Não obstante, consegui livrar-me da minha sombra. O passado negro, do qual já nada resta, ficou enterrado junto daquele semáforo. Acho que simplesmente ganhei uma nova prioridade que me fez esquecer os meus infortúnios. Comecei a pensar na estupidez do meu acto de meditação e ridicularizei-me a mim próprio. Penso que foi isso que me salvou. Fazer uma prática milenar tão sábia e importante como a meditação com base em algo tão idiota. Deveria-me ter refugiado na natureza, na floresta ou no deserto. Deveria ter fugido da cidade, da construção humana. Consegui recuperar a capacidade de me auto-ridicularizar que tinha há muito perdido. Olhei para a minha vida criticamente e fui capaz de troçar sem me censurar. Então ri. Tinha até muita graça. Conseguia inventar bons gracejos sobre mim próprio. Foi a primeira vez que me lembro de ter rido. Libertei toda a tensão que tinha acumulada sobre os meus ombros e senti-me um homem novo. Ah, como é importante rir... Algo tão simples como um sorriso do qual, por vezes, nos esquecemos. Deixei me ter em tão alta consideração e percebi que sou como todos os outros, pelo menos naquilo que é fundamental.
Costumo contar muitas vezes esta história aos meus netos. Eles parecem gostar de me ouvir. Sentam-se em meu redor com as perninhas cruzadas e o mais pequeno gosta de ficar ao meu colo. Esbugalham sempre os olhos e abrem as pequenas bocas em sinal de espanto quando lhe conto que aquele não era eu, apenas uma fábula sobre o país em que vivia. Eu acho que, ainda hoje, eles não acreditam na minha história, ou talvez não a percebam... Esse país perdido e cinzento já não existe. Portugal onde eles nasceram já não anda à deriva sem destino certo e esperança para o guiar. Realmente é uma história em que é difícil acreditar. Na sua visão do mundo, Portugal sempre foi o jardim à beira-mar plantado onde o verão dura para sempre e o som das ondas do mar se houve em toda a parte.
Sempre senti um amor inexplicável por este lugar e nunca consegui compreender porquê. A verdade é que é um sítio maravilhoso com tudo o que se pode desejar em grande abundância e com características sublimes que não se encontram em mais nenhum lugar do mundo mas, a época em que eu cresci, foi o apogeu do adormecimento disto tudo que eu amo. Quando eu estava na idade de conhecer os segredos mais profundos das coisas e as características mais sublimes da existência, tudo à minha volta estava no definhamento que costumo descrever aos meus netos. O país estava fechado, para mim e para todos. Por mais que me esforce não consigo discernir porque razão sinto uma ligação incontrolável com este pedaço de terra, apesar de ele me ter tratado tão mal quando eu era jovem e queria aproveitar a vida. Parte de mim sabe a resposta. Há qualquer coisa de especial no ar que se respira, na terra em que se caminha, nas ruas que se palminha. Há algo que paira no ar, do Minho ao Algarve, que me faz sentir em casa e com a qual me identifico. Uma força profunda, uma energia incontrolável. Ah, como eu anseio por um dia ter netos...
FIM
Sem comentários:
Enviar um comentário