terça-feira, 13 de novembro de 2012

Requiem


E agora que morreste. Partiste para onde sei que te encontras e que eu não posso ver. E agora que morreste. Quem será o meu amigo, quem me guiará? E agora que morreste. Separa-se a alma e o corpo, fica a memória e a saudade. Enquanto eu viver, viverás tu também através de mim. O meu corpo será o teu e a minha palavra a tua. Servir-te-ei como sempre te servi e tudo farei para que o teu espectro nunca abandone este mundo dos vivos. Para onde eu for, tu seguir-me-ás. No que eu fizer, tu ajudar-me-ás. Partes deste mundo das sensações e das experiências para encontrares o teu lugar num sítio melhor. És as árvores que crescem, as folhas que caem, o vento que sopra e as crianças que nascem. És a erva que brota e a nascente que jorra. Partiste meu pai. Partiste mas eu sei que nunca me abandonaste, que continuas aqui, ao meu lado, a velar por mim, pela nossa família e por toda a humanidade que prossegue no seu caminho. Juntaste-te ao conselho dos sábios que tudo vê e governa, juntaste-te à energia que anima toda a Terra. Na minha memória fica o teu sorriso, a tua mão no meu ombro. Enquanto disso eu me lembrar estarás aqui, nesta igreja, nesta aldeia, neste mundo, comigo e com todos os que ajudaste e com eles privaste. Eras único, como tu não houve ainda igual. Dotado de uma riqueza sem igual, no espírito e na mente, na mão que o trabalho completava. A tristeza que sempre te vi no olhar e a reserva que tinhas em florir para o mundo tinham as suas raízes no momento da perda da mãe. Nunca a conheci mas sei, através de ti, que era uma mulher fantástica. O teu amor por ela era algo que as meras palavras não podem explicar. Sei que lhe deste grande parte de ti e que, quando ela partiu, não conseguiste recuperar o que deveria encher esse vazio. Admiro-te tanto meu pai! Quando a pressão atingiu o seu limite e quando a vontade de desistir conheceu o seu apogeu, tu pegaste na trouxa e foste trabalhar, tal como fazias todos os outros dias da tua vida. Estavas totalmente devastado, destruído por dentro, com a alma dilacerada. Ainda assim, continuaste. Por mim… Nunca desististe, nunca me deixaste. Nunca fui rico ou instruído mas não deixei de comer por um único dia da minha vida. Se hoje aqui estou, casado com uma linda mulher e pai de quatro magníficos filhos, devo-o a ti meu pai que, todos os dias, foste trabalhar para ganhar o pão que nos alimentou, mesmo odiando a tua ocupação. Se o meu presente é maravilhoso e o futuro risonho, devo-o a ti que tiveste a visão de me guiar pelos caminhos sinuosos do mundo. E agora que morreste. Sabes que eu não estou triste, foste tu quem me ensinou a ser assim. Foste tu quem me ensinou que a morte precede a vida e que a memória precede a morte. Vou-me sempre lembrar de ti, meu pai. Todas as noites, contarei aos meus filhos, aos teus netos, as nossas aventuras e tudo aquilo que vimos e vivemos. Juro-te que lhes darei tudo o que estiver ao meu alcance e que tudo farei para continuar a nossa maneira de ser e viver, que tu começaste. Eu não te posso ver, meu pai, mas sei que estás aqui, e além, e acolá. Já não és mais o homem que me ensinava os mistérios da vida, que me contava os segredos sobre as estrelas, que me ajeitava na sela do cavalo e que me orientava nos meus deveres. Mas eu também já não sou mais esse petiz que te olhava embevecido quando falavas à luz da fogueira. Agora chegou a minha vez de ser o homem, tomei o teu lugar, e tu juntaste-te aos nossos antepassados para juntos formarem a energia que permite o mundo funcionar. Não é fácil ocupar a teu lugar. Preencher o vazio que criaste torna-se ainda mais complicado quando a tua família, os teus netos, os teus vizinhos correm a pedir conselho e sabedoria. Eu próprio careço de guia por vezes, não estou em posição de comandar, de ser o chefe de família que tu eras, de ser o Homem que tu outrora foste. A vida pai, a vida é como um rio. Foste tu próprio quem mo disse. A história da vida, de uma vida, não é singular. Bem sei que a sua complexidade, tal como o seu valor, advêm dos inúmeros episódios que constroem o seu corpo principal. E nós bem que tivemos os nossos momentos… A vida serve para viver, senão não pode sequer ser chamada de tal, e nós vivemos bem a nossa! Hoje não haverá choro e a tristeza não terá lugar. O sino soou onze vezes, tantas vezes quantas as estrelas que irei baptizar em tua honra. Hoje celebra-se, não a tua morte mas sim a tua vida. Celebramos quem foste e o que fizeste enquanto por cá andavas. E agora que morreste, toda a aldeia veio ao teu funeral. Todos os que conhecias e cumprimentavas, todos os que se riam e te saudavam. Mas não são apenas esses que enchem esta igreja. Dezenas de outros vieram também. Outros de outros lugares que não conhecemos, pessoas de que nunca sequer ouvimos falar. Mas todos vieram hoje a este lugar. Todos largaram os seus afazeres e percorreram longos caminhos para aqui estar. Hoje, agora. Todos vieram para te ver e por ti rezar. Talvez tenham algum recado para te dar, alguma palavra que não foi dita, algum momento que não foi vivido e vieram aqui, agora, para fechar esse círculo. Sim pai, agora que morreste.

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