sábado, 29 de setembro de 2012

A ausência não te matou - 2ª parte

...continuação

A luz do sol entrava pela janela sob a forma de perfeitos raios de sol que te faziam reluzir a face num tom dourado sobrenatural. A memória que permanece dá ao acontecimento uma aura que tem mais nenhum lugar se encontra e transmite-me um bem-estar duradouro e pleno. Lembro-me de estar ajoelhado no chão e de te ter em cima das minhas pernas. Estavas sentada. Os teus beijos eram doces e cuidadosos, com uma suavidade apaixonante. Ficámos assim durante horas mas a minha memória apenas retém uns breves momentos que aconteceu naquele dia. Fazíamos tudo juntos, numa rotina estimulante. De certa forma, a única rotina que tínhamos nos nossos dias era a companhia um do outro, tudo o resto era diferente. Fazíamos coisas diferentes, sentíamos coisas diferentes... Era fabuloso estar contigo. Descobrir-te mais a cada instante, zangar-me contigo quando achava algo menos perfeito. Agora são só memórias que nunca esquecerei. O tom dourado da visão que costuma invadir-me o olhar enternece a minha alma e faz a lágrima vir à superfície humedecer o olho, escorregando de seguida pela face num misto de emoções tão complexo que ganha a forma da pura saudade, que só desvanece com a certeza de um dia te ver entrar pela porta. Não podemos mudar porque aquilo que somos reflecte a nossa essência e a forma como perspectivamos a mudança está intimamente ligada ao nosso carácter. Mesmo que soframos alguma mudança, será sempre de acordo com a nossa perspectiva do que nos devemos tornar. É por esta razão que não temo a nossa separação. Está marcada no nosso ser a necessidade de estarmos juntos. Somos partes do mesmo e isso é algo que não muda. Tudo o que trouxeres contigo de outras paragens servirá para nos enriquecer e nos tornar mais fortes. Juntaremos experiências que tivemos enquanto afastados e daí retiraremos uma súmula da qual nos apropriaremos. Ficaremos então mais completos, eu com as tuas ideias e tu com as minhas. Oh, mal posso esperar! Tantas histórias que não vivi a tornarem-se minhas há medida que me as contas sentados à lareira. Contar-te-ei como me retirei para a quinta, como passeava de bicicleta pelos pinhais e como te escrevia esta carta de amor. Repetirei de seguida coisas que já sabes: como é enorme o meu gosto pelo campo e pelo prado, onde a azáfama cosmopolita não me persegue a cada esquina e onde os pensamentos afluem com clareza e sinceridade enquanto se racha a lenha para um serão tranquilo junto à lareira. Aí, sou verdadeiro, sou eu quem lá está. As máscaras ficam à porta, não tenho ninguém de quem me esconder.

Continua...

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