domingo, 11 de novembro de 2012

O teu cão branco de papel - 1ª parte

Sobre a mesa, um café. Logo outro se apressa a juntar-se-lhe seguido de outro. Três. Tantos cafés como pessoas e, porém, apenas dois cigarros se acendem. Entre os bafos prazenteiros e o expelir do fumo que viaja desde as entranhas dos pulmões, passa pelos lindo lábios vermelhos e se desvanece no ar criando uma pequena nuvem desfocada que, decerto, manchará o odor das minhas roupas noto que a lua está cheia e o tempo frio. Quando conduzia, ainda há pouco, não poderia adivinhar que a noite estava assim tão fria. O conforto que o habitáculo do meu automóvel me proporciona é deveras ilusório e escasso. Ainda há pouco estava relaxado no estofo macio do assento e ouvia, calmamente, a música que seleccionara sem sentir qualquer réstia do tempo húmido e frio que, descobri estar no exterior. Agora estou sentado a uma mesa numa cadeira rija e desconfortável, com os ossos enregelados e abafado pelo fumo dos cigarros. Que situação desagradável! As roupas que trago vestidas não se adequam ao frio húmido do tempo e refugio-me no café a escaldar para me aquecer. Aquece o corpo e a alma, tudo naquela pequena chávena. Quanto mais pequena melhor, a minha bica. São assim os melhores prazeres! A lua está cheia e os cafés são três mas os meus olhos, quando por ti passam, demoram-se a tentar perscrutar a tua mente. Os teus longos cabelos negros misturam-se com o negro dos teus olhos e nem a escuridão da noite me impede de ver o que eles transmitem. Olhas para a lua e eu vejo-a reflectida em ti. Está cheia e brilhante, assim como a tua mente que divaga ao abrigo das esperanças incompreendidas. Um último trago esvazia a minha chávena e, com aquela última porção de café, vai-se todo o prazer em estar ali, sentado àquela mesa. A tua mente parece perturbada e isso reflecte-se nos teus olhos. Segundo dizem, os olhos são o espelho da alma. Uma grande verdade que encerra a expressão e um engano que provoca a palavra. O que é a alma senão a nossa mente? Ou melhor, o que é a alma senão os sentimentos, as emoções, a cultura e as ideias? E onde está tudo isso? Pessoalmente nunca as vi e duvido que alguém já tenha completado esse feito mas acredito que estão na mente. Onde mais poderiam estar? Hoje os teus olhos espelham tudo o que se passa dentro de ti: a confusão, as dúvidas e o ressentimento. No entanto, toda a perturbação que eles contam é ocultada pela tua aura de beleza. É como se a tua pele, sempre morena, irradia-se um brilho ofuscante que realça a tua beleza e esconde a tua dor humana. E os teus lábios, desenhados no rosto com um traço seguro e bem dominado, escondem as cruas palavras que proferes tornando-as numa música que se esforça por encontrar os meus ouvidos. Os cigarros acabam finalmente. No maço, mais que meia dúzia. Uma tortura! Tudo em meu redor me perturba, o frio, o fumo, o prazer do café que acabou... Olhar para ti é o pior! Ver-te aí, tão perto e tão distante. Pergunto-me que assunto te levará o pensamento para tão longe. Na verdade sei-o mas prefiro fingir a ignorância. A verdade dói! Não tem dó nem piedade. Parece que alguém a concebeu para ser assim, dolorosa...

Continua...

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