O individualismo urbano e o anonimato envergonhado não renovaram os clubes de artistas e pensadores que costumavam existir. Hoje todos pensam à sua maneira e não se mostram disponíveis para a partilha de ideias. Quantos de nós costuma abrir o espírito a tomar um café curto vindo das colónias enquanto se aprecia uma obra de arte, os transeuntes extravagantes ou se discute preferências vanguardistas? Parece que os pequenos hábitos prazenteiros dos artistas cosmopolitas desapareceram. Esse local de criatividade infinita que era a capital já não existe e eu exponho agora a minha obra a um vazio.Todo o processo se inverteu e agora já não debato as minhas ideias, vendo-as a quem me de pagar o suficiente para me sustentar. Quando a minha racionalidade produz novas linhas, elas não atingem lugar nenhum senão o meu pequeno caderno de couro fechado por uma fita elástica e não enriquecem ninguém senão o meu ego. É a coisa mais triste de se ver, um artista a representar e ninguém para aplaudir! Toda a obra deve ser apreciada, todo o artista deve ter público. Escrevo para exprimir ideias, de natureza inacabada, sobre os quais algum outro ser humano irá demonstrar interesse ou até apreço e completá-las com as suas próprias. Esta é a maneira que o escritor tem de influenciar a realidade colocando sobre ela a sua perspectiva. Este é o caminho do escritor. É assim que deve ser! Diria mesmo que um escritor tem tanto quanto a sua influência na realidade que o envolve. A equação reforça-se com a longevidade das suas ideias mesmo depois da sua morte. Se este fim não se puder concretizar, então a escrita será inútil, todas as ideias definharão e o escritor não será mais do que um escriba a soldo.
continua...
Vivemos numa época em que se tens ideias diferentes não és encarado como um indivíduo com um cérebro e pensamentos originais, mas sim alguém com ideias estranhas e que se deve forçar a pensar como todos os outros. Uma época em que a palavra discussão tem uma conotação maioritariamente negativa, mesmo que de uma discussão possa surgir o entendimento e até novas ideias
ResponderEliminarÉ o processo de socialização que o sistema social, político e económico impõe. Uma ditadura de maiorias que, silenciosamente, nos força a direccionar o pensamento numa determinada direcção e a rejeitar tudo o que é estranho a ele. Tal coisa é normal e existe em tudo na vida mas, o grande problema que se coloca hoje em dia, é a forma silenciosa como esta força actua. Na esmagadora maioria das vezes, actuamos sob o efeito deste princípio e nem nos apercebemos. Esta falta de esclarecimento sobre a nossa acção vai-nos retirando capacidades como a originalidade e a liberdade de pensamento, no verdadeiro significado da expressão.
Eliminar