sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Segunda Parte - Composição I


A esta altura, na sequência do texto que publiquei "Crónica de um amor burguês", faz todo o sentido clarificar a minha posição e ideias sobre o amor. Para tal, deixo aqui um excerto da Composição I que é parte integrante do meu primeiro livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis", podendo ser encontrado na Segunda Parte do livro. Escolhi este excerto pois acredito que ele dá uma ideia muito mais clara sobre a minha forma de ver o amor em detrimento da "Crónica de um amor burguês", escrita em tom de crítica ao modo como a sociedade moderna encara este tema.

Q



uando sinto a chuva a acariciar-me o rosto, são as tuas lágrimas que caem sobre mim como agulhas incandescentes e se entranham na minha alma. Quando sinto o sol beijar-me a pele, é a ira que transparece nos teus olhos e me leva numa viagem até às profundezas de tudo e me queima como uma labareda infinita. Quando sinto o vento passar por mim, é a tua raiva e a fúria que faz levitar tudo à nossa volta e que me trespassa o coração, tal lança afiada e pontiaguda que é. Quando sinto a areia seca que me escapa por entre os dedos, é a tua tristeza e desilusão que me causa uma dor aguda e me faz também querer desintegrar-me e desaparecer. Sentir que te faço sofrer, causa-me vergonha e desorienta o meu humilde ser. Abala toda a minha consciência e os meus sentimentos pois a minha razão de ser é a tua felicidade. Oh! Só Deus sabe como eu nasci para isto… Eu nasci para te encontrar e para te fazer feliz. E seremos então a união perfeita de dois seres humanos. A união mais perfeita que pode existir. Oriento toda a minha acção para este supremo objectivo. Quando não o consigo, os quatro elementos libertam as suas amarras que acorrentam o meu espírito e o deixam eternamente na masmorra do esquecimento. Mas eis que surge a sombra no fundo da caverna. És tu que te levantas atrás de mim e fazes deslizar suavemente pelo vazio a espada dourada de dois gumes. Não importa onde me agarre, hei-de sempre ferir a minha pele sensível. Por mais robusto que me torne, nunca poderei estar preparado para o que de ti surge. Pego na mesma. Não havia de ser por isso que recusaria algo teu. É então que olho para trás. Aceito a mão que me estendes e ergo-me nas minhas sólidas pernas. Saímos juntos para o desconhecido. São pétalas de moribunda rosa que nos cercam e caem sobre os flancos! Estendo o braço sobre os teus ombros. No escuro da sala, nem reparas nos arpões que voam de nenhures com destino a ti mesma. O meu braço que te cerca, protege-te de toda a dor e recebe com agrado as furiosas ferroadas de tão pontiaguda arma. Não importa! Estás a salvo… Olhas os meus olhos. O preto funde-se com o castanho, o castanho funde-se com o verde, o verde funde-se com o branco que o circunda. No fim, resulta tudo num vermelho intenso que sai dos enormes buracos onde o metal da seta se funde com a carne do meu braço. A perfeição do momento resulta do brilho intenso que nasce dos teus olhos. Dois poços da juventude, dos quais anseio por beber… Maravilhados, os meus feios olhos esquecem a dor profunda e gritante e partilham da amorosa genuinidade que dos teus análogos jorra. Perfeição! Os quatro elementos estão em harmonia… Das labaredas infernais domestica-se o fogo que me é oferecido por ti, oh Deusa Suprema! É o amor e a paixão que me deste um dia a conhecer. Incendeias a minha alma sempre que te aproximas e, quando me tocas, todo eu broto numa tocha imensa que arde sem se ver. E então os teus lábios tocam os meus num beijo profundo e eterno. A tua saliva semeia em mim uma frescura incontrolável. É fonte que corre sem cessar e rega tudo à sua volta, fazendo florir perfeitos frutos do amor. Depois sussurras-me ao ouvido palavras eternas de carinho. A brisa que traz tão doces palavras depressa se apressa e corre… Corre não, voa… Voa por mim fora e todo o mundo e todos os mundos ouvem as juras eternas de amor. Testemunhas serão! Testemunhas de tão sincera paixão, proferida pessoalmente pela Deusa das deusas. Na terra ficará para sempre marcada a pegada vermelha do amor incondicional. Para que todos possam ter conhecimento e seguir esse modelo. Porque só uma vida sofrida no seio do amor, é de facto uma vida e fica para sempre marcada no manto de estrelas que cobre a terra. A perfeição existe! Está na carícia que o simples mortal faz à Deusa para esta cair num sono tranquilo e descansado. Um só beijo desta magnífica entidade e atingirei a plenitude… 

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