terça-feira, 30 de outubro de 2012

O romance que está para vir - 5ª parte

A sete de Abril de 1894 assim o fez. Nesse dia, António fazia dezassete anos. Tinha combinado ir com Manuel ao baile da aldeia que um vizinho prestável tinha organizado. A música ficava ao seu encargo. António era um excelente tocador de realejo. Nas redondezas ninguém desafiava a sua habilidade. Normalmente, ficava encarregue de animar os bailes quando alguém oferecia a sua casa para a festa. Nesse dia, não tocou nem dançou. Seu pai chegou a casa mais cedo do que o normal, até antes de si, o que nunca tinha acontecido. As malas estavam feitas e a casa encontrava-se vazia. Já não lhes pertencia, seu pai tinha-a vendido aos patrões e usado parte desse dinheiro para comprar o belo cavalo que estava preso no lado de fora.
- Ata a carga ao animal. Partimos ainda hoje!
- Partimos?! - perguntou António atónito. E para onde é a jornada?
- Seguiremos para qualquer lugar filho! Onde houver um sítio melhor que este. Já não suporto esta terra, já não suporto esta vida. Tu és a única coisa que me resta meu filho, quero passar o meu tempo contigo! Nunca gostei da vida de campino, aliás, passei por casa do patrão e anunciei que partiria. Vendi-lhe também a casa, penso que a usará para alojar algum trabalhador seu. Aquele cavalo que ali vês, comprei-o por pouco. Já trabalhava há muitos anos para o patrão, há anos demais até. Fez-me um preço jeitoso mas com certeza não ficou a perder. Oh, eles nunca ficam a perder! O cavalo já é velho, é um belíssimo animal mas não aguentava o trabalho por muito mais tempo. Sabes, tenho sonhado com um lugar que não sei se existe. Queria um lugar para viver onde pudéssemos ter o nosso próprio campo, onde tivéssemos mais vizinhos como nós, um lugar onde pudéssemos cultivar e vender os nossos frutos. Não gostavas de ter um lugar onde vivêssemos e trabalhássemos juntos como pai e filho que somos?

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