Será que nos é permitido
amar? Amarmo-nos um ao outro com puro sentimento. E será que nos é permitido
viver esse amor? Unirmos os nossos corpos e os nossos espíritos num só e estender
através da vida do outro a nossa própria. Seremos realmente donos da nossa
vontade? Conseguiremos nós domar todas as adversidades e tornar soberana a
nossa união? Perguntas que me atormentam, respostas que eu não tenho. Não são
inocentes as minhas questões. Pergunto aquilo que quero saber, aquilo que me
preocupa. Procuro um futuro, uma união, uma relação. As minhas perguntas
desfilam pelo longo caminho da dúvida, da incerteza. São tudo inquietações que
escolhi ter, uma decisão que fiz há já algum tempo, no primeiro contacto, na
primeira carta, no primeiro beijo... Agora vejo-me perante um ponto decisivo.
As cartas foram jogadas e o jogo encontra-se todo em cima da mesa. As perguntas
que fiz não foram inocentes. Fi-las porque gosto de ti, porque me interessas,
porque quero descobrir o futuro. Será um futuro a dois ou longa estrada para um
velho caminhante? O sentimento começa a remover as teias que prendem o coração
e o espírito começa a ganhar um novo ânimo. Desta vez será permanente? E eis
que partes. Vejo-me novamente sem ti. Fomos tudo e agora somos pouco. Vivemos
da memória dos dias dourados, da lembrança da felicidade. Tudo o que tínhamos
desfez-se com a distância. Agora estás longe, lá para os lados de Coimbra e eu
aqui, sozinho, na capital. Voltámos a viver das cartas, das mensagens pontuais
do desejo de novo encontro. Ainda ontem te tinha nos braços. Os teus lábios
tocavam nos meus a toda a hora e conduzia por Lisboa contigo a meu lado, com a
tua mão na minha perna. Nunca me esquecia da tua presença. A constante das mãos
entrelaçadas, as conversas imperdíveis, os silêncios reparadores... Foi tudo
tão mágico! Da incerteza do desconhecido à necessidade da companhia, da
presença. O receio de te conhecer, de vir a não gostar de ti, foi suplantado
pelo fascínio dos teus loiros cabelos, pela doçura da tua voz, pela tua
rectidão. De postura direita e de trato refinado, projectaste uma imagem que eu
vi como um guia, um modelo. A tua perfeição, a tua postura sobre as matérias
leva-me a admirar-te e a esforçar-me por te acompanhar. És como uma imagem de
perfeição que eu tento alcançar e a tua presença é um guia para mim, um modelo
para seguir. Gostei do que vi, gostei do que senti. As palavras que me
endereças-te em todas aquelas cartas tiveram a sua materialização perfeita.
Agora só nelas me posso refugiar. Agora só podemos existir na sua releitura.
Mas não só das nossas palavras se faz a história, também o que outros
escreveram antes de nós, os nossos antepassados, entra para a equação. Tenho
lido os grandes clássicos da Rússia, os escritos dos grandes mestres do
romance. De alguma forma, consigo rever-te através das personagens fictícias e
reviver o nosso fugaz romance através das suas eternas juras de amor. Ainda não
tenho as respostas para as minhas perguntas e talvez nunca venha a ter. A vida
deve ser vivida, dia após dias e, para ajudar essa vivência, temos a
experiência, a memória, o passado... O futuro ao futuro pertence e nele estão
todas as respostas que procuro. Não devemos procurar saber demais, conhecer o
inteligível, antecipar o nosso fado. Não sei o que temos nem o que vamos ter,
não sei o que somos nem o que vamos ser. Mas sei o vivemos naqueles dias,
lembro-me do que tivemos nas nossas mãos. Gostava de saber que o amor está ao
nosso alcance agora como esteve nesses dias. Que a distância que nos separa não
separa as nossas almas, as nossas mentes. Que esta aposta que fazemos não é um
erro, uma árvore sem frutos, estéril... As cartas já foram jogadas e o jogo
está em cima da mesa, à vista de todos. Abandonamos a sala ou continuamos a
jogar?
Um jogo, duas pessoas. Uma mesa, cartas em cima desta. Que o jogo continue. A distância é crua, mas o amor é terno. É forte, tão forte que é capaz de vencer barreiras e obstáculos impostos pelo destino. Se sabes jogar com mestria, continua o jogo. A vida não é isso mesmo? Um jogo? Para quê desistir? Para quê desistir de algo que demorou tanto tempo a construir e por quem nutres algo tão grandioso? Se há coisa que a vida me ensinou foi a não desistir, porque se desistires, o jogo vira-se contra ti e perdes oportunidades de conquistar o que desejas.
ResponderEliminaré isso mesmo. vale sempre a pensa tentar desvendar o que a vida nos esconde ou o que nos preparou!
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