sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - A carta que nunca lerás

Meu amor, meu sonho esquecido. Lembras-te dos tempos em que nos namorávamos por carta? Lembras-te de como éramos felizes e comprometidos sem sequer nunca nos termos visto e tocado? Três anos namorámos assim, à distância, à distância de uma caneta e de uma folha de papel. As palavras eram a nossa relação, o nosso mundo. 

Oh! e como éramos fiéis. Na altura estudávamos na universidade e mesmo assim não havia exame nenhum que nos impedisse de ler e responder aos bilhetes de amor que trocávamos por correio. Era uma troca constante se bem te lembras. As tuas palavras eram sentidas e reflectidas, uma obra-de-arte. Via-se que cada carta continha muitas horas de escrita e outras tantas de pensamento e reflexão. Sabia que cada palavra era escolhida a dedo para demonstrar o teu afecto por mim, o teu compromisso, a tua dedicação, a tua lealdade. Sabia-o porque elas transpareciam-no e porque também eu fazia o mesmo. Nessa altura fui feliz! Bem sei que dormia e que estudava sozinha, que ria sozinha e que passeava sem ti, de mão dada com o espectro da minha imaginação que figurava à tua imagem. 

Nunca te tinha visto… Sabia que estavas lá, que existias, que me amavas e isso bastava para preencher com cor aquele espectro informe. Depois daquela vez, a tinta da tua caneta permanente nunca mais secou embora ainda tivesse demorado um bocado até usarmos todo aquele material que foste comprando para adornar o nosso primeiro encontro. Sinto saudades desse tempo, sinto saudades tuas. Será que ainda existes? Será que ainda me amas? 

Agora já não me escreves, a criatividade das tuas palavras secou de vez. Nem é suposto que o faças, afinal de contas habitamos a mesma casa, vivemos juntos! Esta carta que te endereço é um exercício de futilidade, um evento sem nexo. É simplesmente um grito ao vazio, o grito de quem chora… Provavelmente nunca a irás receber pois nunca a irei enviar. Se não a deitar fora, arranjarei um baú ou o fundo de uma gaveta escura que trancarei para todo o sempre. Jamais estes meus sentimentos se destinam a ser conhecidos e muito menos por ti. Precisava apenas de relembrar os velhos tempos, relembrar a felicidade. Precisava apenas de me exprimir como já há muito não fazia. Sonho contigo, connosco, com o amor. Quero tempo contigo, conhecer-te, explorar-te. 

Será possível viver casada com um homem que não conheço? Quando falas, a tua voz soa-me estranha. Quando sorris, os teus olhos mentem-me. Mas a tua escrita… Oh! a tua escrita conheço eu bem. Conseguiria identificar a tua letra em qualquer parte do mundo e encontrar uma frase tua no meio de um livro. Porque será que penso não te conhecer?

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