segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O meu pequeno caderno de escritor - 1ª parte

O meu caderno de notas está a rebentar com ideias que se vão interligando entre si por finos laços sem sentido. Na minha cabeça, infindáveis. No papel, revelam-se deveras frágeis. Incontáveis são as sementes que repousam na espera de serem germinadas. Não há, no entanto, ninguém que se interesse por elas. O mundo cosmopolita já não fervilha num pote de oportunidades como antigamente. A criatividade boémia da grande cidade está morta e jaz mesmo no seu centro esperando ser ressuscitada. Sinto que sou a última esperança para recuperar as velhas práticas culturais dos antepassados intelectuais. O potencial não abandonou o lugar, mas as práticas mudaram radicalmente. Não se lê nem se escreve. Não se discute nem se debate. Já não nascem pinturas em cada esquina e os indivíduos já não observam. Já ninguém dá valor ou atenção ao potencial das artes. Ninguém reclama para si o legado inventivo das gerações anteriores. Por qualquer razão, essa dimensão da acção humana está estagnada no seu epicentro. É como uma contradição. A proliferação da escrita e a banalização da leitura acabaram por ser agentes da estagnação da cultura. Normalmente, o ser humano não dá valor ao que tem em abundância e, este caso, não é diferente. Nos dias que correm, todo o indivíduo é albaroado com letras em tudo o que é lugar. Em todo o lado se lêem notas, em todo o lugar se escrevem recados. A escrita foi domesticada e passou a ser parte do quotidiano, um mero instrumento para facilitar as tarefas diárias. A dimensão artística foi-se desvanecendo e, agora, encontra-se num estado extremamente débil. Escreve-se em quantidade e não em qualidade. Lêem-se frases soltas e textos sem nexo por toda a parte. Antigamente, quando a escrita e a leitura eram artes a que poucos tinham acesso e quando a sua produção era difícil e incómoda, apenas se escrevia coisas com sentido e com ponderação. Na Idade Média não havia corrector e não se vêem por aí muitos manuscritos rasurados. Havia a clara consciência do que se queria escrever e isso tinha sentido. As outras artes seguiram o mesmo caminho...
continua...

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