A ideia é um sufoco. Há uma energia que flui por todo o meu corpo sob a forma de uma inquietude constante e me sufoca.
A ideia nasce no cérebro.
De forma espontânea ou através de um processo de implante, a ideia conhece a sua origem nas profundezas do cérebro humano e tende a crescer consoante o alimento que lhe dermos. Quando a alimentamos e a enriquecemos com pensamentos e imaginações, sonhos e desejos, então ela cresce. Estamos a potenciar o aparecimento de algo que acabará por fugir ao nosso controlo.
A ideia tem uma força inimaginável. É o derivado humano mais resistente. O amor vai e vem, o medo aparece e desaparece, a esperança faz-nos continuar o nosso caminho mas a sua persistência não é infalível. A ideia vem e fica. A ideia move-nos e faz mover mover os outros. A ideia assume um papel principal ou secundário no nosso quotidiano, mas ela nunca irá desaparecer. Quando uma ideia germina no nosso ser, ela germina para vencer e aponta sempre no sentido da sua concretização.
Sinto-me sufocado.
Andei a alimentar demasiadas ideias, mais do que aquelas que posso suportar. Elas contam agora com vida própria e já não estão sob o meu domínio. Tornaram-se independentes e, no entanto, voltaram para me consumir. Entidades agora formadas e estranhas a mim travam uma tremenda batalha para dominar o seu mestre, o seu criador. Ainda consegui recalcar algumas ideias e travar a sua ascensão, mas é uma luta desigual. Uma ideia contida torna-se numa frustração que ficará a estagiar no sub-consciente e voltará para nos assombrar mais tarde.
O criador quer agora descansar mas a sua obra não o deixa.
Várias ideias puxam-me violentamente para demasiadas direcções e forçam-me a escolher um caminho. Não são horas de fazer opções, quero apenas remeter o meu trabalho pensante para o esquecimento nocturno e entregar-me ao descanso e aos devaneios sonhadores. As responsabilidades chamam, a família chama, os amigos chamam, a cidade chama... Só quero descansar... Só quero fugir... Quero uma vida calma, alheia à azáfama cosmopolita. Quero um bom-dia e uma boa-tarde quando saio à rua. Quero estar ao alcance de uma preocupação despreocupada. Quero ser livre onde não me sufoquem constantemente. Ah, o sufoco... Horrível sensação! Talvez das piores... Querer respirar e não poder, querer recomeçar e não poder, querer fazer e não deixarem.
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