Oh! e como éramos fiéis. Na altura estudávamos
na universidade e mesmo assim não havia exame nenhum que nos impedisse de ler e
responder aos bilhetes de amor que trocávamos por correio. Era uma troca
constante se bem te lembras. As tuas palavras eram sentidas e reflectidas, uma
obra-de-arte. Via-se que cada carta continha muitas horas de escrita e outras tantas
de pensamento e reflexão. Sabia que cada palavra era escolhida a dedo para
demonstrar o teu afecto por mim, o teu compromisso, a tua dedicação, a tua
lealdade. Sabia-o porque elas transpareciam-no e porque também eu fazia o
mesmo. Nessa altura fui feliz! Bem sei que dormia e que estudava sozinha, que
ria sozinha e que passeava sem ti, de mão dada com o espectro da minha
imaginação que figurava à tua imagem.
Nunca te tinha visto… Sabia que estavas
lá, que existias, que me amavas e isso bastava para preencher com cor aquele
espectro informe. Depois daquela vez, a tinta da tua caneta permanente nunca
mais secou embora ainda tivesse demorado um bocado até usarmos todo aquele
material que foste comprando para adornar o nosso primeiro encontro. Sinto
saudades desse tempo, sinto saudades tuas. Será que ainda existes? Será que ainda
me amas?
Agora já não me escreves, a criatividade das tuas palavras secou de
vez. Nem é suposto que o faças, afinal de contas habitamos a mesma casa,
vivemos juntos! Esta carta que te endereço é um exercício de futilidade, um
evento sem nexo. É simplesmente um grito ao vazio, o grito de quem chora…
Provavelmente nunca a irás receber pois nunca a irei enviar. Se não a deitar
fora, arranjarei um baú ou o fundo de uma gaveta escura que trancarei para todo
o sempre. Jamais estes meus sentimentos se destinam a ser conhecidos e muito
menos por ti. Precisava apenas de relembrar os velhos tempos, relembrar a
felicidade. Precisava apenas de me exprimir como já há muito não fazia. Sonho
contigo, connosco, com o amor. Quero tempo contigo, conhecer-te, explorar-te.
Será possível viver casada com um homem que não conheço? Quando falas, a tua
voz soa-me estranha. Quando sorris, os teus olhos mentem-me. Mas a tua escrita…
Oh! a tua escrita conheço eu bem. Conseguiria identificar a tua letra em
qualquer parte do mundo e encontrar uma frase tua no meio de um livro. Porque
será que penso não te conhecer?
uau... parabéns...texto mesmo muito lindo
ResponderEliminarMuito obrigado. Fico contente por ter gostado!
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