domingo, 21 de outubro de 2012

Da escrita e do escritor - 1ª parte


A literatura moderna é difusa. Escrevo num tempo em que a consciência de classe dos indivíduos escritores é praticamente nula não existindo a articulação de ideias e pensamentos e o seu debate entre estas pessoas que, no seu todo, constroem o corpo de escritores contemporâneos portugueses. Isto deve-se ao fenómeno da proliferação da escrita e do alfabetismo que dotou praticamente toda a sociedade da capacidade de ler e escrever fluentemente. Como consequência, desapareceram os escritores. Agora todos escrevem em todas as plataformas que têm ao seu alcance e, diariamente, a escrita é banalizada em praça pública por milhares de mensagens que são partilhadas, noventa por cento delas sem qualquer conteúdo ou contributo para a cultura comum. Apesar de notável, o progresso na alfabetização e na proliferação da escrita não foi acompanhado por uma reflexão profunda sobre o sistema que se deveria adoptar para diferenciar claramente a literatura, reconhecida como arte, e a banalidade que é partilhada sem qualquer ponderação ou sentido de consciência por parte do seu autor. Este enquadramento social sobre o estado da escrita e a sua evolução leva-nos à questão de um milhão de dólares, a mais importante de todas, a que ninguém sabe responder: quem é escritor? Que características distinguem o escritor do resto da sociedade? De que necessita um indivíduo para se apresentar como escritor, tal como um praticante de medicina se apresenta como médico? É interessante abordar a questão do ponto de vista deste último exemplo: o médico é o que pratica a medicina; o advogado é o que pratica a advocacia; o professor é o que ensina. E o escritor? Seguindo o raciocínio, o escritor será aquele que escreve, o que me leva de novo à minha introdução: hoje em dia, todo o indivíduo não só sabe ler e escrever como o faz a todo o instante do seu dia. Certamente que não podemos seguir este caminho, senão todo o indivíduo seria escritor e não mais faria sentido utilizar esse conceito para descrever e categorizar alguém. Da mesma forma que todos os que escrevem com grande regularidade não são escritores, também não são médicos todos os que medicam um doente (como faz a mãe ao dar comprimidos ao filho sem terem sido prescritos pelo médico; ou como fazemos todos ao adoptar certos hábitos para mantermos a nossa saúde e qualidade de vida), não são advogados todos o que julgam e argumentam a favor ou contra outros indivíduos, nem são professores todos os que ensinam algo a alguém. Então se não podemos distinguir o escritor pela sua actividade que outro elemento explicativo podemos nós encontrar? Podemos tentar seguir um caminho, também extensamente apoiado pela opinião pública que tudo sabe e tudo ignora, que nomeia um indivíduo de escritor quando tem um livro publicado e acessível para consulta por parte da sociedade em geral. Não me parece que assim seja, nem que esta tipologia sirva para o efeito. Segundo ela, um médico só o seria após ter curado um doente, um advogado só o seria após defender um arguido e um professor só o seria após ter ensinado um aluno. Esta definição não contém nada senão problemas. Em primeiro lugar não se pode classificar um profissional pelo seu sucesso em determinada tarefa pois, para a ter executado, ele já precisa ser considerado como tal. Não parece lógico a ninguém que um médico cure o seu primeiro doente com sucesso antes de ser considerado médico, tal como também não é admissível que um advogado defenda um arguido antes de ter o certificado em como está habilitado para tal. O mesmo acontece com o professor que não será admitido em nenhuma escola se não for considerado apto para desempenhar tal tarefa previamente. Também o escritor não pode adquirir o seu conceito distintivo apenas após ter publicado o primeiro livro. Quantos indivíduos há por aí que têm uma grande quantidade de obras e textos arrumados na gaveta, nunca publicados? Não serão também eles escritores? E os que escrevem blogues, crónicas, colunas, opinião, não serão também eles escritores também apesar não terem um texto publicado no formato a que nos habituámos a chamar livro? E aqueles que contam já com um ou mais livros publicados por grandes editoras cujo conteúdo é, por exemplo, dedicado à culinária e apenas contém receitas compiladas e imagens ilustrativas? Serão esses escritores, apesar de terem publicado um livro sem uma única frase criativa?

continua...

7 comentários:

  1. E como separa aqueles escritores que apesar da qualidade da mensagem e da sua capacidade nem sempre conseguem atingir a grande maioria da população, daqueles escritores de capacidades medíocres mas que, através de histórias banais conseguem captar o interesse das grandes editoras e gráficas? Serão esses melhores? Ou servirá isto para comprovar que nos dias de hoje, bom ou mau, interessa vender, sem pensar no que se vende e a quem.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Parte daquilo que eu acho ser a resposta a essa pergunta vem na segunda parte da minha mensagem. Não vou, portanto, revelar antes do tempo oportuno. No entanto, quero chamar a atenção para a perigosidade dessas ideias. Penso que não devemos cair na discriminação das obras pelo seu conteúdo, pois o gostar de algo é relativo e depende de pessoa para pessoa. Os critérios de valorização não são os mesmo para todos os indivíduos e, o que é bom para um, pode não ser para outro.

      Eliminar
  2. Acho que não me expressei muito bem... apesar de não gostar de alguns géneros de livros, não vou julgar quem os lê. "O que seria do amarelo, se tudo fosse azul?" Eu estava a referir-me à qualidade da escrita, da forma como as pessoas escrevem. O mesmo estilo de livro pode parecer muito diferente dependendo da escrita do autor. A forma como se escreve é que muitas vezes marca, para lá da mensagem a passar :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu compreendo a ideia... A questão é que na escrita e na arte não há certo e errado. Não existem fórmulas sobre como escrever um livro ou sobre como pintar um quadro. É tudo uma questão de gosto pessoal. Saramago não escrevia segundo a gramática regular e teve um Nobel, Picasso não pintava a realidade como ela é e é considerado um dos melhores pintores de sempre. A meu ver, é tudo uma questão de consciência e saber aquilo que se faz. A arte é livre desde que a obra seja produto de uma racionalização.

      Eliminar
  3. Não podia concordar mais. Espero que a próxima parte da mensagem seja tão interessante como a primeira.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Amanhã já será possível descobrir isso! hehe
      Um dia tenho também que tentar perceber o papel dos críticos literários... No fundo, as críticas não passam de opiniões pessoais...

      Eliminar
  4. Sim. E pelo que se vê de criticas, acho que algumas caem naquele erro que tão bem disseste: julgar uma obra pelo seu conteúdo e se este é certo ou errado. E no entanto tem o poder de elevar ou destruir uma obra, um indivíduo um sonho...

    ResponderEliminar