sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - Separáveis mas indivisíveis

- Olha aqui esta mulher. Bonita não é?
- Das melhores que já vi! Que mulher!
- Conheci-a ontem naquele bar a que costumamos ir ao Sábado. Ontem passei por lá depois de sair do escritório e a coisa deu-se.
- A coisa deu-se? O que queres dizer com isso?
- Isso mesmo. Tive sorte. Gostou de mim…
- Gostou? Isso não me surpreende… E tu? Gostaste dela?
- Claro! Já olhaste bem para a fotografia? O que há para não gostar?
- Pois… Isso também não me surpreende…
- Ai ai, como eu gosto deste jogo de sedução! As mulheres sempre todas arranjadas, com tanta luxúria… E eu, visto a minha máscara invencível e nada me consegue parar! Um uísque numa mão, um cigarro na outra, a cabeça que abana ao ritmo da música e o pé que a acompanha a bater no chão. Elas adoram os homens de fato…
- E tu adoras ficar ali sentado, horas a fio, sem fazer mais nada senão exibir uma imagem irreal, surreal. O teu eu que não és tu, alguém que não existe. Uma farsa…
- Bem… Sim… É mais ou menos isso… Faz-me sentir vivo!
- E a tua mulher em casa, à tua espera? Não te faz sentir vivo? Haverá algo no mundo que nos faço sentir mais reais do que a nossa metade que espera por nós no conforto do nosso lar? Chegar a casa e ser recebido com um beijo, com amor e carinho, perguntas sobre o dia, o jantar na mesa… Isso sim, é real, é vida!
- Não podia estar mais de acordo. Aliás, acabaste de me dar um retrato bastante fidedigno do que aconteceu ontem, depois do bar… É para isso que tenho mulher, eu gosto do conforto!
- Eu sei que gostas. Não te esqueças que eu sei exatamente o que pensas, o que sentes.
- Então deves saber que não trocaria a minha mulher por nada! É ela que me garante esse conforto, é ela que está lá para mim quando preciso, é ela que me mantém a casa da maneira que ela deve estar e será ela a dar-me um filho, um dia destes…
- E não achas errado que ela esteja em casa a velar por ti, a melhorar a tua vida, e que tu estejas nesses bares manhosos depois de um dia inteiro de ausência? E ainda por cima esqueceste-te de me convidar. Quiseste tudo só para ti. Trocas a amizade e o amor pela solidão e pela mentira dessa vida. Não achas que a tua mulher merece mais do que essas mentiras?
- Sabes lá o que ela merece… Sabes lá o que tu mereces… Sabes lá quem eu sou e o que penso. Não fiz nada de errado, apenas me apeteceu uma bebida depois de um dia de trabalho. Será isso crime? Será isso errado? Apenas troquei umas impressões com ela, e os números, e esta fotografia… Nada de mais. Não me dês lições de moral se nem sabes o que aconteceu, se nem sabes o que penso, se nem conheces as motivações para o que fiz…
- Farei mal em julgar-te? No final de contas tu és dono dos teus atos e podes fazer o que bem entenderes… Mas será que não tenho direito a julgar-te, a aconselhar-te? Será que os teus atos não têm consequências em mim, na minha vida? Eu sei exatamente o que se passou ontem. Apesar de não ter recebido convite eu estava lá, vi tudo… Sem te aperceberes, levaste-me contigo, contaste-me todas as tuas motivações e pensamentos. Sei mais sobre ti do que aquele teu eu irreal que levas-te ontem para o bar contigo. Não te esqueças que eu sei exatamente o que pensas, o que sentes. Não te esqueças que eu e tu, somos tão diferentes mas tão iguais. Não te esqueças que eu e tu somos apenas um, separáveis mas indivisíveis. Eu e tu, somos a mesma pessoa.

1 comentário:

  1. "Não te esqueças que eu e tu, somos tão diferentes mas tão iguais. Não te esqueças que eu e tu somos apenas um, separáveis mas indivisíveis. Eu e tu, somos a mesma pessoa". Muito profundo. Nenhuma melodia faria melhor.

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