sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A ausência não te matou - 1ª parte

Faz hoje algum tempo que me encontro sozinho numa solidão emocional. A razão desta minha solidão, de carácter emocional, é provocada pela ausência física da minha cara-metade. Se houve uma apropriação deste conceito para designar a pessoa que se ama então devo congratular o sujeito que a desenvolveu. Quer ele significar a existência de um todo dividido em duas partes. Porém, esse todo só pode ser preenchido a dois, juntando assim as duas metades divididas. Esta expressão, que a um primeiro olhar parece pirosa e modular a toda a conversa fiada do romantismo moderno, tem de facto algo mais do que o que salta à vista. Com o seu afastamento sinto-me incompleto, vazio. Exactamente como se uma metade de mim me fosse arrancada, deixando a outra parte incapaz de cumprir o todo a que aspira. O ser humano não devia ter de sofrer estas provações dolorosas que limitam toda a sua vida e felicidade. Quanto o completo é dividido, o resultado será certamente o definhamento e o mirrar da plenitude da vida. Eu acredito que o carácter do indivíduo é formado pelas marcas que os momentos de maior felicidade e maior provação lhe imprimem na alma. É este pensamento que me dá forças para continuar. Saber que estou a retirar algo de bom mesmo quando os momentos são de crise e desespero. Saber que, um dia, quando o episódio se desvanecer, eu terei permanecido de pé e terei resistido à tempestade com o orgulho e a dignidade que todo o ser humano merece ter. Saber que, quando a minha metade voltar, também eu terei algo para lhe ensinar.
Na verdade ainda só passaram duas semanas. Outrora, já estivemos afastados por mais tempo mas nunca o cérebro compreendeu uma meta tão afastada. Não é o tempo que passei sem ti, esse já lá vai, é o tempo que ainda terei de esperar até ao nosso próximo encontro. A mente pensa na meta e perspectiva-a a uma distância insuportável. O choque é muito grande. De repente, sinto-me sozinho. Não há nada neste mundo que nos prepare para esta crueldade. Passámos semanas incontáveis a prepararmo-nos para este momento, este período. Não há nada assim, não há nada semelhante. A dor que invade o espírito inflige-lhe uma sensação de tristeza a todo o instante. A distância que nos separa é incompreensível para o discernimento humano, dotando tudo isto de uma incerteza esmagadora. Há em tudo a dúvida do teu bem-estar. Não te poder proteger ou olhar por ti, inferniza o meu dia-a-dia. Para trás ficaram as memórias, sensações abstractas que permanecem guardadas como momentos fugazes de detalhes pouco pormenorizados. Lembro-me especialmente de estar contigo numa sala. A sala ocorre-me ser tão perfeita que o tecto era reflectido no chão. O luzir perfeito do que é espezinhado por todos e a sua captação do que lhe é superior, é sem dúvida a maior harmonia que se pode alcançar.

Continua...

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