quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O meu pequeno caderno de escritor - 4ª parte

...continuação

Tenho andado à deriva, consumido por estes pensamentos. O pior de tudo isto é a minha repulsa por este estado. Não gosto de me sentir dominado. Não gosto de perder as rédeas do meu espírito. Sinto o medo angustiante de não ser compreendido. De que vale possuir uma razão se ninguém a aceita nem se rege por ela? A verdade só existe quando há uma maioria que a aceita e vive segundo ela. Não há nada mais incapacitante do que estar certo e ninguém o reconhecer. Por mais argumentos válidos e verdadeiros que se apresente, eles não são aceites pelo outro. O mais assustador é pensar que todo o indivíduo tem este pensamento, esta inquietação pois cada um pensa diferente. Esta tem sido uma grande luta na minha vida e sinto que a estou a perder. Como se uma força maior me dominasse. Este sufoco constante não me proíbe, porém, de sentir um ligeiro agrado e um embriagante bem-estar quando a nostalgia me invade. Há algo de reconfortante em pensar que somos donos de uma verdade a que mais ninguém tem acesso. A estação que agora chega traz consigo essa nostalgia, o tempo arrefece e o espírito aquece. Parece ser uma reacção natural, instintiva até, que me irrita de um modo suportável e que me vence incondicionalmente sempre que a tento combater. O acumular excessivo de roupa sobre o corpo, o cheiro a molhado sobre os odores cosmopolitas, a brisa cortante que confronta as partes expostas. Não creio que haja algo mais odioso que o Inverno, mas o tempo frio tem em algo de acolhedor que supera naturalmente todos os meus problemas existenciais altamente refinados. Quantos mundos haverá por aí perdidos nas águas furtadas dos prédios da capital? Alguém como eu, alguém com os mesmos problemas, alguém que seja sempre derrotado pela natureza, a sua natureza, mas que ainda assim tente ver para além dela. Talvez seja esta incerteza que me faça avançar uma e outra vez sem desistir perante as bofetadas da vida. Avanço, mas avanço sozinho. Subitamente, estou isolado do mundo. Há algo de insuportável nas atitudes dos outros que me causa uma repulsa enorme. A estupidez alheia já não causa graça. É-me insuportável conviver com o ridículo do outro. Dou por mim a suspirar por melhores companhias. Já o fiz uma vez no passado e dessa vez consegui-o, mas não por muito tempo. Não durou muito até que o encanto desse lugar à repulsa. Agora de nada valem. Uma mentira, uma farsa. No conjunto, uma perda de tempo. Agora, quando suspiro, uma ideia invade-me a mente: será que as pessoas por quem suspiro existirão algures por aí? Se calhar sou bom demais para este mundo ou então estou a viver num engano à espera de quem não virá, de quem não existe. Espero pessoas à minha imagem que, obviamente, não existem, são uma ilusão. Penso que esta será a verdade, o arquétipo que projecto para o outro perfeito é um reflexo do meu próprio ser, mas ainda não estou pronto para a aceitar. Por enquanto, acomodei-me à resignação e ao mapa-mundo cinzento. De qualquer maneira, só há desilusão quando antecedida pela ilusão e talvez seja esta a chave para os meus problemas. Certamente sairei desta encruzilhada, tal como o fiz quando fui à descoberta do Novo Mundo. Nessa época, a resposta ao ambiente cinzento foi a aventura pelos mares do mundo e a fé de que alcançaria algo de melhor. Encontrava-me pressionado por todos os lados e olhem o que fiz: a empresa mais impressionante de todos os tempos. A crise não durará para sempre. Chegará o tempo de me erguer nas minhas pernas de gigante e, aí, o mundo estremecerá de novo! Derrotarei de novo qualquer mostrengo que se atravessar no meu caminho, esse produto da imaginação...

continua...

13 comentários:

  1. Durante o Inverno sinto-me mais sozinha, começo a observar-me e não me reconheço. Talvez por causa do que referiste, o peso das camadas de roupa, os dias cinzentos, os poucos sorrisos que sobrevivem ao frio, o Sol que só volta a nascer na Primavera. A nostalgia sente-se na respiração de qualquer pessoa que passa por nós ...

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    1. Há uma nostalgia que paira no ar. Penso que ela deriva da Natureza, as folhas das árvores vão definhando e caem, cobrindo todo o chão por onde caminhamos. A juntar a esta energia decandente com que o ambiente circunda nos presenteia (decandente no sentido real da palavra e não no sentido pejorativo) temos também o tempo cinzento e triste. O horizonte, sinónimo de esperança e desconhecido, fica perdido nas brumas, inalcançável ao olhar.

      O que sentes quando as pessoas passam por ti na rua? Procuras em cada um a solução para a solidão que sentes ou votas-lhe o desprezo de quem está embrenhado na sua nostalgia?

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  2. Há momentos em que procuro incansavelmente por um rasgo de luz nas pessoas com que me defronto. Um simples gesto, uma palavra, ou até um olhar, de um desconhecido, no meio da multidão me pode tirar da minha nostalgia, da minha "energia decadente". Outros, quando vejo o meu reflexo na poça de água, sinto um vazio tão profundo que nesse momento sou a única no meu Mundo. Tudo no meu redor desaparece e sou somente eu e os meus pensamentos embaraçados numa teia sem fim.

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    1. Compreendo-te perfeitamente. Por vezes dou por mim a olhar em meu redor, para as pessoas que passam atarefadas nas ruas. Mas não olho para elas, olho através delas. Procuro algo que não reside no outro mas sim em mim próprio. Como procurar no outro por uma parte de mim. Porque não existimos sem o outro, não conseguimos compreender o que somos sem experienciarmos o diferente. Acho que olhar o espelho, seja ele um pedaço de vidro uma poça de água, não nos dá qualquer resposta, apenas nos devolve a imagem que somos para os outros. Eu, quando me vejo ao espelho, não reconheço a imagem reflectida. A imagem que me é devolvida é algo estranho ao meu interior e nunca aparece da mesma maneira. Da mesma forma, quando me vejo numa gravação ou quando me oiço em audio, tenho grande dificuldade em apreciar pois a imagem que encontra os meus olhos não corresponde ao que idealizei quando vivi a situação.

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  3. A recordação nunca consegue igualar a sensação. Por mais forte que seja fica sempre distante do momento perfeito, ou imperfeito, que foi. Por vezes dou por mim a rir das acções e das minhas palavras pois parecem ter sido feitas por outras pessoas e não por mim.

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    1. A sensação é o instrumento mais perfeito que temos para viver, para sentirmos a plenitude. A recordação é uma ilusão, uma projecção mental daquilo que vivemos, sentimos, fizemos... Por isso é que a vida é fugaz e corre num sopro. Não podemos transportar connosco as nossas experiências, aquilo que sentimos. Apenas levamos a recordação numa espécie de sombra imperfeita que nos segue e às vezez persegue.
      E o mais giro de tudo isto é discuti-lo com a ilustre anónima...

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  4. Quando recordo as minhas vivências, especialmente em dias cinzentos como o de hoje, sinto-me como na Alegoria da Caverna de Platão, onde as sombras são a minha realidade, não conheço outra para além desta mas com o tempo vou descobrindo que vivo uma ilusão. Nestas situações sinto-me um ser inferior, que não sabe viver.
    O anonimato dá um certo "Je ne sais quois" ao tema que já por si é misterioso...

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    1. Ah, a Alegoria da Caverna... Sim, ela é perfeita para ilustrar esta nossa conversa sobre os sentimentos que o Inverno nos traz. Parece que toda a envolvência se encerra em nosso redor e que ficamos desprovidos de controlo do nosso fado. Mas será que alguma vez temos o seu controlo? Quando estamos no auge do Verão com um elevado estado de espírito temos a sensação de que somos indestrutíveis e invencíveis, mas o mundo à nossa volta (ou os mundos...) continua na sua rota própria, independente de nós. A nossa vida nunca depende só de nós, tenhamos consciência disso ou não.
      O tema nada tem de misterioso, pelo menos nesse sentido do termo a nível de misticismo. No entanto, é sem duvida um grande mistério da vida que cabe a nós revelar.

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  5. Não é misterioso? Permite-me discordar. Como é que passamos de um Verão indestrutível para um Outono nostálgioco? O que mudou na nossa vida para além da estação do ano? E ainda assim somos pessoas completamento diferentes do que éramos há dois meses atrás. O Mundo continua igual, nós apenas mudamos a nossa opinião perante ele.
    Se me sentia capaz de me libertar das correntes e ver o Mundo exterior, no momento só quero uma lareira no interior da caverna para, enquanto vejo o lume a crepitar, refletir sobre tudo o que passou e tudo o que virá.

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    1. É sem dúvida um mistério, mas não é misterioso. Porque misterioso, normalmente, está associado ao campo do fantástico, da magia... Este fenómeno nada tem de sobrenatural. É algo bem real embora as razões da sua ocorrência sejam percebidas de forma diferente por cada um de nós. Assim, é um mistério, um mistério da natureza. Algo que existe e que é real mas que cada um percebe à sua maneira.

      Penso que nós vamos mudando e percebendo o mundo exterior de forma diferente. Reagimos à agressão do tempo frio e à tristeza das folhas caducas com vontade de isolamento no nosso templo de paz e, prefetencialmente, com a pessoa especial. Uma espécie de retiro espiritual que a época pede e as obrigações mundanas não permitem.

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  6. A azáfamado quotidiano nem sempre permite ter o tempo de reflexão que tanto precisamos. Contudo, todos os ínfimos momentos são propícios para um breve pensamento, um sonho perdido no tráfego.

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    1. Um sonho perdido no tráfego. Que bonita ideia... É aquela sensação de sabermos o queremos mas a impossibilidade o atingirmos na altura vai delegando-o para segundo plano, atrás das urgências da vida, o tráfego constante de necessidades. Uma frustração.

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  7. A verdadeira essência da vida acaba por ficar sempre em segundo plano. Agarramo-nos a banalidades que nos ajudam a aguentar o dia mas que a longo prazo nenhuma satisfação nos dão pois o que realmente queremos não passa de uma utopia.

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