quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Um país que já não existe


Certo dia cansei-me de tudo. A vida deixou de me saber bem. O que retirava de quanto fazia era mais negativo que proveitoso. Deixei de me comprometer com o que me rodeava e cortei a ligação com o ambiente que me enquadrava, tal flor que é amanhada e posta em água e que não tarda a ficar moribunda. Tal como essa flor, perdi a minha vocação original. Fui colocado em determinado lugar completamente estranho e ali fiquei, privado da liberdade de dispor de mim segundo a minha vontade e sem saber exactamente a minha função. Se outros sabiam, nunca lhes perguntei. O ser humano necessita do compromisso. Necessita de algo exterior a si que o prenda ao meio envolvente e o faça mexer, pondo em prática as suas faculdades próprias e especiais. Quando nada existe que nos atraia a um lugar ficamos perdidos e acabamos solitários vagueando. Naquela altura, já não tinha a alegria de viver que outrora era minha característica e a força sobre-humana de realizar as minhas vontades foi enjaulada e a chave perdida em parte incerta. Parecia que tudo em meu redor estava errado. As cores vibrantes que regalavam os meus olhos estavam agora em tons de cizento. Parecia que uma névoa pairava em tudo quanto via. Esfreguei os olhos com esperança de que fosse apenas sujidade ou defeito passageiro da minha retina. Ela continuava lá. Quando tomava qualquer decisão havia sempre uma brisa que me desencorajava e demonstrava como o que eu queria fazer não iria ter sucesso. Parece que algo invisivel aplicava contra mim uma inércia estéril que me retirava toda a força do corpo e qualquer capacidade de acção. A única força que me restava era a esperança, que esse é a última a morrer. Não sabia ao certo o que esperava. Esperava alguém que, vindo de parte incerta, me viesse salvar da angústia que sentia e da tortura que era viver. A vida tornou-se uma sucessão de dias cinzentos em que me arrastava pelas ruas imundas sem ter muita consciência de quem era eu. Do meu passado já pouco sabia. Esquecera os pormenores de uma vida rica e os ensinamentos de muitas adversidades ultrapassadas. Quando travava conversas com alguém, limitava-me a gabar os meus feitos de antigamente dos quais já pouco sabia. O meu estado era tão deprimente que já nem sabia evocar as minhas próprias memórias e destruí então a saudade. Não podia sentir falta do que não lembrava e não conseguia lembrar o que anseava por recuperar. O sol não mais brilhou para mim, a flora não mais floresceu em meu redor e os animais desapareceram. Quando comia não sentia prazer. Não conseguia saborear a história do meu alimento e não o conseguia reiventar. E o paladar não foi o único sentido que perdi. Deixei de sentir o que me rodeava, de cheirar a brisa do mar, de ouvir o canto dos pássaros e o choro da guitarra. Se bem me lembro, acho que o pior era o derrotismo que pairava no ar e a falta de gosto por aquilo que de bom me rodeava. Tinha tudo à distância de uma preocupação mas não queria saber.