domingo, 28 de outubro de 2012

Crónica de um amor burguês - 2ª parte

...continuação


Já lá vai algum tempo desde que o carteiro me entregou a última carta. Foi uma óptima surpresa, chegar a casa, abrir o correio e ver aquele envelope que estava ali, sozinho, à espera de ser encontrado. Até vinha em correio azul, devias ter pressa que eu lesse as tuas palavras... Se assim era, porque me deixas cinco meses à espera? Sim, faz hoje cinco meses desde essa última carta. Durante este tempo, nada soube de ti. Não sei o que vestes, não sei o que comes, não sei o que fazes nem tão pouco o tempo que faz por aí onde moras. Há cinco meses que não me contas o que vês ou o que sentes, o que ouves e o que cheiras. Eu quero ver através dos teus olhos. Quero ler as tuas palavras e sentir através delas, fazer a viagem espiritual até ti. Costumavas contar-me o quanto apreciavas estar sentada no baloiço do jardim que o teu pai fez, com as suas próprias mãos, quando eras pequena, mas agora... Agora já nem sei se ainda te baloiças nesse teu refúgio enquanto observas as montanhas a Este. Já nada sei. Não gostaste da tinta da minha caneta, da qualidade do meu papel? Procurei o melhor... Até selei o meu amor com o brasão de família que trago sempre enfiado no dedo. A aristocracia das minhas palavras, qualidade que afinei ao longo dos tempos, ficou contida nesse envelope bege que te enderecei. Disso eu tenho a certeza... Até perfumei o papel com o odor que trago no corpo, um perfume de qualidade que uso regularmente. Queria que sentisses o meu cheiro quando abrisses a carta e sentisses a minha presença aí, contigo. E as pétalas de rosa? Vermelhas como a paixão, acompanharam a carta para simbolizar a minha ardente paixão por ti. Serão pétalas frescas como essas que eu espalharei na nossa cama quando nos encontrarmos pela primeira vez e todo o quarto será inundado de velas que espalharão um suave perfume capaz de nos transportar para o paraíso. Se queres saber, até já tenho em minha posse as que penso usar, mandei vir de bem longe. Uma pequena fortuna diria eu, mais do que pagaria em condições normais. E também já sei onde as irei colocar para que o seu efeito seja o mais perfeito possível. As pétalas não virão de uma rosa qualquer... Já descobri onde posso ir buscar as flores mais frescas e vistosas da região. Tenciono comprá-las a todas e não olharei a custos!
Tenho feito o trabalho de casa, hein? Tive cinco meses para pensar tudo ao pormenor, para procurar os melhores ingredientes que tenciono juntar a este amor que sinto. Na minha cabeça está tudo montado e sinto que vai funcionar, que vai ser perfeito. As despesas são um assunto proibido! O amor exige tudo de nós, o melhor. E o melhor terás! Agora só falta a tua carta, a tua resposta. Penso que terei pelo menos outros cinco meses para preparar este encontro e, sinceramente, começo a duvidar que alguma vez ele venha a ter lugar. Não o posso fazer sozinho, preciso de ti. Sem ti não posso celebrar este meu sentimento nem posso fazer este encontro. Mas tu não me respondes, nada me dizes. Não me correspondes o sentimento ou terei feito algo de errado? Se calhar assustei-te... Ou não te dei o melhor que pude, precisas de mais... Bem, o encontro está gravado na minha cabeça, na minha imaginação. Continuarei a procurar novos instrumentos com que te agradar, apesar de não estares aqui, e comprarei tudo quanto encontrar. Tenho a tinta da caneta a acabar e ainda não escrevi tudo quanto queria. Coisas terão de ficar por dizer, por escrever, por sentir... E agora? Pergunto eu. Agora, só falta a tua carta.

FIM

2 comentários:

  1. Confesso que não tinha lido todos os teus textos e todos os teus pequenos "tesouros", li apenas o Romance que está para vir, porque como te disse no outro dia tenho um fascínio por Romances. Mas agora que li todos os textos fiquei mesmo muito interessada naquilo que nos irás transmitir a seguir. É muito interessante ver a forma como abordas vários temas e perspectivas das mais variadas formas desde crónicas, a textos "soltos", romances. Assim poderás conquistar vários tipos de público. Fascina-me ver como alguém persiste mesmo, quando diz "não ser ouvido" , como expressas no "Meu Pequeno Caderno de Escritor". É óptimo ler estas pequenas relíquias que saíem da tua caneta de tinta permanente, porque estas devem ser dignas de tal instrumento, se é que me é permitido dizer. Decidi comentar aqui, porque não sei se por razões pessoais ou alheias, também não interessa, tens uma visão do amor que é raro ver na nossa geração. O amor é burguês. Sem dúvida. Acho que o amor obriga a um empenho, tal como tudo na vida, desde o campo profissional, social e pessoal. No entanto é um empenho e uma dedicação diferentes na minha perspectiva. Tal como nos dizes, mesmo estando à espera de uma carta que provavelmente só irás receber daqui a 5 meses, continuas a preparar o reecontro com essa pessoa, que mesmo não conhecendo, é ela que move a tua caneta de tinta permanente e preenche os espaços no papel de melhor qualidade que fizeste questão de comprar e que perfumaste com o teu odor. Isso chama-se dedicação à outra pessoa, entrega. Temos de dar o máximo de nós próprios, guiados pelo sentimento que nutrimos pela outra pessoa, porque é sem dúvida esse que nos faz mover Mundos e fundos. E mesmo assim parece que nunca é suficiente, no meu ponto de vista. Parece que às vezes o sentimento é maior que o nosso próprio coração e transborda, transborda para o papel como acontece neste caso. Procuramos tentar compensar com coisas exteriores a nós, mas essas não são "suficientes" ou "dignas" de algo tão grande e profundo como é o amor verdadeiro, podem de certa forma preencher alguns espaços, como as esferográficas preenchem as coisas que fazemos no dia a dia, como por exemplo a lista de compras. Mas na realidade aquilo que provém de nos, do nosso interior, aquilo que damos de nós é que é de valorizar no amor. Porque proveio da nossa entrega a essa pessoa, da nossa dedicação. Do tal transbordamento proveniente do coração. Já dizia o outro que o amor é um dar e receber constante. Não um dar material, mas um dar um pouco de nós próprios a cada dia que passa que é traduzido em acções, pensamentos, atitudes. Os bens materiais apenas servem para preencher espaços, completar algumas das nossas acções como é o caso das pétalas, das velas. É algo que vai preencher a vontade de ter um encontro perfeito com essa pessoa. A dedicação, o empenho e a entrega faz do amor burguês. E mesmo com a incerteza do que o "outro lado" pode dar, ou sentir, a dedicação e o empenho, o jorrar de palavras no papel, as cargas de tinta para a caneta que muitas acabam sem transmitir tudo o que sentimos, mesmo sem saber que podemos não ter a mesma resposta do outro lado, isso sim faz toda a diferença no amor. Espero sinceramente e fico na esperança que daqui a 5 meses, ela volte a escrever. Que ela volte para o encontro perfeito.

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    1. A resposta a este comentário está em Esclarecimento sobre "Crónica de um amor burguês".

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