas de relembrar os velhos tempos, relembrar a felicidade. Precisava apenas de me exprimir como já há muito não fazia. Sonho contigo, connosco, com o amor. Quero tempo contigo, conhecer-te, explorar-te. 

Será possível viver casada com um homem que não conheço? Quando falas, a tua voz soa-me estranha. Quando sorris, os teus olhos mentem-me. Mas a tua escrita… Oh! a tua escrita conheço eu bem. Conseguiria identificar a tua letra em qualquer parte do mundo e encontrar uma frase tua no meio de um livro. Porque será que penso não te conhecer?

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - Ama-la?


A Crónica de um amor burguês está de volta e, desta vez, parece que veio para ficar... 
Espero que gostem.


- Fazias qualquer coisa por ela? Adiar uma reunião importante para ir com ela ao cinema, cancelar um jantar de negócios para jantarem à luz das velas, deixar a empresa nas mãos do teu sócio por uns tempos e fugirem para longe, um género de escapadela romântica… Ama-la?
- Claro que era capaz! Faria tudo por ela! Ela é a mulher da minha vida, qualquer tempo ao seu lado é melhor do que ficar no escritório a trabalhar.
- Sim, isso é uma grande verdade! Se fosse bom não lhe chamavam trabalho. Trabalhar é trabalhoso, dá trabalho…
- Desprezo o trabalho, eu quero é ver montanhas, sentir o mar! Abraçá-la sentado na areia e correr pelos prados verdejantes segurando a sua mão…
- Então porque não fazes isso? Porque ainda continuas aqui? Vais aí ao teu tablet e marcas o avião já para amanhã. Ou então vais de carro, sempre planeias melhor o percurso e têm mais liberdade.
- Humm… Amanhã vem cá o fornecedor-responsável do material informático e depois de amanhã tenho a reunião com a empresa do marketing. Talvez possa marcar para sexta-feira e assim até apanhamos logo o fim-de-semana!
- Sim, faz isso! Mas cuidado, não adies mais…
- Não vou adiar. Agora é de vez! O meu amor já merece um tempinho a sós comigo… Espera lá, que dia é hoje?
- Ora bem, hoje é dia vinte.
- Vinte!? Isso quer dizer que Sábado é vinte e quatro! Tenho aquele congresso de negócios de que te falei… Coisa internacional, em grande. Vêm directores de todo o lado, até da América! Dá para imaginar? Todo o peixe graúdo do mundo dos negócios reunido debaixo do mesmo tecto. Absolutamente imperdível!
- Então e a tua viagem? Então e a tua mulher?
- Ah deixa lá isso! Vamos noutra altura, para a próxima semana talvez… Depois logo se vê.
- Andas a brincar com o fogo, a adiar o inevitável… Já pensaste por que razão ainda não tens filhos? Já pensaste que ainda não constituíste família porque andas a adiar o namoro com a tua mulher? A vida é para ser vivida e tu já te casaste sem passar pelo namoro, pelas viagens, pelos passeios, pelos fins-de-semana enroscados a verem filmes no sofá, pelas tolices de um jovem casal… Saltaram uma etapa! Mas essa etapa esquecida está a voltar para assombrar a vossa relação, o vosso amor. Volto a perguntar-te: ama-la?
- Não há adiamento nenhum nem etapas perdidas, deixa de ser chato! Simplesmente a vida não é só brincadeira e viagens por aí. É preciso trabalhar e ganhar dinheiro para orientar a vida! Eu quero fazer alguma coisa que se veja, que fique para a história!
- Fazer alguma coisa que se veja? Olha para ti, tens vinte e oito anos e já estás no top 100 dos mais ricos deste país. Logo que acabaste de estudar crias-te esta empresa fruto de uma ideia absolutamente brilhante. Que é feito dos teus colegas de faculdade dos teus amigos… Onde estão eles agora e o que já fizeram eles assim de tão notável?
- Pois, que posso eu dizer? Nesse aspecto a vida tem sido boa para mim…
- Pois tem, mas será que a tens aproveitado? 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Ulisses

Para hoje, um pequeno texto da minha autoria feito para a Livros de Ontem e baseado na magnífica ilustração do nosso logótipo, feita pela Nádia Amante. O imaginário do Ulisses está-se a construir...



Ulisses, terna criança que de seu destino pouco sabe. Outrora destemido guerreiro, abençoado pelos Deuses e aclamado pelos seus súbditos, tem agora o trabalho mais difícil de toda a sua existência: levar a sabedoria aos quatro cantos do planeta.

Despojado do seu corpo forte e viril, Ulisses renasceu para o mundo no corpo de um menino que, sozinho, carregará eternamente todo o conhecimento dos antepassados. Os Deuses atribuíram-lhe a missão de levar os livros, objecto do conhecimento, a todos quantos deles necessitem enquanto é forçado a iniciar uma busca pelos sábios escritores do amanhã.
Pobre menino, com tão grande fardo. Trazer sobre as suas frágeis costas os livros do antigamente para que os escritores do amanhã se revelem. Que nobre missão! Será Ulisses capaz?

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A cultura por cá


"A auto publicação é uma ferramenta na qual a LeYa se torna pioneira em Portugal mas que internacionalmente tem vindo a ganhar milhares de adeptos."

Começo este meu post com uma citação retirada do site do novo serviço da LeYa: Escrytos. Ao que parece, o lançamento deste novo serviço tornou o grupo editorial português pioneiro na auto publicação em Portugal, apagando simplesmente todo o trabalho já desenvolvido por outras entidades e pessoas. Parece que esta ideia caiu do céu para a LeYa que, na qualidade de entidade iluminada e mais perspicaz que todas as outras, a colocou em prática de forma inédita! O que vale é que as empresas portuguesas acham sempre que são pioneiras nalguma coisa e ninguém se parece importar com isso. Creio ser um abuso esta apropriação do trabalho alheio e o desprezo que a LeYa demonstra pelo estado da cultura portuguesa. Esta infelicidade do citado grupo editorial só vem reforçar a ideia que as editoras portuguesas são grupos empresariais de tamanho intolerável, orientados exclusivamente para o lucro, completamente alheados da realidade cultural e completamente impermeáveis à iniciativa do autor. Será pedir demasiado que as editoras se dediquem ao que, supostamente, é o seu objectivo essencial: editar autores e publicar obras de mérito para a cultura? Será pedir demasiado que os executivos responsáveis por estes grupos de orientação financeira desçam à sociedade civil e procurem os autores de mérito e de futuro? 

Parece-me absurdo esta pompa e circunstância no lançamento que não traz nada de novo ao mercado e ainda vem potenciar o reforço do distanciamento das editoras aos autores. "Para a LeYa esta plataforma vai ao encontro daquela que tem sido a sua estratégia no contexto da estimulação da criatividade editorial e até mesmo no da procura de novos talentos de língua portuguesa." Sim, talvez seja só mesmo para a LeYa que esta plataforma traz todas essas maravilhas. O que traz é tão simplesmente o reforço da precarização do papel do autor e a dilaceração da cultura escrita portuguesa. O que se pede às editoras é que apostem nos escritores, que os agênciem e que os aconselhem, que consigam filtrar o talento e o ajudem a florescer. Sem fazerem isso bem, é um erro absoluto a aposta em meios de auto publicação. Para isso já existem outras entidades que o fazem e de forma bastante competente. 

Enquanto a LeYa brinca aos empresários e à suposta inovação, há autores que ficam por ser descobertos, há textos de qualidade que ficam na gaveta, há aposta na inovação editorial que não é feita. Mas o importante é que o autor recebe 25% das suas vendas.

Baseado na notícia do P3 visível através do link: http://p3.publico.pt/cultura/livros/5775/grupo-leya-cria-escrytos-uma-plataforma-que-facilita-autopublicacao

Já não quero ser escritor!

Já não desejo ser escritor!
Esta ideia ocorreu-me depois de visionar o filme "Anna Karenina". Para ser mais preciso, trata-se de uma não-ideia e ocorreu-me ainda quando assistia ao dito filme, miserável, um embuste! Sou capaz de o rotular como o "pior filme que já vi", não por ser de facto de o pior, mas por ter sido o que causou mais decepção. Depois de ver este filme, já não desejo ser escritor. Enquanto assistia ao espectáculo, o único pensamento que me ocorria levava-me para junto do criador da história, fazia-me estar a seu lado perante tal atrocidade. Mesmo antes da indignação, um sentimento de pena arrebatou-me: pobre Tolstoi, deve estar às voltas na campa! É todo um trabalho destruído, todo um legado manchado. Uma vergonha, um ultraje! Deveria haver uma entidade responsável para proibir o nome do filme. Este deveria-se antes designar de "Visão do senhor Joe Wright e sua equipa acerca da obra Anna Karenina de Lev Tolstoi", ou então, "Mediocridade americana baseado no romance Anna Karenina de Lev Tolstoi". Pega-se num dos maiores clássicos da literatura realista e produz-se um filme com o mesmo nome de forma absurdamente subjectiva e parcial. Uma vergonha! Faz-se um filme baseado numa obra que dela apenas tira a história, o esqueleto da narrativa. Histórias há muitas e se calhar até melhores que aquela. A arte está na forma de a contar, de transmitir a mensagem. Se se quer brincar às mensagens subjectivas e às interpretações de realizadores então escolha-se outra história qualquer. Depois disto, não mais serei escritor! De que serve criar uma obra-prima se outros a destruirão? De que serve escrever a minha visão se outros virão que a deturpem por completo? De que serve escrevinhar uma mensagem se ela ficará esquecida quando se contar a história? Não quero pactuar com estes crimes à arte e à literatura! Talvez não deixarei de escrever, daí isto tudo ser uma não-ideia, mas certamente irei deixar no meu testamento que jamais se poderá cometer um perfeito homicídio contra qualquer das minhas obras. Talvez nunca chegue a ter obras que sejam boas para destruir... De qualquer modo, hoje estou de luto. Hoje sinto que a literatura ficou mais pobre, que a arte empobreceu. Que desperdicem a sétima arte em filmes de violência e histórias sem interesse, eu ainda posso tolerar. Um assalto desta natureza aos clássicos da literatura, é um escândalo! Não haverá limites para a mediocridade cinematográfica?

sábado, 8 de dezembro de 2012

Da distância e da ausência

A minha estreia absoluta em poesia tenta imaginar a resposta que a mulher do soldado do poema de Konstantin Simonov daria quando o seu marido chegasse a casa são e salvo após uma longa ausência. A distância é uma provação dolorosa e, de uma forma ou de outra, todos passamos por ela. Por vezes, ela pode destruir laços, terminar relações, causar incerteza... É sem dúvida a derradeira prova, um selector natural. O que à distância resiste, por nada mais será destruído. 


Esperei por ti, eu bem sei.
Da tua memória cuidei.
Esperei-te noite e dia,
escutei a tua voz em cada melodia.
Que saudades tinha eu de te tocar,
ver, ouvir e cheirar!
Esperei por ti todos os dias,
no fundo, sabia que ainda me querias.

Certo dia, as cartas cessaram
e os sinos não mais tocaram.
O Amanhã enegreceu e o Ontem definhou
mas, no meu coração, nada mudou.
Continuei-te a amar
mesmo quando o teu irmão deixou de brincar
e o teu cachorro parou de ladrar.

A altura chegou
em que o relógio parou,
em que cada hora, cada minuto,
impediram o meu luto.
Sabia que não tinhas sido vítima da morte
mas não te conhecia a sorte
e definhava lentamente,
nesta incerteza, nesta realidade indiferente.

Horas, dias, meses, anos,
tempo demais para ficar longe de quem gostamos.
O tempo passava e de ti não sabia nada,
se vivias ou jazias pela espada.
Mas eu esperei por ti,
abracei a saudade e contra a incerteza me revesti.
Aguardei a tua chegada,
à tua legítima morada.

Meu amor o que sofri...
Nesta incerteza, nesta dor que vivi.
A dor de te amar
e tu longe sem me beijar.
Quando eles beberam e rezaram,
a seu lado não me sentaram.
Permaneci sólida e levantada,
sabia que, algures, era por ti lembrada.
E certo dia tu chegaste,
pela porta, sozinho e cansado, entraste.
O meu mundo desabou: nem queria acreditar...
Meu amor, voltas-te para me amar!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Espera-me


Hoje trago-vos um poema de que gosto muito. Amanhã o inesperado.

Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Espera-me pelas manhãs vazias,
nas tardes longas e nas noites frias,
e, outra vez, quando o calor voltar.
Ai, nunca deixes de me esperar!
Espera-me, ainda que, aos portais,
as minhas cartas já não cheguem mais.
Ainda que o Ontem seja esquecido
e o Amanhã já não tiver sentido.
Espera-me depois que, no meu lar,
todos se cansem de me esperar.
Até que o meu cachorro e o meu jardim
não mais estejam a esperar por mim!
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Não dês ouvidos nunca, por favor,
àqueles que te dizem que o amor
não poderá os mortos reviver
e que é chegado o tempo de esquecer.
Espera-me, ainda que os meus pais
acreditem que eu não existo mais.
Deixa que o meu irmão e o meu amigo
lembrem que, um dia, brincaram comigo
e, sentados em frente da lareira,
suponham que acabou a brincadeira…
Deixa-os beberem seus vinhos amargos
e, magoados, sombrios, em gestos largos,
falarem de Heroísmo ou de Glória,
erguendo vivas à minha memória.
Espera-me tranquila, sem sofrer.
Não te sentes, também, para beber!
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Esperando-me, tu serás mais forte;
sendo esperado, eu vencerei a morte.
Sei que aqueles que não me esperaram
–  que gastaram o amor e não amaram –
suspirando, talvez digam de mim:
“Pobre soldado! Foi melhor assim!”
esses, que nada sabem esperar,
não poderão jamais imaginar
que das chamas eternas me salvaste
simplesmente porque me esperaste!
Só nós dois sabemos o sentido
de alguém poder morrer sem ter morrido!
Foi porque tu, puríssima criança,
tu me esperaste além da esperança,
para aquilo que eu fui e ainda sou,
como nunca, ninguém, me esperou!
Poema de Konstantin Simonov
Tradução de Hélio do Soveral

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Será que nos é permitido amar?


Será que nos é permitido amar? Amarmo-nos um ao outro com puro sentimento. E será que nos é permitido viver esse amor? Unirmos os nossos corpos e os nossos espíritos num só e estender através da vida do outro a nossa própria. Seremos realmente donos da nossa vontade? Conseguiremos nós domar todas as adversidades e tornar soberana a nossa união? Perguntas que me atormentam, respostas que eu não tenho. Não são inocentes as minhas questões. Pergunto aquilo que quero saber, aquilo que me preocupa. Procuro um futuro, uma união, uma relação. As minhas perguntas desfilam pelo longo caminho da dúvida, da incerteza. São tudo inquietações que escolhi ter, uma decisão que fiz há já algum tempo, no primeiro contacto, na primeira carta, no primeiro beijo... Agora vejo-me perante um ponto decisivo. As cartas foram jogadas e o jogo encontra-se todo em cima da mesa. As perguntas que fiz não foram inocentes. Fi-las porque gosto de ti, porque me interessas, porque quero descobrir o futuro. Será um futuro a dois ou longa estrada para um velho caminhante? O sentimento começa a remover as teias que prendem o coração e o espírito começa a ganhar um novo ânimo. Desta vez será permanente? E eis que partes. Vejo-me novamente sem ti. Fomos tudo e agora somos pouco. Vivemos da memória dos dias dourados, da lembrança da felicidade. Tudo o que tínhamos desfez-se com a distância. Agora estás longe, lá para os lados de Coimbra e eu aqui, sozinho, na capital. Voltámos a viver das cartas, das mensagens pontuais do desejo de novo encontro. Ainda ontem te tinha nos braços. Os teus lábios tocavam nos meus a toda a hora e conduzia por Lisboa contigo a meu lado, com a tua mão na minha perna. Nunca me esquecia da tua presença. A constante das mãos entrelaçadas, as conversas imperdíveis, os silêncios reparadores... Foi tudo tão mágico! Da incerteza do desconhecido à necessidade da companhia, da presença. O receio de te conhecer, de vir a não gostar de ti, foi suplantado pelo fascínio dos teus loiros cabelos, pela doçura da tua voz, pela tua rectidão. De postura direita e de trato refinado, projectaste uma imagem que eu vi como um guia, um modelo. A tua perfeição, a tua postura sobre as matérias leva-me a admirar-te e a esforçar-me por te acompanhar. És como uma imagem de perfeição que eu tento alcançar e a tua presença é um guia para mim, um modelo para seguir. Gostei do que vi, gostei do que senti. As palavras que me endereças-te em todas aquelas cartas tiveram a sua materialização perfeita. Agora só nelas me posso refugiar. Agora só podemos existir na sua releitura. Mas não só das nossas palavras se faz a história, também o que outros escreveram antes de nós, os nossos antepassados, entra para a equação. Tenho lido os grandes clássicos da Rússia, os escritos dos grandes mestres do romance. De alguma forma, consigo rever-te através das personagens fictícias e reviver o nosso fugaz romance através das suas eternas juras de amor. Ainda não tenho as respostas para as minhas perguntas e talvez nunca venha a ter. A vida deve ser vivida, dia após dias e, para ajudar essa vivência, temos a experiência, a memória, o passado... O futuro ao futuro pertence e nele estão todas as respostas que procuro. Não devemos procurar saber demais, conhecer o inteligível, antecipar o nosso fado. Não sei o que temos nem o que vamos ter, não sei o que somos nem o que vamos ser. Mas sei o vivemos naqueles dias, lembro-me do que tivemos nas nossas mãos. Gostava de saber que o amor está ao nosso alcance agora como esteve nesses dias. Que a distância que nos separa não separa as nossas almas, as nossas mentes. Que esta aposta que fazemos não é um erro, uma árvore sem frutos, estéril... As cartas já foram jogadas e o jogo está em cima da mesa, à vista de todos. Abandonamos a sala ou continuamos a jogar?

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Da ladra, dizem alguns...

É a feira das cinco. Da ladra, dizem alguns... Uma feira onde artigos roubados são trocados e vendidos a uma hora da manhã tão precoce que nem a autoridade está desperta para o que se lá passa. Dizem que é o covil dos ladrões de toda a Lisboa, o seu local de trabalho onde tudo se vende e tudo se compra sem que perguntas sejam feitas. Aconselham-me cautela com os pertences que comigo carrego e despertam-me para a provável origem ilícita daquilo que compro.

Eu não vejo isso. Percorro as ruas adjacentes ao grande panteão e vejo magia no ar. Vejo pessoas honestas vendendo o que têm e o que encontram como forma de subsistência ou rendimento extra. Vejo artigos que em lado algum me seria possível encontrar. Vejo mundos muito diferentes desta Lisboa incógnita que se cruzam e intersectam nesta feira anacrónica. Parece que aquele espaço não existe no mundo real. Num dia, enche-se de pessoas e mercadorias e, no outro, nada lá se passa. De cada lado da estrada são dezenas as pequenas bancas que tudo vendem. Pessoas que já ali comercializam as suas memórias desde que há memória e estreantes que ali vão pela primeira vez. Todos vendem o que já não querem, o que já não precisam. Artigos usados, coisas velhas. Bens que nunca poderia ver, tocar, sentir e comprar noutro lado.
Desde as cinco da madrugada que ali são estendidos os lençóis, despejadas as tralhas e esperados os visitantes. Ali não há pregões nem anúncios. Quem vende conhece os seus produtos e sabe que não precisa de os apresentar, eles falam por si próprios, têm uma história e uma vivência que, por vezes, antecede o próprio vendedor. Quem compra não precisa de convite, sabe ao que vai e sabe escutar os objectos que procura. É a feira das histórias onde apenas isso se vende. Não são produtos ou bens, são histórias. Histórias que se fazem ouvir ao caminhar por entre as bancas, histórias antigas que nos prendem a atenção e nos chamam para um olhar mais atento. Livros antigos de páginas amareladas, postais endereçados sem resposta, fotografias de desconhecidos perdidos no tempo… Memórias que já foram assimiladas por quem devia e que agora estão ali à disposição para alimentar a curiosidade e o sonho compradores interessados. São objectos que saltam de geração em geração cuja origem e propósito fica desconhecido levando-nos a imaginar toda a viagem. 

O ambiente é de magia e a nostalgia envolve-nos. Somos transportados do mundo físico a que estamos habituados para um espaço intermédio onde o tempo não passa e o sol não queima. O anonimato lisboeta morre e a solidão dos velhos desaparece. Ali fala-se, escuta-se e pergunta-se. A indiferença à história alheia dá lugar ao respeito pela memória que nunca vivemos.

Se alguma vez me perder procurem por mim lá. Conto lá estar, a vender as minhas velharias que em tempos foram novas, a vender as minhas memórias que em tempos foram realidades. Não me digam que é da ladra, pois ladrões há-os em todo o lado. Digam-me antes que é das cinco pois quem lá vai sabe que é a essa hora que se compram os melhores artigos. Digam-me antes que é das histórias pois quem lá vai sabe quantos mundos por lá andam, uns perdidos outros encontrados. 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A ti, musa sem nome

Ontem vi-te. Passava na rua caminhando atarefado, como sempre faço depois do trabalho. Olhei o céu e as nuvens apressadas, olhei as árvores e as folhas que caíam. O meu olhar divagava em meu redor e puderam em ti repousar. Estavas à janela. O teu longo cabelo esvoaçava ao sabor do vento outonal. A tua pele, sempre morena, contrastava com a melancolia do ambiente que te envolvia. Parecia um retrato de onde tu destoavas. Sobressaías da pitoresca fotografia e o teu olhar atraía particular atenção. 

Ontem vi-te. Estavas triste, ou pelo menos o teu olhar assim dizia. Tentei compreender o que ele queria transmitir mas ele era vago e sem alegria. Olhei bem fundo e não gostei do que vi. Sofrimento, apenas sofrimento. Bebias um chocolate que fumegava de tão quente estar. Talvez tentasses aquecer a alma, reconfortar o espírito. 

Ontem vi-te mas tu não me viste a mim. O olhar estava vago e a mente noutro lugar. Parecias viajar a pensamentos inóspitos e divagar em sentimentos dolorosos. Eu observei-te durante algum tempo, vi a tua expressão. Compreendi que não estavas em casa, que não estavas à janela, e dei por mim a desejar que voltasses.

Tu não me viste mas eu vi-te a ti. Queria-te falar, afastar as saudades que já se vão alojando. Todos os dias o meu olhar varre a tua rua e coloca esperanças na tua janela. É instintivo  irracional. Acho que gostava de te ver mais vezes. A tua face bela, a tua expressão ímpar. Gostava de me perder em cada aspecto da tua personalidade, conhecer cada canto do teu ser. Gostava também de conhecer o teu corpo, sentir-te de manhã ao acordar. Tenho muita paixão para te dar, muito amor para te entregar. Queria conhecer-te ao pormenor, saber o que fazes e por que o fazes. Conhecer cada nuance do teu íntimo. Quero também saber como beijas e como amas, ver como te aconchegas e como adormeces. 

Espero que me vejas em breve. Espero ver-te em breve. Poderemos trocar umas impressões, partilhar esse teu chocolate. Se quiseres podes também vir comigo, tenho o carro já ali... Há tantos sítios que gostava de te mostrar, sítios lindos e belos. Vamos fugir desta cidade à qual pertence a nossa rotina. Vamos a sítios novos e exclusivos. Iremos juntos, tu e eu. Rumo a um conhecido que ainda não conhecemos juntos. Iremos e voltaremos de novo, sob as estrelas do céu de Outono. Ontem vi-te e voltarei a ver, se vieres comigo. Nunca mais te procurarei à janela, abrirei a porta e entrarei. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Hoje vi o povo

Uma coisa que escrevi no dia da Manifestação do Ensino Superior 22/11/2012

Hoje vi o povo. Centenas de estudantes que saíram à rua em defesa dos seus direitos, em defesa de um ideal em que acreditam. Vi pessoas como eu que interromperam o seu quotidiano e foram para a rua gritar. Vi rostos desolados, olhares sem esperança. O povo já não ri, o povo já não sonha. Sim, hoje eu vi o povo. Essa entidade da qual todos falam mas que poucos compreendem. Hoje não vi pessoas isoladas, personalidade sozinhas. Vi centenas de estudantes, pessoas, cidadãos, em sintonia perfeita que caminhavam lado a lado. Isso é o povo. Não sou eu nem és tu, somos todos nós, juntos. Uma massa que grita, um conjunto que marcha. 

Não desprezem o povo, não o ignorem. O povo não existe! É uma ideia, um ideal.  Uma categoria uma agregação, pessoas de diferentes realidades. O povo só se forma quando pessoas se juntam, quando há união. O povo só se forma quando o ego desaparece, quando a individualidade se junta ao colectivo. É uma causa comum, um conjunto de indivíduos. Hoje vi esse conjunto. Um ideal que se materializou. Todos quantos ali se reuniram, todos quantos ali gritaram, todos quanto ali expressaram o seu descontentamento formaram esse conjunto, criaram esse conceito. 


Hoje vi o povo. Éramos muitos. Eu também lá estava, fiz parte dele. Ajudei criá-lo e, no fim, deixei-o morrer. Quando a última voz parou, quando o último grito soou, quando o último espírito serenou, o povo morreu. Mas há-de voltar a nascer, há-de-se erguer de novo. Ele virá quando dele precisarmos, quando se sentir a sua falta. Ele há-de vir das brumas, numa manhã de nevoeiro. Aí não seremos centenas de estudantes, seremos milhares de pessoas, milhares de cidadãos. Todos juntos faremos o povo mais forte que nunca e então lutaremos! A injustiça deste mundo, o mal deste país, tudo ruirá. A praia jaz debaixo do chão que calcetámos, debaixo do cimento das nossas estradas. Iremos procurá-la, todos juntos! Uns irão cantar, outros tocar, uns irão escrever e outros ler, uns irão gerir e outros construir, mas todos iremos governar, guiar o destino e decidir a fortuna

Todos somos diferentes mas todos somos iguais. Há opções e talentos que nos separam mas uma condição que nos une. Chegará o tempo em que daremos as mãos e aceitaremos esta condição. Chegará o tempo em nos veremos como irmãos.

domingo, 25 de novembro de 2012

Um passo no passado, um avanço no futuro

Hoje dei um importante avanço na minha demanda, na busca do meu ser. Olhei-a nos olhos e vi-me, a mim e não a ela. Vi a minha imagem como nenhum espelho alguma vez me mostrou, defini-me como nenhum comentário e opinião alguma vez definiu. Não vi um corpo, com músculos e expressões. Vi uma ideia, um abstracto. Reconheci-me ali. Um constante de mudança e permanência, um conjunto de ideias e pensamentos, um corpo e uma ideologia, sensações e emoções que a linguagem não pode reproduzir. Desviei o olhar. Não suportava mais. Arranjei um assunto qualquer para conversar. 

O meu pensamento divagava sobre o sucedido. Terá ela visto o que vi? Será que a imagem reflectida nos olhos dela lhe chegou até ao cérebro  Será aquilo que ela pensa de mim? Acho que nunca saberei. Não lhe consegui perguntar e agora é tarde demais. Muito tempo já passou e a imagem, se de facto era real, decerto já foi contaminada. 

Eu, como todos os meu semelhantes, não sou uno e indivisível. Não tenho uma identidade única fixa. Não tenho uma história linear. Eu defino-me na minha multiplicidade. Naquilo em que acredito e nas contradições que isso acarreta. Não sou as discussões que venço mas os argumentos que saem frustrados na tentativa de expressar um pensamento. Sou contraditório e as contradições definem-me na minha plenitude. Como pode um espelho reflectir tudo isso? Como pode um juízo identificar tudo quanto sou? Como pode uma opinião apresentar-me por completo?

Eu sou o que digo e o que não digo. Sou o que faço e o que fica por fazer. Sou o que penso e o que transmito. Uma ideia que fica por expressar e outra que grito na rua. Não me digam que me conhecem. Não me digam que previam o que iria fazer. Não me digam que sabem quando da sabedoria todos estamos privados. Não tenho paciência para hipocrisia nem falsos filósofos  Nem aquela que me viu, me viu realmente. Viu-me a alma, a essência, mas logo esqueceu, logo poluiu a sabedoria. Olhou mas não viu, espreitou mas não apreciou. Quando olhou de novo já não viu o mesmo. 

Parece que o universo em seu redor se transformou profundamente nos instantes entre olhares. Parece um cubo de Rubik. As faces do cubo alteram-se entre si mas, no fundo, nunca deixamos de estar perante essa forma. Faces da realidade que nós não víamos assumem a sua posição à mercê do espectro visível e, a mesma forma, assume novas realidades tangíveis. Como uma obra de arte, sempre igual a si própria mas sempre diferente a cada apreciação. Vemos sempre faces diferentes da realidade de uma forma que nunca muda. É um defeito humano, olhar e não ver. É uma qualidade humana, re-inventar a realidade sem nela sequer tocar. É tudo uma perspectiva, uma ideia. E garanto-vos que a ideia é a coisa mais forte que existe neste mundo. Uma coisa sim, não palpável nem visível mas com uma coisidade própria. Podem-nos tirar tudo, até a esperança, mas uma ideia persiste na mente e tem a capacidade de se reproduzir e de crescer a uma velocidade ainda pouco compreendida pela inteligência das pessoas. Hoje, olhei-a nos olhos e vi-me, a mim e não a ela. Recordei uma personalidade, uma essência. Características que criei e que transporto comigo todos os dias do quotidiano. Hoje, recordei o que fui, recordei o que sou, recordei o que serei, num futuro que não conheço. Hoje, recordei o futuro. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Para recordar o futuro

Por vezes desejamos esquecer. Esquecer um passado que não nos foi favorável ou que não decorreu segundo o nosso critério. Tarde compreendemos que tal não é possível. Podemos recalcar as memórias desafortunadas e aprisioná-las no canto mais remoto da nossa mente. Podemos até disciplinar o nosso espírito para viver o quotidiano sem que a memória indesejada aflore à superfície mas, quando as nuvens encobrirem o sol asfixiando a beleza dos seus raios dourados e quando a euforia do verão for substituída pela melancolia do outono, então essas memórias indesejadas voltarão para nos assombrar com mais força do que nunca. Os sentimentos e sensações de cuja memória queremos apagar, sempre voltam à ordem do pensamento quando deixamos de controlar o que nos envolve e uma coisa é garantida, não estaremos no controlo total do nosso ser para sempre. Haverá um acontecimento inesperado, um estado de espírito com que não contávamos, uma perturbação no meio que nos rodeia. Aí, os sentimentos recalcados e as memórias indesejadas que estão bem enterradas lá no fundo do pensamento irão voltar à ordem das ideias e assaltarão violentamente o quotidiano. Uma idiotice se a minha opinião for permitida. Uma ideia de quem não pensa, um vazio. Pensar assim é um luxo a que não me posso dar. Será que há quem acredite que o um desaparece quando vem o dois? É do domínio geral que o dois surge da adição ao um, que o precedeu. Não seremos também nós dessa maneira? Ser é existir que, por sua vez, implica viver. Uma soma de experiências, sensações, emoções, ideias e tantas outras coisas que se precedem numa lógica aditiva. Nada substitui nem é substituído  Tudo quanto faço, penso e sinto será a vivência que me compõe e nada será apagado da minha identidade. A pessoa é formada em profundidade e não no mero momento temporal. É por isso que, geralmente, se atribui uma determinada idade à chamada maturidade. Reconhece-se que o ser humano precisa de acumular uma série de experiências, vivências e normas para formar o seu carácter. Ainda me falam em mudar? Uma comédia, um gracejo! Ainda gostava eu de ver esse momento tão excepcionalmente marcante capaz de apagar uma vida de ideias e pensamentos. Tal coisa não existe. Claro que todos mudamos, o progresso é a ordem natural da vida. Mas não me falem em mudar o carácter do homem através de uma experiência ou momento pois tal é mera ficção. A mudança existe e é inerente ao homem mas ela é feita num processo e em moldes definidos pelo carácter anterior da pessoa. O passado não desaparece quando passamos ao presente ou consideramos o futuro. O passado, as memórias, estará sempre lá e é bom que aprendamos a conviver com ele. Aproveitar o que fomos e quanto fizemos para melhor formar o somos hoje e seremos amanhã. 
Eu não penso em esquecer. Não posso esquecer. É algo que me ficou proibido pelo medo que tenho de perder a memória e não me lembrar de tudo quanto fiz e aprendi. É o meu maior medo! Uma vida construída no presente para um amanhã melhor e ele poderá não vir. Apenas um vazio. Uma falha na memória que nos oculta tudo quanto fizemos. Oculta-nos quem somos. Como posso eu querer esquecer? Como pode alguém querer esquecer? Se esquecemos há uma parte de nós que morre. Um espaço de tempo que é apagado e desaparece do continuo da vida. Ficamos com um carácter retalhado, com falhas. Um processo que deveria ser contínuo e cumulativo. Se agora desejar esquecer, chegará o tempo em que quererei lembrar. Aí, não haver forma de recuperar esses pequenos momentos, parte de quem eu sou. 
O artista escolhe os seus maiores medos e pensamentos permanentes num período considerável da sua vida e disserta sobre eles na tentativa de os superar. No meu caso trabalho para a minha salvação. Vivo aterrorizado com a possibilidade de perder a memória, de perder tudo quando sou, fui e serei. A minha identidade. Então escrevo. Escrevo para mais tarde recordar. Coloco quem sou num bloco de apontamentos. Tento nunca esquecer o passado pois sem ele não poderei recordar o futuro. Só assim conseguirei não me perder. Quando esquecer, poderei ler para lembrar. Obviamente que não me interessa todo o momento do quotidiano. Interessa-me mais o conjunto que a soma das partes. Interessa-me a essência que surgiu do dois e não da mera adição dos dois uns. 
Quem sou eu? Uma projecção de quem fui? O resultado majorado de todos os pequenos momentos do passado. Não sei quem sou. Sei que não sou quem dizem eu ser, nem tão pouco aquela imagem que me aparece no espelho. Eu não sou nada disso, sou mais. Como podem os outros saber quem eu sou se nem eu próprio sei? Como pode o espelho mostrar-me quem eu sou se não me reconheço nele? Vivo constantemente nesta busca. A mim não me interessa riqueza ou glória, apenas saber quem sou, o que faço aqui. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Requiem


E agora que morreste. Partiste para onde sei que te encontras e que eu não posso ver. E agora que morreste. Quem será o meu amigo, quem me guiará? E agora que morreste. Separa-se a alma e o corpo, fica a memória e a saudade. Enquanto eu viver, viverás tu também através de mim. O meu corpo será o teu e a minha palavra a tua. Servir-te-ei como sempre te servi e tudo farei para que o teu espectro nunca abandone este mundo dos vivos. Para onde eu for, tu seguir-me-ás. No que eu fizer, tu ajudar-me-ás. Partes deste mundo das sensações e das experiências para encontrares o teu lugar num sítio melhor. És as árvores que crescem, as folhas que caem, o vento que sopra e as crianças que nascem. És a erva que brota e a nascente que jorra. Partiste meu pai. Partiste mas eu sei que nunca me abandonaste, que continuas aqui, ao meu lado, a velar por mim, pela nossa família e por toda a humanidade que prossegue no seu caminho. Juntaste-te ao conselho dos sábios que tudo vê e governa, juntaste-te à energia que anima toda a Terra. Na minha memória fica o teu sorriso, a tua mão no meu ombro. Enquanto disso eu me lembrar estarás aqui, nesta igreja, nesta aldeia, neste mundo, comigo e com todos os que ajudaste e com eles privaste. Eras único, como tu não houve ainda igual. Dotado de uma riqueza sem igual, no espírito e na mente, na mão que o trabalho completava. A tristeza que sempre te vi no olhar e a reserva que tinhas em florir para o mundo tinham as suas raízes no momento da perda da mãe. Nunca a conheci mas sei, através de ti, que era uma mulher fantástica. O teu amor por ela era algo que as meras palavras não podem explicar. Sei que lhe deste grande parte de ti e que, quando ela partiu, não conseguiste recuperar o que deveria encher esse vazio. Admiro-te tanto meu pai! Quando a pressão atingiu o seu limite e quando a vontade de desistir conheceu o seu apogeu, tu pegaste na trouxa e foste trabalhar, tal como fazias todos os outros dias da tua vida. Estavas totalmente devastado, destruído por dentro, com a alma dilacerada. Ainda assim, continuaste. Por mim… Nunca desististe, nunca me deixaste. Nunca fui rico ou instruído mas não deixei de comer por um único dia da minha vida. Se hoje aqui estou, casado com uma linda mulher e pai de quatro magníficos filhos, devo-o a ti meu pai que, todos os dias, foste trabalhar para ganhar o pão que nos alimentou, mesmo odiando a tua ocupação. Se o meu presente é maravilhoso e o futuro risonho, devo-o a ti que tiveste a visão de me guiar pelos caminhos sinuosos do mundo. E agora que morreste. Sabes que eu não estou triste, foste tu quem me ensinou a ser assim. Foste tu quem me ensinou que a morte precede a vida e que a memória precede a morte. Vou-me sempre lembrar de ti, meu pai. Todas as noites, contarei aos meus filhos, aos teus netos, as nossas aventuras e tudo aquilo que vimos e vivemos. Juro-te que lhes darei tudo o que estiver ao meu alcance e que tudo farei para continuar a nossa maneira de ser e viver, que tu começaste. Eu não te posso ver, meu pai, mas sei que estás aqui, e além, e acolá. Já não és mais o homem que me ensinava os mistérios da vida, que me contava os segredos sobre as estrelas, que me ajeitava na sela do cavalo e que me orientava nos meus deveres. Mas eu também já não sou mais esse petiz que te olhava embevecido quando falavas à luz da fogueira. Agora chegou a minha vez de ser o homem, tomei o teu lugar, e tu juntaste-te aos nossos antepassados para juntos formarem a energia que permite o mundo funcionar. Não é fácil ocupar a teu lugar. Preencher o vazio que criaste torna-se ainda mais complicado quando a tua família, os teus netos, os teus vizinhos correm a pedir conselho e sabedoria. Eu próprio careço de guia por vezes, não estou em posição de comandar, de ser o chefe de família que tu eras, de ser o Homem que tu outrora foste. A vida pai, a vida é como um rio. Foste tu próprio quem mo disse. A história da vida, de uma vida, não é singular. Bem sei que a sua complexidade, tal como o seu valor, advêm dos inúmeros episódios que constroem o seu corpo principal. E nós bem que tivemos os nossos momentos… A vida serve para viver, senão não pode sequer ser chamada de tal, e nós vivemos bem a nossa! Hoje não haverá choro e a tristeza não terá lugar. O sino soou onze vezes, tantas vezes quantas as estrelas que irei baptizar em tua honra. Hoje celebra-se, não a tua morte mas sim a tua vida. Celebramos quem foste e o que fizeste enquanto por cá andavas. E agora que morreste, toda a aldeia veio ao teu funeral. Todos os que conhecias e cumprimentavas, todos os que se riam e te saudavam. Mas não são apenas esses que enchem esta igreja. Dezenas de outros vieram também. Outros de outros lugares que não conhecemos, pessoas de que nunca sequer ouvimos falar. Mas todos vieram hoje a este lugar. Todos largaram os seus afazeres e percorreram longos caminhos para aqui estar. Hoje, agora. Todos vieram para te ver e por ti rezar. Talvez tenham algum recado para te dar, alguma palavra que não foi dita, algum momento que não foi vivido e vieram aqui, agora, para fechar esse círculo. Sim pai, agora que morreste.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O teu cão branco de papel - 2ª parte

...continuação














O teu pensamento está longe, no estrangeiro diria eu. Um amor prometido, um amor perdido. Promessas que se fazem e laços que se partem. Ai de mim! Um intruso na própria história que estou a criar... À nossa volta as pessoas tagarelam sem parar, a música toca para as conversas esgotadas, os empregados trabalham numa azáfama esgotante e a nossa amiga fala para uma audiência vazia. É tudo uma distracção. O mundo a acontecer à minha volta e eu parado no tempo, incólume ao que se passa. É uma janela de tempo que me passa ao lado e por onde nunca eu irei espreitar. Só consigo fitar-te e tentar perceber o que te torna tão irresistível. Parecer caída num autismo extremo que virou a tua atenção para dentro de ti. Mais ou menos o posto do que se passa comigo. Eu sinto-me completamente esmagado pela imagem de ti que se constrói dentro da minha cabeça, pelo que começo a sentir por ti. Uma sombra do futuro que se começa a formar ainda hoje. Tu não compreendes nada do que está a acontecer. Tentas curar a mágoa de um infortúnio amoroso, acabando por fechar os olhos para o que gira em teu redor. Tentas perceber o fim de um laço, de uma relação. A sentença foi ditada na noite anterior, quando discutiram ao telefone mas a inevitabilidade já tinha sido criada anteriormente. Tentas perceber quando a chama começou a esmorecer mas não compreendes. A cegueira que tens é mero reflexo daquela que costumavas ter. Ainda há pouco, quando estava no conforto do meu automóvel, não sentia nada disto. A minha atenção estava centrada na condução e o meu sub-consciente cantava alegremente as canções da rádio. Agora observo-te e experimento um estado de espírito totalmente oposto. Quando vinhas no banco de trás do meu carro não tinhas essa mágoa no olhar. Vi-te dezenas de vezes através do retrovisor. Falavas e cantavas, esboçavas até um pequeno sorriso. Parece um mundo diferente não é? Parece que estamos numa realidade paralela, diferente... Que fazes tu com esse pedaço de papel branco? Todas essas dobras e recortes... Estás consciente do que fazes ou as tuas mãos trabalham a um mote diferente do teu pensamento? Penso que ainda continuas absorvida nas tuas ideias, encantada, e isso que agora fazes não é racional. Quatro pernas, uma cabeça, duas orelhas e uma cauda... Acabas de recortar um pequeno cão branco de uma folha informa. A tua tristeza fez-te criar um "amigo". Tinhas que o inventar? Sempre me esforcei ao máximo para ser esse amigo que o teu sub-consciente projectou nesse cão branco de papel. Nunca quiseste saber... Sempre fiz tudo quanto estava ao meu alcance para agradar, ajudar. Sempre te de dei muito mais do que aquilo que pedias e precisavas. E tu? Recortas um refúgio de uma folha branca... Que tristeza eu sinto! Desejo sair desta mesa e abrigar-me no carro. Ao menos lá não sinto frio... Mas tu não me permites a saída. Já mencionei que te olhei durante todo este tempo? Não me importa que não retribuas o olhar, o pensamento, o sentimento... Quando nos formos embora vou pegar nesse teu cão branco de papel que certamente vais deixar para trás e vou guardá-lo. É como se me fosse permitido ficar com um pedaço teu e depositar nesse totem aquilo que a ti me liga. Só tu importas. O resto, o resto é distracção.

FIM

domingo, 11 de novembro de 2012

O teu cão branco de papel - 1ª parte

Sobre a mesa, um café. Logo outro se apressa a juntar-se-lhe seguido de outro. Três. Tantos cafés como pessoas e, porém, apenas dois cigarros se acendem. Entre os bafos prazenteiros e o expelir do fumo que viaja desde as entranhas dos pulmões, passa pelos lindo lábios vermelhos e se desvanece no ar criando uma pequena nuvem desfocada que, decerto, manchará o odor das minhas roupas noto que a lua está cheia e o tempo frio. Quando conduzia, ainda há pouco, não poderia adivinhar que a noite estava assim tão fria. O conforto que o habitáculo do meu automóvel me proporciona é deveras ilusório e escasso. Ainda há pouco estava relaxado no estofo macio do assento e ouvia, calmamente, a música que seleccionara sem sentir qualquer réstia do tempo húmido e frio que, descobri estar no exterior. Agora estou sentado a uma mesa numa cadeira rija e desconfortável, com os ossos enregelados e abafado pelo fumo dos cigarros. Que situação desagradável! As roupas que trago vestidas não se adequam ao frio húmido do tempo e refugio-me no café a escaldar para me aquecer. Aquece o corpo e a alma, tudo naquela pequena chávena. Quanto mais pequena melhor, a minha bica. São assim os melhores prazeres! A lua está cheia e os cafés são três mas os meus olhos, quando por ti passam, demoram-se a tentar perscrutar a tua mente. Os teus longos cabelos negros misturam-se com o negro dos teus olhos e nem a escuridão da noite me impede de ver o que eles transmitem. Olhas para a lua e eu vejo-a reflectida em ti. Está cheia e brilhante, assim como a tua mente que divaga ao abrigo das esperanças incompreendidas. Um último trago esvazia a minha chávena e, com aquela última porção de café, vai-se todo o prazer em estar ali, sentado àquela mesa. A tua mente parece perturbada e isso reflecte-se nos teus olhos. Segundo dizem, os olhos são o espelho da alma. Uma grande verdade que encerra a expressão e um engano que provoca a palavra. O que é a alma senão a nossa mente? Ou melhor, o que é a alma senão os sentimentos, as emoções, a cultura e as ideias? E onde está tudo isso? Pessoalmente nunca as vi e duvido que alguém já tenha completado esse feito mas acredito que estão na mente. Onde mais poderiam estar? Hoje os teus olhos espelham tudo o que se passa dentro de ti: a confusão, as dúvidas e o ressentimento. No entanto, toda a perturbação que eles contam é ocultada pela tua aura de beleza. É como se a tua pele, sempre morena, irradia-se um brilho ofuscante que realça a tua beleza e esconde a tua dor humana. E os teus lábios, desenhados no rosto com um traço seguro e bem dominado, escondem as cruas palavras que proferes tornando-as numa música que se esforça por encontrar os meus ouvidos. Os cigarros acabam finalmente. No maço, mais que meia dúzia. Uma tortura! Tudo em meu redor me perturba, o frio, o fumo, o prazer do café que acabou... Olhar para ti é o pior! Ver-te aí, tão perto e tão distante. Pergunto-me que assunto te levará o pensamento para tão longe. Na verdade sei-o mas prefiro fingir a ignorância. A verdade dói! Não tem dó nem piedade. Parece que alguém a concebeu para ser assim, dolorosa...

Continua...

sábado, 10 de novembro de 2012

Esclarecimento sobre "Crónica de um amor burguês"


Quero começar a minha resposta à Carla com um agradecimento pelo comentário tão extenso e tão bem escrito que publicou aqui no blogue. Para mim é muito comovente ver que as minhas mensagens estão a chegar a algum lado, ao outro lado. Ver que os textos que escrevo não estão a morrer no arquivo virtual destas páginas imaginadas e que estão realmente a chegar a pessoas que os lêem e se interessam por eles ao ponto de comentar as ideias que deixo por lá. Quero mais uma vez frisar que são todos muito bem-vindos a comentar o blogue seja com ideias pessoais, sugestões, textos próprios ou apontamentos aos meus. Farei o meu melhor para responder a todos eles.

Antes de chegar ao comentário que a Carla fez no texto "Crónica de um amor burguês - 2ª parte", apraz-me salientar que apesar do meu estilo de escrita me levar, frequentemente, a escrever na primeira pessoa, tal não significa que as experiências ou as ideias presentes no texto sejam minhas e que as tenha vivido na primeira pessoa. A escrita na primeira pessoa é uma opção literária consciente que eu adopto para dar aos meus textos um lado mais humano, algo que os aproxime mais dos leitores. Obviamente que os meus textos não se desligam de mim, afinal sou eu quem os escreveu e eles partiram directamente das minhas ideias e visões sobre os assuntos, mas a escrita na primeira pessoa é utilizada para humanizar os sentimentos e sensações e não para relatar eventos específicos que se tenham passado comigo.

Falando agora, mais especificamente, sobre o texto "Crónica de um amor burguês" quero dizer que ele não reflecte a minha posição sobre o amor. Trata-se de uma crítica ao modo como a sociedade moderna tem tratado o assunto sem, porém, efectuar nenhum juízo de valor. Acima de tudo, pretendia demonstrar que a sociedade moderna tem abordado o amor, tanto como os outros sentimentos, segundo uma perspectiva que se coaduna quase na perfeição com o modo de organização social, ou seja, que uma sociedade de valores orientados para a competição, o lucro e a maximização tem abordado os vários sentimentos numa lógica de acumulação de bem-estar pessoal através da materialização especializada das manifestações públicas. Com isto quero chamar a atenção para o fenómeno de industrialização dos sentimentos que está a monopolizar o campo das manifestações e demonstrações sentimentais. Coisas como a simbolização de datas ou produtos específicos em torno de sentimentos: o dia dos namorados, o dia da mãe, o dia de todos os santos, etc. Os exemplos são infindáveis. Mais uma vez quero chamar a atenção para a ausência de juízos de valor neste meu argumento. Isto não é bom nem mau, é um facto. Como tal, temos de o compreender a aprender a lidar com ele. O facto de existir o dia de todos os santos em que está institucionalizada a ida ao cemitério para visitar os defuntos não deve inibir que o culto e homenagem aos antepassados se faça apenas nesse dia. O meu argumento surge neste sentido para compreender estas dinâmicas. O assunto é muito interessante e seria objecto para muitas e muitas páginas de reflexão pois este facto social incorpora toda uma dinâmica própria e manifesta-se sob dezenas, centenas ou até milhares de formas, formas sobre as quais eu ainda nem reflecti. É por isso que me quero focar no amor, para ir de encontro ao meu texto que originou este esclarecimento. A minha perspectiva pessoal sobre o amor e os sentimentos está contida de forma muito fidedigna no meu livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis", cujo excerto tive oportunidade de colocar aqui no blogue. Uma forma de abordar o amor que vá muito mais ao centro da questão e que não se fique pela superficialidade retratada na "Crónica de um amor burguês". Penso que o amor não pode ser burguês, ou seja, não se pode refugiar nas manifestações materiais a que nos habituámos a identificar como formas de de demonstrar que gostamos de alguém. Claro que o meu argumento não é radical, ou seja, acho que é muito importante que nos dediquemos a escrever cartas com tinta permanente ou decorar o local de um encontro com pétalas e velas desde que isso não seja o nosso objectivo último. Tudo isso que foi descrito na "Crónica de um amor burguês" deve ser uma forma de agradar à outra pessoa para a mimar e tratar bem desde que não seja encarado como a totalidade do sentimento. O amor é algo profundo do ser humano e a sua análise deve ser feita através de uma introspecção que mergulhe no carácter e na essência da pessoa, ultrapassando a efemeridade do presente ou da perfeição da tinta. A parte não pode ser tomada pelo todo porque o amor é tão mais profundo quantas camadas conseguir penetrar e quanto menos visível se conseguir tornar para a efémera visão humana.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Segunda Parte - Composição I


A esta altura, na sequência do texto que publiquei "Crónica de um amor burguês", faz todo o sentido clarificar a minha posição e ideias sobre o amor. Para tal, deixo aqui um excerto da Composição I que é parte integrante do meu primeiro livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis", podendo ser encontrado na Segunda Parte do livro. Escolhi este excerto pois acredito que ele dá uma ideia muito mais clara sobre a minha forma de ver o amor em detrimento da "Crónica de um amor burguês", escrita em tom de crítica ao modo como a sociedade moderna encara este tema.

Q



uando sinto a chuva a acariciar-me o rosto, são as tuas lágrimas que caem sobre mim como agulhas incandescentes e se entranham na minha alma. Quando sinto o sol beijar-me a pele, é a ira que transparece nos teus olhos e me leva numa viagem até às profundezas de tudo e me queima como uma labareda infinita. Quando sinto o vento passar por mim, é a tua raiva e a fúria que faz levitar tudo à nossa volta e que me trespassa o coração, tal lança afiada e pontiaguda que é. Quando sinto a areia seca que me escapa por entre os dedos, é a tua tristeza e desilusão que me causa uma dor aguda e me faz também querer desintegrar-me e desaparecer. Sentir que te faço sofrer, causa-me vergonha e desorienta o meu humilde ser. Abala toda a minha consciência e os meus sentimentos pois a minha razão de ser é a tua felicidade. Oh! Só Deus sabe como eu nasci para isto… Eu nasci para te encontrar e para te fazer feliz. E seremos então a união perfeita de dois seres humanos. A união mais perfeita que pode existir. Oriento toda a minha acção para este supremo objectivo. Quando não o consigo, os quatro elementos libertam as suas amarras que acorrentam o meu espírito e o deixam eternamente na masmorra do esquecimento. Mas eis que surge a sombra no fundo da caverna. És tu que te levantas atrás de mim e fazes deslizar suavemente pelo vazio a espada dourada de dois gumes. Não importa onde me agarre, hei-de sempre ferir a minha pele sensível. Por mais robusto que me torne, nunca poderei estar preparado para o que de ti surge. Pego na mesma. Não havia de ser por isso que recusaria algo teu. É então que olho para trás. Aceito a mão que me estendes e ergo-me nas minhas sólidas pernas. Saímos juntos para o desconhecido. São pétalas de moribunda rosa que nos cercam e caem sobre os flancos! Estendo o braço sobre os teus ombros. No escuro da sala, nem reparas nos arpões que voam de nenhures com destino a ti mesma. O meu braço que te cerca, protege-te de toda a dor e recebe com agrado as furiosas ferroadas de tão pontiaguda arma. Não importa! Estás a salvo… Olhas os meus olhos. O preto funde-se com o castanho, o castanho funde-se com o verde, o verde funde-se com o branco que o circunda. No fim, resulta tudo num vermelho intenso que sai dos enormes buracos onde o metal da seta se funde com a carne do meu braço. A perfeição do momento resulta do brilho intenso que nasce dos teus olhos. Dois poços da juventude, dos quais anseio por beber… Maravilhados, os meus feios olhos esquecem a dor profunda e gritante e partilham da amorosa genuinidade que dos teus análogos jorra. Perfeição! Os quatro elementos estão em harmonia… Das labaredas infernais domestica-se o fogo que me é oferecido por ti, oh Deusa Suprema! É o amor e a paixão que me deste um dia a conhecer. Incendeias a minha alma sempre que te aproximas e, quando me tocas, todo eu broto numa tocha imensa que arde sem se ver. E então os teus lábios tocam os meus num beijo profundo e eterno. A tua saliva semeia em mim uma frescura incontrolável. É fonte que corre sem cessar e rega tudo à sua volta, fazendo florir perfeitos frutos do amor. Depois sussurras-me ao ouvido palavras eternas de carinho. A brisa que traz tão doces palavras depressa se apressa e corre… Corre não, voa… Voa por mim fora e todo o mundo e todos os mundos ouvem as juras eternas de amor. Testemunhas serão! Testemunhas de tão sincera paixão, proferida pessoalmente pela Deusa das deusas. Na terra ficará para sempre marcada a pegada vermelha do amor incondicional. Para que todos possam ter conhecimento e seguir esse modelo. Porque só uma vida sofrida no seio do amor, é de facto uma vida e fica para sempre marcada no manto de estrelas que cobre a terra. A perfeição existe! Está na carícia que o simples mortal faz à Deusa para esta cair num sono tranquilo e descansado. Um só beijo desta magnífica entidade e atingirei a plenitude… 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 10ª parte

Junto ao enorme portão da residência mais rica da aldeia figurava um pequeno sino suspenso. António tocou-o energicamente na esperança que alguém os viesse receber. Naquele dia, o silêncio e a quietude foram os porteiros daquela casa.
- Os Senhores não estão! - disse uma voz vinda de trás. - Saíram quero eu dizer...
António assustou-se com a voz inesperada. Virou-se para trás procurando de onde vinha. Um homem de idade já avançada, apoiado num cajado que, pela aparência imperfeita, fora feito pelo próprio de um tronco de uma árvore olhava-os com uma certa desconfiança.
- Os Senhores não estão. - repetiu ele. - Desejam alguma coisa?
- Penso que o nosso assunto apenas pode ser tratado com os “Senhores”. - respondeu António com tom irónico – Queríamos uma casa sabe... Acabámos de chegar de uma longa viagem e viemos para ficar!
- Tanta determinação a um rapaz tão novo. Decerto trará novidades aqui à aldeia! Não costumamos ter por cá muita gente nova... Fazemos o seguinte, por hoje ficam em minha casa. Amanhã tratam do futuro!
- Agradeço-lhe imenso meu bom senhor, mas não me parece certo dar-lhe todo esse trabalho e, para além disso, para quê adiar o inevitável? - respondeu amavelmente o pai de António. - Hoje ou amanhã, o que é certo é que teremos de comprar uma casa para viver...
- Não seja parvo senhor! Tenho todo o gosto em recebê-lo em minha casa e a minha mulher ficará radiante por ver caras novas. Ela adora saber as novidades do que por aí se passa... Hoje os Senhores não estão. Foram numa caçada e só voltaram amanhã.
- Pai, está a escurecer... Talvez devêssemos acompanhar o senhor... - disse António baixinho a seu pai.
- Escute o seu filho, homem! É sensato o rapaz. Vê-se que sabe tomar decisões. Venham daí, a patroa já deve ter a ceia pronta. Não a queiram enfurecer, é um conselho que vos dou...
- Bem, se o dono não está, não vale a pena esperar aqui ao frio a noite toda. Se nos oferece a sua casa temos todo o gosto em por lá pernoitar.
António e o seu pai seguiram então o velho que os guiou para uma casa não muito longe dali.

domingo, 4 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 9ª parte

Este era antes um homem sonhador que lhe contava histórias fantásticas da sua vida de criança e que partilhava com ele, de forma doce e suave, as perspectivas que tinha para o desconhecido que estavam prestes a conquistar. Mal saberia que daí a alguns anos, seria a sua vez de contar aos seus filhos tudo o que viu nessa grande viagem entre o Ribatejo e a Carregueira. Todas as povoações, todos os prados e planícies, todas as pessoas que viu e conheceu ao longo do Tejo ficariam-lhe para sempre gravadas na memórias com traços de uma pintura romântica que nos aquece a alma e nos traz a saudade ao espírito.
Quando, em meados de Maio, pai e filho chegaram à Carregueira, António experimentou uma sensação para a qual nada nem ninguém o podiam ter preparado. Os sonhos que o pai lhe descrevia de como imaginava a futura localidade onde iriam morar eram entusiasmantes, mas aquilo... Ver com os seus próprios olhos a materialização de todas as suas expectativas fez António saltar de repente da parte de trás do cavalo e correr pelos caminhos da aldeia que albergava a sua nova casa. Tudo lhe parecia saído de um sonho, nada parecia real. Era bom de mais para ser verdade! Todas as casas estavam dispostas ao longo de uma estrada de terra que continuava até perder de vista. Eram todas sensivelmente do mesmo tamanho e caiadas de branco contendo na parte de trás, uma porção pequena de terreno arável que, para os olhos embevecidos de António, deveriam ter pelo menos um ou dois hectares. A aldeia respirava de vida. De um lado e de outro, os homens cavavam, as mulheres lavavam e os petizes brincavam. Tudo parecia estar no seu lugar, conjugado harmoniosamente, no entanto, certas casas encontravam-se silenciosas. António dava especial atenção a essas pois sabia que, muito provavelmente, iria morar numa delas. Caminhava calmamente ao lado de seu pai, que ainda montava o cavalo, e dirijam-se para a casa mais alta e maior da povoação onde residiam os nobres proprietários. A vizinhança olhava-os cautelosamente sem porém nunca deixarem de fazer as suas tarefas. Não era comum avistar-se gente estranha por aqueles lados, mas também não se recebia por lá ninguém com maus modos. António e seu pai iriam comprovar isso na primeira pessoa.

sábado, 3 de novembro de 2012

O sol nasce e faz renascer

Quando o sol nasce, invade todo o ambiente com alegria e cor. Os espectros sombrios ganham uma nova face e enquadram-se na explosão de emoções. De sombrios e imperceptíveis passam a agradáveis e identificáveis. Esvoaçam pelo mundo e ficam sob o olhar sonhador de quem observa. A caixa rígida desaparece e a acção sem limites toma o seu lugar.
O raio de sol que passa pela janela desbota a minha serenidade tornando-a, desajeitada, numa nuvem bonita. Oh! nuvem bonita, sem ti o que faria eu num quadro inocente despido de maldade e ambição que representa uma campainha desagradável que toca sem parar quando menos a desejam? O olhar que me fita do quadro feio ao fundo da sala causa-me estranheza e transporta-me para o Oriente como homem que sou. A minha viagem não me leva a lado nenhum. O sol continua a irritar a minha pele e uma pessoa passa rápida por mim levantando o vento melancólico daquilo que relembro. A cadeira em que me sento é uma campainha desagradável que toca sempre que me tento levantar. Nada naquela porta me tenta a atravessá-la e, no entanto, o tapete carinhoso transporta-me pelo ar para onde quero ir. A cadeira prende-me frente ao quadro inocente que se mancha agora de um vermelho intenso e corrompe a sua essência. Sinto repulsa de tudo isto. O sol queima-me a face.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 8ª parte

Naquela altura, uma viagem desta natureza demorava vários dias a completar. O comboio era um luxo que não podiam pagar e a sua cobertura era muito deficiente. O cavalo era a melhor forma de chegar ao destino. Cavalgaram de dia e descansaram de noite. Geralmente, pernoitavam no meio do campo ou do mato, onde faziam fogueiras e camas de folhas secas. António recordaria para sempre aquela viagem como a jornada da sua vida. Nunca tinha passado tanto tempo com o seu pai ou visto tantas coisas diferentes. A cada dia que passava, o seu pai fascinava-o mais. Nunca lhe fora possível imaginar um homem tão sonhador e romântico. A sua atitude cabisbaixa e atarefada do dia-a-dia não deixava ver o que se escondia dentro daquele homem fantástico. A atitude forte e rude que António aprendeu a imitar não era afinal característica de seu pai.
- Conheces aquela estrela ali? - perguntou o pai a António apontando para o céu com as suas grandes mãos.
- Se a conheço? O que queres dizer? Como posso eu conhecer uma estrela? Ela não fala, não corre, não sorri, não ama...
- E alguma vez eu te dei todas essas coisas? E tu conheces-me, ou não? Sou eu, o teu pai... Sempre fui.
- Sim eu sei... Mas é diferente... - respondeu António atrapalhado.
- Conhecemos uma coisa quando a observamos tempo suficiente para sabermos de cor cada detalhe seu. Aquela ali conheço-a como se fosse a minha melhor amiga. Passava horas a fio a admirá-la deitado junto ao regato da aldeia. Agora não posso deixar de pensar que estava errado...
- Errado? Como assim?
- Sim... Aqui junto ao Tejo parece que a pequena estrela ganha outro tamanho. A vida é um ponto de vista sabes? A verdade que construires durante a vida será a tua e mais ninguém a possuirá. Venha o que vier, é algo que nunca te poderão tirar.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 7ª parte

António e seu pai partiram nessa noite rumo ao desconhecido. Tal aventura sempre mudou a vida de quem a fez, o que António não sabia é que a mudança seria tão boa para si. A ignorância que revelava e a desconfiança face ao que é novo resultavam de nunca ter saído daquela pequena localidade em que vivia. No entanto, a necessidade fala sempre mais alto e o mundo daquele rapaz de dezassete anos foi forçado a desabrochar. A despedida de Manuel foi o que mais lhe custou. Seu amigo de toda a vida, aliás, o único amigo que alguma vez tivera ficaria preso no local de onde António fugia. Não obstante, o que o prendia naquele lugar não conseguiu ser mais forte que o chamamento da novidade. Tinha perfeita noção o quanto custava ao pai viver no local onde tinha perdido o seu grande amor, aliás, também sentia a presença constante da sua mãe naquela casa. Era um fardo de que se queria livrar e de que queria livrar o seu pai. As memórias devem ser o nosso refúgio do passado e não aquilo que nos persegue e impede de viver o presente.
- Se for bom não regressarei mais, se for mau cá me terás novamente... - disse António em jeito de despedida.
- Se não voltares, irei eu procurar por ti! O que para ti é bom para mim também será certamente! - respondeu Manuel tentando aliviar o tom pesado a conversa.
Abraçaram-se então num gesto que selou aquela grande amizade para sempre. António soube então que, onde quer que acabasse, iria voltar a encontrar Manuel pois as grandes amizades estão destinadas a serem vividas a dois.