Este era antes um homem sonhador que lhe contava histórias fantásticas da sua vida de criança e que partilhava com ele, de forma doce e suave, as perspectivas que tinha para o desconhecido que estavam prestes a conquistar. Mal saberia que daí a alguns anos, seria a sua vez de contar aos seus filhos tudo o que viu nessa grande viagem entre o Ribatejo e a Carregueira. Todas as povoações, todos os prados e planícies, todas as pessoas que viu e conheceu ao longo do Tejo ficariam-lhe para sempre gravadas na memórias com traços de uma pintura romântica que nos aquece a alma e nos traz a saudade ao espírito.
Quando, em meados de Maio, pai e filho chegaram à Carregueira, António experimentou uma sensação para a qual nada nem ninguém o podiam ter preparado. Os sonhos que o pai lhe descrevia de como imaginava a futura localidade onde iriam morar eram entusiasmantes, mas aquilo... Ver com os seus próprios olhos a materialização de todas as suas expectativas fez António saltar de repente da parte de trás do cavalo e correr pelos caminhos da aldeia que albergava a sua nova casa. Tudo lhe parecia saído de um sonho, nada parecia real. Era bom de mais para ser verdade! Todas as casas estavam dispostas ao longo de uma estrada de terra que continuava até perder de vista. Eram todas sensivelmente do mesmo tamanho e caiadas de branco contendo na parte de trás, uma porção pequena de terreno arável que, para os olhos embevecidos de António, deveriam ter pelo menos um ou dois hectares. A aldeia respirava de vida. De um lado e de outro, os homens cavavam, as mulheres lavavam e os petizes brincavam. Tudo parecia estar no seu lugar, conjugado harmoniosamente, no entanto, certas casas encontravam-se silenciosas. António dava especial atenção a essas pois sabia que, muito provavelmente, iria morar numa delas. Caminhava calmamente ao lado de seu pai, que ainda montava o cavalo, e dirijam-se para a casa mais alta e maior da povoação onde residiam os nobres proprietários. A vizinhança olhava-os cautelosamente sem porém nunca deixarem de fazer as suas tarefas. Não era comum avistar-se gente estranha por aqueles lados, mas também não se recebia por lá ninguém com maus modos. António e seu pai iriam comprovar isso na primeira pessoa.
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