sábado, 27 de outubro de 2012

Crónica de um amor burguês - 1ª parte

Deixa-me contar-te uma coisa interessante sobre as canetas: quando não são usadas regularmente, a tinta contida na carga seca e esta tem de ser substituída. Falo das canetas de tinta permanente claro. Não me pronunciaria sobre as esferográficas deploráveis que por aí circulam em abundância. O mero pensamento desse objecto repugna-me. Nada têm de especial, são feitas para as banalidades diárias. Eu só uso a minha caneta de tinta permanente para escrever as cartas que te endereço, ocasiões especiais. Paras as listas de compras de supermercado uso as outras. A caneta tem uma escrita muito especial e refinada que não deve ser desperdiçada nos escritos quotidianos e a sua tinta é demasiado cara para textos sem sentido. Só as cartas que te escrevo me fazem desembrulhar a minha caneta de prata e espalhar a tinta que dela jorra na forma de bonitos caracteres que criam, por si, bonitas palavras. A maior dor no meu coração é quando tenho de me livrar de cargas de tinta que não estão totalmente vazias. Isso deve-se, não por ser um desperdício de elevados custos mas sim à ausência de uma carta tua. Como te disse, apenas uso a minha caneta quanto te escrevo. Se tenho de me livrar de uma carga ainda cheia, significa que passou tempo suficiente para a tinta secar sem ter uma carta tua para responder. Quando deito fora aquela carga, deito fora palavras que poderia ter formulado para te responder, sempre com a mais fina caligrafia. Porque o amor é assim, exige o melhor de nós, exige um esforço constante pela perfeição das demonstrações que te faço. Ainda para mais quando estás longe. Ainda para mais quando nunca te vi. Oh não, a simples esferográfica não me chega! A sua escrita arranhada e mal desenhada não é digna do meu amor por ti. Oh não, preciso de mais! Preciso de um instrumento criado pelos melhores mestres do fabrico da coisa. Preciso de prata e ouro, de uma tinta perfeita. Preciso de uma caneta que se adapte à minha ergonomia e me corrija os traços da caligrafia. Preciso do luxo aliado ao sublime.

continua...

3 comentários:

  1. Para além de ser um texto escrito de forma excelente, aquilo que sinto ao ler estas palavras, não tem como descrever. É um texto mesmo bonito :)

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    1. No amor, como na vida, temos de dar o máximo e o melhor. Frequentemente esquecemos que esse máximo e melhor é algo que tem de vir de nós, das nossas intenções, acções e atitudes. Não devemos procurar compensar isso com objectos exteriores a nós que, apesar de completarem o amor e a relação, não a irão preencher por completo. É o amor burguês.

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    2. Como é que nunca li este... tão bonito! No final da carta deseja-se que "as palavras nunca cessem". A meu ver, o importante são as palavras.

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