quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Recuerdo de Madrid
Aquela tarde passada entre a barbáries ajudou-me a compreender e a admirar melhor as minhas gentes. Estive entre um povo que reúne massivamente ao fim do seu dia de trabalho para desacarregar as suas frustrações e recalcamentos numa cerimónia de evocação de uma memória colectiva que tem tanto de abstracta como de estúpida e bárbara. Eram aos milhares aqueles que, naquela que é a maior praça da Europa, celebraram o sangramento e morte de seis touros num exercício colectivo que nada tem de espectáculo e que conta com muito poucos floreados artísticos. O touro entra, é toureado com capas, picado com lanças e estacas e logo depois é morto em plena arena com um sabre enfiado pelas costras dentro, por um indivíduo que tem o papel máximo em toda a cerimónia. O ritual repete-se mais cinco vezes e, em todas elas, não há uma emoção, um espectáculo, uma situação que nos faça ficar ansiosos ou até ficar perto de atingir algum tipo de catarse. Não... É apenas um ritual, chato e repetitivo, muito apreciado pelos locais. Para eles, todas essas emoções acontecem quando vêm o touro morrer diante de seus olhos. Porém, isso acontece sempre da mesma forma, o toureiro, a pé, toureia o touro com uma capa vermelha, praticamente sempre da mesma maneira e depois espeta-lhe uma comprida espada no zona do pescoço, sendo tanto a melhor a sua prestação quantas menos vezes ele necessitar de voltar a espetar o animal. É sempre tudo igual. Não há surpresas, não emoções, não há criatividade humana. Às vezes, quando a situação falha ao controlo do toureiro e o animal lá se consegue libertar do hipnotismo da capa para ir marrar em cheio na carne humana diante de si, lá escapa uma emoçãozinha que, fugazmente, preocupa e emociona toda a audiência. Fora isso, nada... Oh meu povo, como eu desdenhava de ti e dos teus costumes! Perdoa-me a minha ignorância e as minhas duras críticas! Nunca da minha boca ouvirás uma palavra de apreco pelas touradas, mas, percebo agora o esforço que empreendeste para criar um espectáculo onde antes só havia morte. Sejam os toureiros a tourear com o seu resplandecente cavalo, sejam os forcados que, demonstrando enorme coragem, defrontam o touro de igual para igual, há qualquer coisa de diferente no espectáculo que criaste. Conseguiste dar a uma tradição bárbara um floreado artístico capaz de até a mim me empolgar quando o vejo. Criaste uma massa de aficcionadas por um espectáculo e não por uma simples morte, bárbara e sem sentido. Por tudo isso tens mérito mas nunca deixarás também de ter a culpa.
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