continuação...
Houve uma altura em que tive tudo e nada tive. Tudo estava à distância de uma preocupação mas eu não queria saber. As coisas ofereciam-se-me, subjugadas, e eu não as queria, não sabia como as aproveitar. Preferia reclamar e culpar alguém por essa mesma coisa não estar ainda mais próxima, a um alcance mais fácil. Nessa altura, uma preocupação minha tinha um valor incalculável e não a podia dar assim ao desbarato. Nada tinha sentido e não chegava ninguém que lhe devolvesse a importância. A angústia que sentia dentro de mim era terrível. O azul acinzentado da atmosfera de nevoeiro e as fortes luzes cosmopolitas que me encandeavam acentuavam esse mal-estar. O meu mundo, embrenhado de problemas, acelerava a minha vivência a um ritmo estonteante que me inibia a clareza do pensamento. Quando parava para pensar, a incerteza instalava-se e o medo generalizava-se. Olhava em meu redor e nada via, apenas olhava. Havia uma imensidão que engolia a minha individualidade e reprimia a espontaneidade mental. Lembro-me também que, nessa altura, quis fugir para o meu refúgio natural onde sempre conseguia recuperar e harmonizar as minhas energias. Quando lá cheguei, o oceano e a areia continuavam em seu lugar mas não dei pela sua essência. O mar tinha perdido a sua vastidão e a areia já não era suave. Então chorei. As coisas estavam lá no seu esplendor físico mas as características essenciais, aquelas que lhes atribuem significado e que as tornam especiais, tinham desaparecido. O que é uma manifestação da realidade sem a importância valorativa que lhe damos?
Um corpo sem significado, um conceito vazio... Não me lembro de mais alguma vez, na minha vida mundana, ter chorado assim. Caí, sentado sobre as minhas pernas, e chorei durante o que me pareceu três semanas. Ao fim desse tempo, levantei-me e voltei para o buraco a que costumava chamar de casa. Percebi que quando se chora e ninguém acode, o acto banaliza-se e deixa de ser útil para simbolizar e demonstrar a tristeza. Tal como a areia e o mar, tinha perdido o sentido. Desde então, nunca mais uma lágrima me escorreu pela face.
Que gesto inútil é chorar! Se alguém souber de outro que seja melhor para me trazer consolo, que me diga por favor! De qualquer modo penso que não vale a pena. De que serve demonstrar tristeza quando ninguém está lá para nos ajudar, para se preocupar? As coisas e os actos não têm valor intrínseco, não valem nada. Só valem quando lhes atribuímos um valor.
É tudo uma construção nossa. Como chorar...
As coisas e os actos não têm valor intrínseco, não valem nada. Só valem quando lhes atribuímos um valor. É tudo uma construção nossa. Como chorar...
ResponderEliminarMuito bonito :)
As coisas só têm o valor que lhes atribuímos. Por si só não valem nada. Por isso é que cada pessoa gosta de coisas diferentes.
EliminarA minha melhor leitora também concorda? =)
Eu concordo :)
EliminarPor isso considero tão importante conseguir expor assim os pensamentos e sentimentos.
Podermos, através do gosto diferente do outro, descobrir um pouco melhor o nosso, entre os diferentes gostos respeitar e, quem sabe, aprender algo novo e interessante :P
É exactamente isso, até porque nós só nos definimos quando estamos em relação com outro. As nossas características não são intrínsecas. Dou um exemplo: se todos fossesmos morenos, isso deixava de ser uma característica útil para nos descrever por não nos diferenciava do outro. Passava a ser uma categoria vazia de sentido e dasaparecia.
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