terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A cultura por cá


"A auto publicação é uma ferramenta na qual a LeYa se torna pioneira em Portugal mas que internacionalmente tem vindo a ganhar milhares de adeptos."

Começo este meu post com uma citação retirada do site do novo serviço da LeYa: Escrytos. Ao que parece, o lançamento deste novo serviço tornou o grupo editorial português pioneiro na auto publicação em Portugal, apagando simplesmente todo o trabalho já desenvolvido por outras entidades e pessoas. Parece que esta ideia caiu do céu para a LeYa que, na qualidade de entidade iluminada e mais perspicaz que todas as outras, a colocou em prática de forma inédita! O que vale é que as empresas portuguesas acham sempre que são pioneiras nalguma coisa e ninguém se parece importar com isso. Creio ser um abuso esta apropriação do trabalho alheio e o desprezo que a LeYa demonstra pelo estado da cultura portuguesa. Esta infelicidade do citado grupo editorial só vem reforçar a ideia que as editoras portuguesas são grupos empresariais de tamanho intolerável, orientados exclusivamente para o lucro, completamente alheados da realidade cultural e completamente impermeáveis à iniciativa do autor. Será pedir demasiado que as editoras se dediquem ao que, supostamente, é o seu objectivo essencial: editar autores e publicar obras de mérito para a cultura? Será pedir demasiado que os executivos responsáveis por estes grupos de orientação financeira desçam à sociedade civil e procurem os autores de mérito e de futuro? 

Parece-me absurdo esta pompa e circunstância no lançamento que não traz nada de novo ao mercado e ainda vem potenciar o reforço do distanciamento das editoras aos autores. "Para a LeYa esta plataforma vai ao encontro daquela que tem sido a sua estratégia no contexto da estimulação da criatividade editorial e até mesmo no da procura de novos talentos de língua portuguesa." Sim, talvez seja só mesmo para a LeYa que esta plataforma traz todas essas maravilhas. O que traz é tão simplesmente o reforço da precarização do papel do autor e a dilaceração da cultura escrita portuguesa. O que se pede às editoras é que apostem nos escritores, que os agênciem e que os aconselhem, que consigam filtrar o talento e o ajudem a florescer. Sem fazerem isso bem, é um erro absoluto a aposta em meios de auto publicação. Para isso já existem outras entidades que o fazem e de forma bastante competente. 

Enquanto a LeYa brinca aos empresários e à suposta inovação, há autores que ficam por ser descobertos, há textos de qualidade que ficam na gaveta, há aposta na inovação editorial que não é feita. Mas o importante é que o autor recebe 25% das suas vendas.

Baseado na notícia do P3 visível através do link: http://p3.publico.pt/cultura/livros/5775/grupo-leya-cria-escrytos-uma-plataforma-que-facilita-autopublicacao

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