sexta-feira, 26 de outubro de 2012
O romance que está para vir - 3ª parte
António nunca conhecera a sua mãe. Esta morrera durante o parto, razão pela qual era filho único. Aos sete anos, o pai de António mandou-o para casa de uns vizinhos que tinham uma porção de terra na qual cultivavam tudo quanto era bom e inacessível para o seu dinheiro comprar. Adorou essa decisão. Aprendeu a arte da agricultura e ganhou a companhia de uma família simpática que tinha também um rapaz da sua idade. Esses foram os melhores momentos da sua mocidade. Ganhava uma quantia simbólica que entregava ao pai para ajudar nas despesas e brincava com Manuel Graça que ficou para toda a vida seu grande compincha. A vida não era fácil para António e seu pai, que vivia aterrorizado com a possibilidade de perder o trabalho de campino, ou pior, a vida. A lida de campino baseava-se no contacto com toiros. Todos os dias, levava a manada da ganadaria para o pasto por estradas frequentadas. De sua posse, era apenas a roupa que levava no corpo e a merenda que atava à sela do cavalo. Tudo o resto pertencia aos seus patrões e era cedido à sua responsabilidade, o que significava uma despesa insuportável para os seus rendimentos caso algo corresse mal. Um toiro perdido, um cavalo magoado ou até uma pessoa ferida eram encargos que lhe seriam imputados e que não conseguiria pagar nem que trabalhasse toda a sua vida. O facto de lidar com animais imprevisíveis e extremamente perigosos angustiava-o acima de tudo. Se algo lhe acontecesse, quem cuidaria de António? Enquanto pastava os animais, o pensamento costumava fugir-lhe para o sentimento de culpa que sentia por ter passado toda a infância de seu filho nas longas pastagens do Ribatejo. O remorso era grande, mas a evidência e a necessidade levantavam-se mais alto. Não lhe serviria de nada passar mais tempo com o seu filho e acompanhar o seu crescimento se mais tarde ou mais cedo acabasse a pouca comida que o seu salário ainda conseguia pôr na mesa.
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