Hoje dei um importante avanço na minha demanda, na busca do meu ser. Olhei-a nos olhos e vi-me, a mim e não a ela. Vi a minha imagem como nenhum espelho alguma vez me mostrou, defini-me como nenhum comentário e opinião alguma vez definiu. Não vi um corpo, com músculos e expressões. Vi uma ideia, um abstracto. Reconheci-me ali. Um constante de mudança e permanência, um conjunto de ideias e pensamentos, um corpo e uma ideologia, sensações e emoções que a linguagem não pode reproduzir. Desviei o olhar. Não suportava mais. Arranjei um assunto qualquer para conversar.
O meu pensamento divagava sobre o sucedido. Terá ela visto o que vi? Será que a imagem reflectida nos olhos dela lhe chegou até ao cérebro Será aquilo que ela pensa de mim? Acho que nunca saberei. Não lhe consegui perguntar e agora é tarde demais. Muito tempo já passou e a imagem, se de facto era real, decerto já foi contaminada.
Eu, como todos os meu semelhantes, não sou uno e indivisível. Não tenho uma identidade única fixa. Não tenho uma história linear. Eu defino-me na minha multiplicidade. Naquilo em que acredito e nas contradições que isso acarreta. Não sou as discussões que venço mas os argumentos que saem frustrados na tentativa de expressar um pensamento. Sou contraditório e as contradições definem-me na minha plenitude. Como pode um espelho reflectir tudo isso? Como pode um juízo identificar tudo quanto sou? Como pode uma opinião apresentar-me por completo?
Eu sou o que digo e o que não digo. Sou o que faço e o que fica por fazer. Sou o que penso e o que transmito. Uma ideia que fica por expressar e outra que grito na rua. Não me digam que me conhecem. Não me digam que previam o que iria fazer. Não me digam que sabem quando da sabedoria todos estamos privados. Não tenho paciência para hipocrisia nem falsos filósofos Nem aquela que me viu, me viu realmente. Viu-me a alma, a essência, mas logo esqueceu, logo poluiu a sabedoria. Olhou mas não viu, espreitou mas não apreciou. Quando olhou de novo já não viu o mesmo.
Parece que o universo em seu redor se transformou profundamente nos instantes entre olhares. Parece um cubo de Rubik. As faces do cubo alteram-se entre si mas, no fundo, nunca deixamos de estar perante essa forma. Faces da realidade que nós não víamos assumem a sua posição à mercê do espectro visível e, a mesma forma, assume novas realidades tangíveis. Como uma obra de arte, sempre igual a si própria mas sempre diferente a cada apreciação. Vemos sempre faces diferentes da realidade de uma forma que nunca muda. É um defeito humano, olhar e não ver. É uma qualidade humana, re-inventar a realidade sem nela sequer tocar. É tudo uma perspectiva, uma ideia. E garanto-vos que a ideia é a coisa mais forte que existe neste mundo. Uma coisa sim, não palpável nem visível mas com uma coisidade própria. Podem-nos tirar tudo, até a esperança, mas uma ideia persiste na mente e tem a capacidade de se reproduzir e de crescer a uma velocidade ainda pouco compreendida pela inteligência das pessoas. Hoje, olhei-a nos olhos e vi-me, a mim e não a ela. Recordei uma personalidade, uma essência. Características que criei e que transporto comigo todos os dias do quotidiano. Hoje, recordei o que fui, recordei o que sou, recordei o que serei, num futuro que não conheço. Hoje, recordei o futuro.
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