António olhava o seu pai estupefacto. Em dezassete anos nunca ouvira algo semelhante da sua boca. Seu pai era um homem reservado, marcado pelo lado mais sofrido da vida. Não abria a sua alma dessa maneira desde que a sua companheira de vida partira. A dor que tal infortúnio lhe causou funcionava como barreira para a exteriorização dos seus sentimentos, principalmente com o seu filho. Acrescentava-se a dor que sentia de não conseguir acompanhar o crescimento de António e de tão pouco ter uma lar e uma família feliz para lhe oferecer. O sentimento de culpa inibia-o de demonstrar afecto por António pois sabia que esse acto se esgotaria em si mesmo.
- E existirá tal lugar? O pai não vê que o mundo já está cheio de pessoas que já ocuparam todos os bons sítios desde tempos muito antigos?
- Um vendedor ambulante falou-me de um sítio chamado Carregueira. Disse-me que o senhorio de toda aquela terra morreu e que os filhos estão de partida lá para Lisboa. Pelo que sei, estão a vender as terras onde viviam os trabalhadores da herdade por um preço que não se encontra em parte alguma. É para lá que iremos, se quiseres ir.
- Será verdade isso que diz? Não perderei o meu amigo de toda a vida e o sítio que me viu nascer por uma história mal contada...
- Se é verdade não o sei, mas tenciono ir lá ver com os meus próprios olhos. Se tal lugar não existir encontraremos outro para viver e trabalhar. Pior do que estamos agora com certeza não ficaremos.
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