O teu pensamento está longe, no estrangeiro diria eu. Um amor prometido, um amor perdido. Promessas que se fazem e laços que se partem. Ai de mim! Um intruso na própria história que estou a criar... À nossa volta as pessoas tagarelam sem parar, a música toca para as conversas esgotadas, os empregados trabalham numa azáfama esgotante e a nossa amiga fala para uma audiência vazia. É tudo uma distracção. O mundo a acontecer à minha volta e eu parado no tempo, incólume ao que se passa. É uma janela de tempo que me passa ao lado e por onde nunca eu irei espreitar. Só consigo fitar-te e tentar perceber o que te torna tão irresistível. Parecer caída num autismo extremo que virou a tua atenção para dentro de ti. Mais ou menos o posto do que se passa comigo. Eu sinto-me completamente esmagado pela imagem de ti que se constrói dentro da minha cabeça, pelo que começo a sentir por ti. Uma sombra do futuro que se começa a formar ainda hoje. Tu não compreendes nada do que está a acontecer. Tentas curar a mágoa de um infortúnio amoroso, acabando por fechar os olhos para o que gira em teu redor. Tentas perceber o fim de um laço, de uma relação. A sentença foi ditada na noite anterior, quando discutiram ao telefone mas a inevitabilidade já tinha sido criada anteriormente. Tentas perceber quando a chama começou a esmorecer mas não compreendes. A cegueira que tens é mero reflexo daquela que costumavas ter. Ainda há pouco, quando estava no conforto do meu automóvel, não sentia nada disto. A minha atenção estava centrada na condução e o meu sub-consciente cantava alegremente as canções da rádio. Agora observo-te e experimento um estado de espírito totalmente oposto. Quando vinhas no banco de trás do meu carro não tinhas essa mágoa no olhar. Vi-te dezenas de vezes através do retrovisor. Falavas e cantavas, esboçavas até um pequeno sorriso. Parece um mundo diferente não é? Parece que estamos numa realidade paralela, diferente... Que fazes tu com esse pedaço de papel branco? Todas essas dobras e recortes... Estás consciente do que fazes ou as tuas mãos trabalham a um mote diferente do teu pensamento? Penso que ainda continuas absorvida nas tuas ideias, encantada, e isso que agora fazes não é racional. Quatro pernas, uma cabeça, duas orelhas e uma cauda... Acabas de recortar um pequeno cão branco de uma folha informa. A tua tristeza fez-te criar um "amigo". Tinhas que o inventar? Sempre me esforcei ao máximo para ser esse amigo que o teu sub-consciente projectou nesse cão branco de papel. Nunca quiseste saber... Sempre fiz tudo quanto estava ao meu alcance para agradar, ajudar. Sempre te de dei muito mais do que aquilo que pedias e precisavas. E tu? Recortas um refúgio de uma folha branca... Que tristeza eu sinto! Desejo sair desta mesa e abrigar-me no carro. Ao menos lá não sinto frio... Mas tu não me permites a saída. Já mencionei que te olhei durante todo este tempo? Não me importa que não retribuas o olhar, o pensamento, o sentimento... Quando nos formos embora vou pegar nesse teu cão branco de papel que certamente vais deixar para trás e vou guardá-lo. É como se me fosse permitido ficar com um pedaço teu e depositar nesse totem aquilo que a ti me liga. Só tu importas. O resto, o resto é distracção.
FIM
Sem comentários:
Enviar um comentário