Ontem vi-te. Passava na rua caminhando atarefado, como sempre faço depois do trabalho. Olhei o céu e as nuvens apressadas, olhei as árvores e as folhas que caíam. O meu olhar divagava em meu redor e puderam em ti repousar. Estavas à janela. O teu longo cabelo esvoaçava ao sabor do vento outonal. A tua pele, sempre morena, contrastava com a melancolia do ambiente que te envolvia. Parecia um retrato de onde tu destoavas. Sobressaías da pitoresca fotografia e o teu olhar atraía particular atenção.
Ontem vi-te. Estavas triste, ou pelo menos o teu olhar assim dizia. Tentei compreender o que ele queria transmitir mas ele era vago e sem alegria. Olhei bem fundo e não gostei do que vi. Sofrimento, apenas sofrimento. Bebias um chocolate que fumegava de tão quente estar. Talvez tentasses aquecer a alma, reconfortar o espírito.
Ontem vi-te mas tu não me viste a mim. O olhar estava vago e a mente noutro lugar. Parecias viajar a pensamentos inóspitos e divagar em sentimentos dolorosos. Eu observei-te durante algum tempo, vi a tua expressão. Compreendi que não estavas em casa, que não estavas à janela, e dei por mim a desejar que voltasses.
Tu não me viste mas eu vi-te a ti. Queria-te falar, afastar as saudades que já se vão alojando. Todos os dias o meu olhar varre a tua rua e coloca esperanças na tua janela. É instintivo irracional. Acho que gostava de te ver mais vezes. A tua face bela, a tua expressão ímpar. Gostava de me perder em cada aspecto da tua personalidade, conhecer cada canto do teu ser. Gostava também de conhecer o teu corpo, sentir-te de manhã ao acordar. Tenho muita paixão para te dar, muito amor para te entregar. Queria conhecer-te ao pormenor, saber o que fazes e por que o fazes. Conhecer cada nuance do teu íntimo. Quero também saber como beijas e como amas, ver como te aconchegas e como adormeces.
Espero que me vejas em breve. Espero ver-te em breve. Poderemos trocar umas impressões, partilhar esse teu chocolate. Se quiseres podes também vir comigo, tenho o carro já ali... Há tantos sítios que gostava de te mostrar, sítios lindos e belos. Vamos fugir desta cidade à qual pertence a nossa rotina. Vamos a sítios novos e exclusivos. Iremos juntos, tu e eu. Rumo a um conhecido que ainda não conhecemos juntos. Iremos e voltaremos de novo, sob as estrelas do céu de Outono. Ontem vi-te e voltarei a ver, se vieres comigo. Nunca mais te procurarei à janela, abrirei a porta e entrarei.
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