sábado, 17 de março de 2012

Prólogo de "O Grito de Quem Chora de Lágrimas Azuis"

Aqui fica o prólogo do meu livro "O Grito de Quem Chora de Lágrimas Azuis" publicado em edição de autor e distribuído pela editora Livros de Ontem.
O livro pode ser adquirido aqui.

A condição humana não é uniforme nem regular, não obedece a regras nem a padrões. Da mesma maneira, também a arte deve ser livre. A sua preocupação essencial deve ser a revelação da metafísica da alma do Homem. A arte parece ser a única maneira viável de transportar o abstracto entre as incontáveis esferas privadas que existem e que irão existir no futuro. É também a única forma possível de materialização da mundividência de um determinado artista que, em determinado tempo sentiu o impulso criador de partilhar algo. Sem este meio, a construção psicológica e intelectual do Homem está condenada à devassa pública e à dispersão do seu conteúdo. Na obra de arte repousam valores, ideias, experiências, sentimentos, sensações e mensagens que, no seu conjunto, materializam um pouco da alma do artista. A arte procura incessantemente um caminho para o espírito de cada homem e mulher que habitam a superfície terrestre, motivo pelo qual se deve aspirar a uma arte cada vez mais
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profunda e intelectualizada. Como é de fácil compreensão, tudo o que se materializa através de um processo de criação artística e psicológica e que tem como fim a provocação de uma reacção expectável que de outra forma não seria possível, pode ser considerada arte. Muitas das vezes, a única produção artística a que a maior parte da população mundial tem acesso é aquilo a que nos habituámos a referir como arte massificada. Este tipo de arte, não deixando de ser válida, não esgota todo o universo das funções desta actividade humana. Pode-se então dizer que é um meio insuficiente para reproduzir na sociedade todas as consequências a que a arte se propõe. Por outras palavras, é incapaz de realizar sozinha todo o trabalho necessário. É devido a esta premissa que se pode afirmar, ou até achar, que a cultura dita ocidental se encontra moribunda. Novos desafios sociais surgiram e as soluções anteriormente encontradas são agora desadequadas às novas necessidades intelectuais e culturais. O aumento exponencial da complexidade das relações sociais e o acesso ilimitado a dados e informações torna essencial a inovação e a descoberta de novas formas de comunicar. Quantos mais livros e filmes serão possíveis de fazer utilizando a receita do romance cor-de-rosa e do policial de fim previamente
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destinado? Por mais quanto tempo a música comercial direccionada para relações afectivas efémeras e divertimentos pouco satisfatórios a nível cultural terão espaço no mercado desta área? Não tardará a que a geração da sociedade superficial sinta a necessidade de ir mais além do que o olho pode alcançar e que perceba que se nada fizer, a cultura pode-se esgotar num futuro bem mais próximo do que se imagina. Toda a forma de arte e todo o artista serão chamados a cumprir o seu papel na renovação cultural. No passado ganhou quem descobriu fórmulas para potenciar as vendas dos seus livros, transformando-os em best-sellers. Em breve ganhará quem conseguir materializar os ideais e as ideias que os indivíduos, agora perdidos à deriva, se predisponham a seguir. A escrita, em particular, deve-se libertar dos grilhões ditatoriais da gramática e ambicionar um plano mais abrangente e pleno da concretização do ser humano. Seja qual for o assunto de que trata, o papel do livro é convergir com a condição humana, estado de liberdade plena e circunstância de concretização absoluta. Não só a escrita não deve ser usada como reprodutora da superficialidade da sociedade, como deve libertar-se e combater as convenções artificiais e injustas que esta implementou, pois está na essência
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humana a necessidade da liberdade intelectual, espiritual e social. A fugacidade da vida relembra-nos constantemente que a posse efectiva de algo nos está interdita. O fluxo de situações que molda constantemente a personalidade humana demonstra que somos uma individualidade livre que vai mudando o que nos rodeia, aqui e ali, e que vai construindo um legado que caminhará sempre atrás de nós. O futuro ilumina-nos e a sombra que figura nas nossas costas é o passado, nunca nos deixa. Uma sombra grande indicia necessariamente um futuro brilhante.
O presente escrito pretende retratar uma determinada realidade sem a preocupação e a necessidade de uma narrativa. Como forma de potenciar a transmissão da realidade e da profundidade de tudo o que nos rodeia é utilizado o desprezo pelo fio condutor de uma história que não existe. Essa prisão que a escrita criativa coloca, foi aqui ultrapassada e substituída por uma adjectivação excessiva que tenta exprimir o sentimento e a sensação de forma nua e crua: tal como eles são. A esta forma de materializar uma ideia e de tentar espalhar uma mensagem chamo expressionista, pois tento transpor os princípios desta corrente vanguardista para a escrita. Através da explosão de sentimentos, sensações e imagens visuais, tento retratar ideias e estados de espírito.
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A inovação surge da transferência da hegemonia da forma para o conteúdo. O que realmente importa neste escrito é a forma como o leitor consegue sentir e visualizar a mensagem do livro conseguindo apropriar-se desta para confrontar o seu código moral e não a beleza de uma interacção cuidada e construída entre personagens. A opção pelo expressionismo para transmitir uma ideia prende-se com a necessidade e a vontade de que o leitor consiga de facto aceder ao fundo da questão sem ter de se envolver com toda uma ficção irrelevante. A mensagem que se propõe a transmitir está dividida em duas partes essenciais, sendo a terceira uma mera forma de dividir os acontecimentos do escrito principal. A primeira parte pretende identificar os problemas culturais do mundo ocidental e em principal de Portugal e incutir ao leitor uma necessidade de mudança de paradigma cultural para que seja possível que este país comece a produzir uma arte que tenha a capacidade de captar a identidade nacional e cultural do povo português. Este objectivo pretende ser alcançado através de mensagens subtis que despertem a consciência de que é fundamental para o desenvolvimento do país o desenvolvimento de uma arte que, em primeiro lugar, dê consciência de si mesmo ao povo português e posteriormente seja eficaz na
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exportação e criação de uma imagem portuguesa no estrangeiro. A segunda e terceiras partes encontram-se ligadas à mutabilidade da vida e à extraordinária capacidade de regeneração psicológica e espiritual que o ser humano tem. Não importa quais são as condições de vida do indivíduo, pois este consegue sempre encontrar a plenitude e a felicidade naquilo que consegue alcançar. Se existissem verdades absolutas, o ser humano não conseguiria reencontrar a felicidade suprema duas vezes. A felicidade e a concretização estão em nós próprios e não são um agente exterior. A relatividade dos valores dá ao indivíduo a possibilidade de ser livre na medida em que lhe reserva a função de escolher a sua carga valorativa e o modelo de vida que quer seguir. Tudo o que nos rodeia guarda-nos uma percentagem da felicidade que tanto procuramos. O único desafio que nos resta é decidirmos como e com o quê é que nós queremos construir a nossa felicidade.

Uma breve explicação

Sejam bem-vindos ao meu blogue.

Essencialmente esta página servirá para expor o meu trabalho de escrita e para partilhar em primeira mão os meus projectos de texto, novidades editoriais e eventos. Pretendo que o leitor consiga uma maior aproximação às minhas ideias e aos meus projectos e que fique a conhecer de outra forma o meu trabalho. Tentarei, acima de tudo, fazer a ponte entre os meus livros revelando o trabalho intermediário que existe e as ideias que os originaram.

Boas leituras,
João Batista