sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O meu pequeno caderno de escritor - 5ª parte

...continuação

Já contei os meus medos mas isso de pouco importa, até porque ainda não me conhecem. Sou um Homem que vagueia perdido há cerca de quinhentos anos. Viajo sem cessar por todo o lado e nunca estou sozinho. Para onde vá, carrego uma sombra que, ora caminha a meu lado, ora caminha atrás de mim. Viajo porque quero ver tudo o que é meu, tudo o que me pertence e tenho por aí espalhado. Não sou peregrino nem movido por idealismos alheios. O meu incentivo é a minha causa. A cada passo que dou vou-me completando e, no entanto, há algo que perco. Sempre que descubro alguma coisa que procuro, lembro-me de quanto deixei para trás. Carrego isso na sombra, mas não é a mesma coisa. A sombra desvanece-se, não nos permite guardar tudo quanto tivemos ou fomos, apenas parte disso. Geralmente, a parte que carrego é a má e é essa a razão que a torna um fardo tão insuportável. As coisas boas e prazenteiras trago-as na memória, essa não me pesa nada. Está sempre comigo e nunca me impede de avançar a bom ritmo. Caminho pelas estradas e pelo mato, tudo me pertence. Sítios onde nunca fui, caminhos que nunca percorri, são-me estranhamente familiares. Há um pouco de mim em tudo quanto vejo. Penso na sua totalidade, esses sítios compõem-me e eu ficarei completo quando os experimentar a todos. Aí compreenderei quem sou e de onde vim e certamente ficarei numa melhor posição de decidir para onde quero ir. Saberei qual a minha vocação e terei plena consciência de todas as minhas capacidades. Descobrirei factos fantásticos sobre mim que agora ainda ignoro e habilidades espantosas que dar-me-ão uma projecção que agora não tenho capacidade de imaginar. Por outras palavras, irei procurar fora de mim, na terra que me pertence e que me tornou como sou, pelas minhas várias faces que, conjuntamente, formam o meu carácter. Nesse dia, libertar-me-ei do fardo que carrego e deixarei para trás tudo o que não pode contribuir para a realização do meu destino. Certamente que este processo não será fácil. Irei sentir que faço parte de lugares que não são nada naturais para a minha pertença. À partida, nada faz prever que me irei aí envolver ao máximo grau. Não nasci lá, não vivi lá nem socializei as minhas bases em determinado sítio. No entanto, a essência desse lugar terá para mim uma magia inerente que me envolverá sem pedir contas à minha racionalidade e sem conseguir compreender o motivo ou sequer combatê-lo. É isto que nos permite saber onde pertencemos. Podem haver sítios onde gostamos de ir e onde as pessoas nos recebem bem, mas nunca será a mesma coisa. Nós somos o que somos e o lugar reflecte isso. É certo que as coisas e lugares não têm valor próprio, intrínseco, mas têm uma história, uma memória, um legado narrativo deixado por outros e que nos vai influenciar e moldar. Esse é o sentimento de pertença. Estar perante algo e saber que pertencemos ali, e que aquilo nos pertence a nós, é uma relação mútua. Há características naturais no território que nos permitam reconhecer imediatamente quando passamos a fronteira, a fronteira entre o que é nosso, o que nos pertence e nos torna nós próprios e o que é do outro. É o sentimento de pertença que nos define pois coloca-nos em confrontação directa com o outro. O que é meu não é do outro e eu sou aquilo que o outro não é. O que é nosso fez-nos assim como somos e é aqui que somos felizes.

continua...

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