Desse tempo já nada resta. Ingressei recentemente na busca incessante de algo novo. A confusão e a paranóia que me rodeavam eram elementos perturbadores da serenidade de que necessitava para procurar o meu caminho. Decidi, certa tarde, alhear-me do mundo e torná-lo no pano de fundo das minhas reflexões. Foi aí que fiquei, para esse efeito, um dia inteiro a contemplar um sinal luminoso. O verde dava lugar ao amarelo que não tardava a apagar-se para que o vermelho pudesse brilhar, voltando depois ao verde e novamente ao amarelo, construindo um ciclo interminável que, pelo menos para mim, durou um dia inteiro, vinte e quatro horas. Certamente que para esse semáforo, a rotina é bem mais longa. A minha concentração estava no máximo isolando-me de toda a azáfama citadina dos automóveis que passavam e das pessoas apressadas que entravam em casa. Naquele dia estive sozinho. Então meditei, reflecti... Foi uma busca introspectiva pelas características da minha alma, daquilo que realmente sou. Contemplei aquele movimento que o semáforo fazia e tentei compreender algum mistério do universo. Como um profeta, esperava que a minha meditação me ajudasse a compreender o caminho e me desse clara noção de que qual era o meu lugar. Parece que compreendi perfeitamente aquilo que eu não era. Não era Jesus ou profeta algum. O meu retiro revelou-se completamente inútil, uma idiotice. Do universo fiquei a saber o mesmo e da natureza apenas percebi que tinha ficado um dia mais velho sem que essa idade se convertesse em experiências proveitosas ou ensinamento sábios. A minha experiência, um delírio, apenas me serviu para saber onde não procurar respostas. Seja o que for que se procura, não se irá encontrar em lugar fora de nós próprios. Cada um vê o mundo à sua maneira e, portanto, ao procurar respostas em algo que vê apenas encontra as suas próprias ideias projectadas para fora do seu eu, mas com base nele. Percebi que qualquer resposta que se procure está dentro de nós, pois somos nós que agimos sobre o mundo que nos rodeia e fazemo-lo segundo perspectivas próprias. Por outras palavras, o mundo que vemos é o mundo em que acreditamos. Procuramos com tanta força determinadas respostas quando nem paramos para perceber se fizemos as perguntas certas. Vemos aquilo que queremos ver, como uma projecção tridimensional que o nosso cérebro partindo das bases que são as nossas crenças, ideias, experiências e vivências. Espera lá! Será este o ensinamento que procurava? E o semáforo? Certamente que não aprendeu sozinho aquele movimento repetitivo. Todo ele foi construído artificialmente por alguém. Que mais se pode apreender de algo assim? Algo que não é genuíno, que não é natural. Mentiras certamente. Ou talvez inutilidades...
continua...
Sem comentários:
Enviar um comentário