Certo dia cansei-me de tudo. A vida
deixou de me saber bem. O que retirava de quanto fazia era mais
negativo que proveitoso. Deixei de me comprometer com o que me
rodeava e cortei a ligação com o ambiente que me enquadrava, tal
flor que é amanhada e posta em água e que não tarda a ficar
moribunda. Tal como essa flor, perdi a minha vocação original. Fui
colocado em determinado lugar completamente estranho e ali fiquei,
privado da liberdade de dispor de mim segundo a minha vontade e sem
saber exactamente a minha função. Se outros sabiam, nunca lhes
perguntei. O ser humano necessita do compromisso. Necessita de algo
exterior a si que o prenda ao meio envolvente e o faça mexer, pondo
em prática as suas faculdades próprias e especiais. Quando nada
existe que nos atraia a um lugar ficamos perdidos e acabamos
solitários vagueando. Naquela altura, já não tinha a alegria de
viver que outrora era minha característica e a força sobre-humana
de realizar as minhas vontades foi enjaulada e a chave perdida em
parte incerta. Parecia que tudo em meu redor estava errado. As cores
vibrantes que regalavam os meus olhos estavam agora em tons de
cizento. Parecia que uma névoa pairava em tudo quanto via. Esfreguei
os olhos com esperança de que fosse apenas sujidade ou defeito
passageiro da minha retina. Ela continuava lá. Quando tomava
qualquer decisão havia sempre uma brisa que me desencorajava e
demonstrava como o que eu queria fazer não iria ter sucesso. Parece
que algo invisivel aplicava contra mim uma inércia estéril que me
retirava toda a força do corpo e qualquer capacidade de acção. A
única força que me restava era a esperança, que esse é a última
a morrer. Não sabia ao certo o que esperava. Esperava alguém que,
vindo de parte incerta, me viesse salvar da angústia que sentia e da
tortura que era viver. A vida tornou-se uma sucessão de dias
cinzentos em que me arrastava pelas ruas imundas sem ter muita
consciência de quem era eu. Do meu passado já pouco sabia.
Esquecera os pormenores de uma vida rica e os ensinamentos de muitas
adversidades ultrapassadas. Quando travava conversas com alguém,
limitava-me a gabar os meus feitos de antigamente dos quais já pouco
sabia. O meu estado era tão deprimente que já nem sabia evocar as
minhas próprias memórias e destruí então a saudade. Não podia
sentir falta do que não lembrava e não conseguia lembrar o que
anseava por recuperar. O sol não mais brilhou para mim, a flora não
mais floresceu em meu redor e os animais desapareceram. Quando comia
não sentia prazer. Não conseguia saborear a história do meu
alimento e não o conseguia reiventar. E o paladar não foi o único
sentido que perdi. Deixei de sentir o que me rodeava, de cheirar a
brisa do mar, de ouvir o canto dos pássaros e o choro da guitarra.
Se bem me lembro, acho que o pior era o derrotismo que pairava no ar
e a falta de gosto por aquilo que de bom me rodeava. Tinha tudo à
distância de uma preocupação mas não queria saber.
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