quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O meu pequeno caderno de escritor - 3ª parte

...continuação

Encontro-me a escrever num mundo bem distante. No entanto, pela minha caneta já não saem as palavras de outrora. O meu estilo de escrita encontra-se irreconhecível, as minhas ideias não são as que costumava exprimir. A minha mundividência alterou-se. A minha experiência neste curto espaço de tempo, deixou marcas em mim. As pequenas coisas do dia-a-dia e os contactos banais que tive com o mundo exterior deixaram-me diferente. Estas alterações criam grandes expectativas, planos que são imaginados e que saem frustrados porque tudo continua igual, permanece. À medida que escrevo, sinto que caminho para a minha perdição. É um pedaço da minha alma que coloco num papel em forma de uma mancha de rabiscos que não passa disso quando alguém a despreza. Quando escrevo, deposito no leitor uma confiança tácita. Sabe-se lá o que ele fará com as minhas palavras, as minhas ideias. Eu joguei as minhas cartas e fiquei ali em frente ao mundo, despido de mim mesmo. O mundo pode-me agraciar com raios de sol que me aquecem a pele despida e me reconfortam a alma indefesa ou pode-me agredir com vento cortante e chuva deprimente. O leitor está resguardado no seu próprio habitat. Pode escolher como e quando travar contacto com a minha obra e reclama para si o poder de a julgar. As suas opiniões são inúmeras e a sua vantagem é gritante. Vai ser ele a decidir se o escritor é aclamado ou se é renegado e enxovalhado. O seu livre arbítrio ditará a apreciação final sendo esta a avaliação que o autor terá de suportar aos seus ombros. Boas ou más, as palavras que constituem uma obra são a expressão da mundividência do artista, um produto do seu mapa cognitivo, um espelho da sua alma. Tal não pode ter uma avaliação honesta e imparcial porque esta será sempre uma opinião de uma expressão cultural diferente. O leitor pode achar a obra boa ou má, mas na verdade isso é irrelevante pois o trabalho já existe e a mensagem que ela encerra será assim perpetuada. Por detrás da conjugação de palavras há sempre uma mensagem que quer ser descodificada e apreciada. O livro representa uma faceta de quem o escreveu pois é o resultado de algo que foi imaginado pela sua mente. Só me resta então esperar que o leitor acaricie o meu pedaço de alma e o coloque numa estante junto das almas de outros artistas para que possa com eles conversar eternamente. Perco-me com este medo, esta esperança. As pistas que me são enviadas serão sempre mal interpretadas. Umas falsas, outras mal expressas, nunca conseguirei aceder à mente do leitor para compreender os sentimentos que nele despertei.

continua...

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