O rufar dos tambores já muito ao fundo se ouvia. O sangue abandonara as extremidades do corpo numa fuga contínua correndo para o coração que no centro jazia. O corpo ficava cada vez mais gélido enquanto que o coração se libertava pouco a pouco das amarras que o imobilizavam havia já tempo demais. Como uma uma velha máquina que lentamente reactiva as suas funcionalidades, volta a bater num ritmo lento embora com tendência a crescer. Há muito que já esquecera como é desconcertante o súbito interesse pelas profundezas de alguém. Iria relembrar para sempre aquele dia em que a aquela rapariga de olhar penetrante entrou na sua vida. Quando toda a esperança parecia perdida e o caminho se envolvia numa névoa cerrada, o raio de sol surgiu do horizonte para se vir reflectir na pele de tão belo ser. O que sentiu naquele momento, quando engrossava a já extensa fila de indivíduos que esperavam para entrar na aula das dez, iria marcar profundamente o seu carácter e desempenhar um importante papel no seu caminho futuro. Pelo menos pensava ele. Tinha sempre essa esperança quando se interessava de forma mais profunda por alguém. Tinha o desejo constate de encontrar alguém que o marcasse e lhe alterasse o rumo da vida. No entanto, apesar de ter aflorado velhos e constantes desejos, aquele momento foi diferente de todos os outros. Para a sua singularidade contribuiu em larga medida a singularidade daquela rapariga. A sua beleza era tão penetrante quanto o seu olhar e, no entanto, tornava-se muito complicado ver para além dos seus olhos. O que vê não quer ser visto, sempre assim foi. Uma aura incandescente envolvia-lhe a figura e os seus olhos pareciam perscrutar o corpo do sujeito. A sua pele era perfeita, morena e estranhamente suave ao toque, como haveria de descobrir mais tarde nesse dia. De cabelos longos amarrados atrás e de modos extremamente ligeiros, a sua presença impunha-se ao espírito do sujeito cortando o ambiente e isolando-o de tudo quanto o circundava. Esteve quieto a um canto da paisagem observando tal beleza. A forma como se movia sugeria que deslizava sustentada somente pela leveza do seu espírito. Queria absorver o mais possível daquele momento pois não sabia se ele voltaria a acontecer. Certamente iria vê-la dentro de dois dias quando estivessem novamente à espera na fila para ingressar na sala de aula. O que não poderia saber era qual seria a sensação que teria quando esse momento voltasse a acontecer. Em dois dias tudo pode mudar. Em dois dias aquela rapariga poderia deixar de ser o seu arquétipo, a sua musa, a sua vontade. Os sentimentos têm esta particularidade. Tal como uma planta, quando não são regados definham e tendem a desaparecer. Durante esses dois dias teria muito trabalho, muita diversão, muitas preocupações e muitas alegrias. Novos sentimentos poderiam aparecer. Uns que fossem regados e suplantassem os anteriores, ou até mesmo uns que ressurgissem das profundezas do passado.
Nesse dia ainda veria a bela rapariga mais uma vez. Tocaria a sua pele por mero acaso quando ambos arrumavam os tabuleiro do almoço. Olhares seriam cruzados e pensamentos invadiriam as suas mentes.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Um herói, um louco
Certo dia houve um herói. Um louco que se levantou e saiu para o desconhecido enfrentando o que temia. Certo dia algo mudou...
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
A ti, que te chamo lar
Nascida no meio do monte, entre a penha e o castelo, entre a cidade e a vila. Da pedra sólida e da vegetação inviolável, brotaste como uma das tuas límpidas nascentes. Não há no mundo água mais pura que a tua. A sua frescura inerente propicia a quem beber uma experiência indescritível que de certo fará recuperar as suas ligações com a natureza circundante. Na tua mítica calçada recebes calorosamente os viajantes e os perdidos. Quem palmilha o mundo inteiro, encontra em ti exclusividades incontáveis. Santuário de vida, oásis dos felinos sem dono. Terra da água e lar do verde. Sempre deste abrigo a sucessivas gerações que em ti procuraram refúgio e descanso. Proporcionas sensações e experiências únicas. As tuas noites escaldantes em que o céu estrelado ilumina as montanhas e os teus dias gélidos quando na estação fria te visitamos, não têm igual em lugar algum. As tuas gentes são boas e intrigantes. Cem anos seria pouco para desfrutar da sua companhia. A camaradagem, as memórias dos antigos e dos tempos que já não voltam. Há sempre uma nostalgia no ar que não nos deixa viver o presente nem pensar o futuro. O passado e quem o habitou são uma constante nos teus caminhos. Talvez seja por isso que o tempo aí passa tão devagar e a vida seja tão calma e prazenteira. Sentir a vida em cada fôlego, lembrar a história a cada momento. É uma verdadeira viagem ao cerne do nosso espírito e à periferia dos espíritos dos outros, daqueles que já partiram, daqueles que nos fizeram tal como hoje somos. A vasta tradição torna-te única. Os mundos que albergas se perderão. Outros os recordarão. Sempre haverá quem venha e te renove. Sempre haverá quem de muito longe venha só para te ver e te sentir, usufruir daquilo que ofereces de bom grado a quem quiser aproveitar. O sino que toca para guiar o povo e a fonte que corre para o saciar. Aldeia fértil, oásis escondido, eu te imortalizo agora nestas humildes palavras, tão humildes que nunca poderão fazer justiça a todo o teu esplendor. A ti, oh aldeia imortal. A ti, oh lar de todos. A ti, oh inesquecível Escusa. Para mim és tu, a outros outro paraíso espera.
domingo, 30 de setembro de 2012
A ausência não te matou - 3ª parte
...continuação
Tu contar-me-ás todas as diferenças culturais desse mundo por onde viajaste e eu assimilarei tudo quanto jorrar dessa tua boca de finos lábios. Lembraremos juntos todo o sofrimento por que passamos enquanto não tínhamos a companhia um do outro e, aí, poderemos rir, rir de um passado que não mais voltará. As experiências extremas que moldam o nosso carácter são fundamentais mas afiguram-se de forma muito mais positiva quando já passaram e não parecem querer voltar. Relembraremos para sempre com muito respeito aquele momento em que estavas preste a partir. Rompeste num pranto infindável face à incerteza do que irias encontrar por esse mundo fora enquanto viajavas pois, houvesse o que houvesse, não o irias enfrentar comigo. O meu papel era reconfortar-te e garantir-te que tudo iria correr bem mas a tristeza da separação e a saudade antecipada de perder a tua companhia deixaram escapar, sorrateiramente, uma pequena lágrima que depressa engrossou num rio imparável. O pior de tudo é o choque psicológico da separação. Num minuto estás indefesa a chorar nos meus braços e, no seguinte, partes sozinha para o mundo, com a força de um vulcão. Olhas para trás antes de embarcares. O teu olhar acompanha o meu até que dobras a esquina do horizonte. E já está... São meros segundos que transformam uma companhia incontável numa ausência duradoura. Antes de partires, fazemos promessas de amor eterno e de nunca mais partir sem a metade que nos completa. Eu digo-lhe que a espero com vontade de a tornar minha esposa. Ela diz que voltará com vontade de se retirar para o fim do mundo levando apenas a minha companhia. Promessas estéreis que nunca serão cumpridas.
E assim nos despedimos com um beijo de eterno compromisso marcando encontro para daí a seis meses, ali no mesmo sítio.
Tu contar-me-ás todas as diferenças culturais desse mundo por onde viajaste e eu assimilarei tudo quanto jorrar dessa tua boca de finos lábios. Lembraremos juntos todo o sofrimento por que passamos enquanto não tínhamos a companhia um do outro e, aí, poderemos rir, rir de um passado que não mais voltará. As experiências extremas que moldam o nosso carácter são fundamentais mas afiguram-se de forma muito mais positiva quando já passaram e não parecem querer voltar. Relembraremos para sempre com muito respeito aquele momento em que estavas preste a partir. Rompeste num pranto infindável face à incerteza do que irias encontrar por esse mundo fora enquanto viajavas pois, houvesse o que houvesse, não o irias enfrentar comigo. O meu papel era reconfortar-te e garantir-te que tudo iria correr bem mas a tristeza da separação e a saudade antecipada de perder a tua companhia deixaram escapar, sorrateiramente, uma pequena lágrima que depressa engrossou num rio imparável. O pior de tudo é o choque psicológico da separação. Num minuto estás indefesa a chorar nos meus braços e, no seguinte, partes sozinha para o mundo, com a força de um vulcão. Olhas para trás antes de embarcares. O teu olhar acompanha o meu até que dobras a esquina do horizonte. E já está... São meros segundos que transformam uma companhia incontável numa ausência duradoura. Antes de partires, fazemos promessas de amor eterno e de nunca mais partir sem a metade que nos completa. Eu digo-lhe que a espero com vontade de a tornar minha esposa. Ela diz que voltará com vontade de se retirar para o fim do mundo levando apenas a minha companhia. Promessas estéreis que nunca serão cumpridas.
E assim nos despedimos com um beijo de eterno compromisso marcando encontro para daí a seis meses, ali no mesmo sítio.
Fim
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