sábado, 13 de outubro de 2012

Um país que já não existe - 3ª parte

...continuação

Desse tempo já nada resta. Ingressei recentemente na busca incessante de algo novo. A confusão e a paranóia que me rodeavam eram elementos perturbadores da serenidade de que necessitava para procurar o meu caminho. Decidi, certa tarde, alhear-me do mundo e torná-lo no pano de fundo das minhas reflexões. Foi aí que fiquei, para esse efeito, um dia inteiro a contemplar um sinal luminoso. O verde dava lugar ao amarelo que não tardava a apagar-se para que o vermelho pudesse brilhar, voltando depois ao verde e novamente ao amarelo, construindo um ciclo interminável que, pelo menos para mim, durou um dia inteiro, vinte e quatro horas. Certamente que para esse semáforo, a rotina é bem mais longa. A minha concentração estava no máximo isolando-me de toda a azáfama citadina dos automóveis que passavam e das pessoas apressadas que entravam em casa. Naquele dia estive sozinho. Então meditei, reflecti... Foi uma busca introspectiva pelas características da minha alma, daquilo que realmente sou. Contemplei aquele movimento que o semáforo fazia e tentei compreender algum mistério do universo. Como um profeta, esperava que a minha meditação me ajudasse a compreender o caminho e me desse clara noção de que qual era o meu lugar. Parece que compreendi perfeitamente aquilo que eu não era. Não era Jesus ou profeta algum. O meu retiro revelou-se completamente inútil, uma idiotice. Do universo fiquei a saber o mesmo e da natureza apenas percebi que tinha ficado um dia mais velho sem que essa idade se convertesse em experiências proveitosas ou ensinamento sábios. A minha experiência, um delírio, apenas me serviu para saber onde não procurar respostas. Seja o que for que se procura, não se irá encontrar em lugar fora de nós próprios. Cada um vê o mundo à sua maneira e, portanto, ao procurar respostas em algo que vê apenas encontra as suas próprias ideias projectadas para fora do seu eu, mas com base nele. Percebi que qualquer resposta que se procure está dentro de nós, pois somos nós que agimos sobre o mundo que nos rodeia e fazemo-lo segundo perspectivas próprias. Por outras palavras, o mundo que vemos é o mundo em que acreditamos. Procuramos com tanta força determinadas respostas quando nem paramos para perceber se fizemos as perguntas certas. Vemos aquilo que queremos ver, como uma projecção tridimensional que o nosso cérebro partindo das bases que são as nossas crenças, ideias, experiências e vivências. Espera lá! Será este o ensinamento que procurava? E o semáforo? Certamente que não aprendeu sozinho aquele movimento repetitivo. Todo ele foi construído artificialmente por alguém. Que mais se pode apreender de algo assim? Algo que não é genuíno, que não é natural. Mentiras certamente. Ou talvez inutilidades...

continua...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Um país que já não existe - 2ª parte

continuação...

Houve uma altura em que tive tudo e nada tive. Tudo estava à distância de uma preocupação mas eu não queria saber. As coisas ofereciam-se-me, subjugadas, e eu não as queria, não sabia como as aproveitar. Preferia reclamar e culpar alguém por essa mesma coisa não estar ainda mais próxima, a um alcance mais fácil. Nessa altura, uma preocupação minha tinha um valor incalculável e não a podia dar assim ao desbarato. Nada tinha sentido e não chegava ninguém que lhe devolvesse a importância. A angústia que sentia dentro de mim era terrível. O azul acinzentado da atmosfera de nevoeiro e as fortes luzes cosmopolitas que me encandeavam acentuavam esse mal-estar. O meu mundo, embrenhado de problemas, acelerava a minha vivência a um ritmo estonteante que me inibia a clareza do pensamento. Quando parava para pensar, a incerteza instalava-se e o medo generalizava-se. Olhava em meu redor e nada via, apenas olhava. Havia uma imensidão que engolia a minha individualidade e reprimia a espontaneidade mental. Lembro-me também que, nessa altura, quis fugir para o meu refúgio natural onde sempre conseguia recuperar e harmonizar as minhas energias. Quando lá cheguei, o oceano e a areia continuavam em seu lugar mas não dei pela sua essência. O mar tinha perdido a sua vastidão e a areia já não era suave. Então chorei. As coisas estavam lá no seu esplendor físico mas as características essenciais, aquelas que lhes atribuem significado e que as tornam especiais, tinham desaparecido. O que é uma manifestação da realidade sem a importância valorativa que lhe damos? Um corpo sem significado, um conceito vazio... Não me lembro de mais alguma vez, na minha vida mundana, ter chorado assim. Caí, sentado sobre as minhas pernas, e chorei durante o que me pareceu três semanas. Ao fim desse tempo, levantei-me e voltei para o buraco a que costumava chamar de casa. Percebi que quando se chora e ninguém acode, o acto banaliza-se e deixa de ser útil para simbolizar e demonstrar a tristeza. Tal como a areia e o mar, tinha perdido o sentido. Desde então, nunca mais uma lágrima me escorreu pela face. Que gesto inútil é chorar! Se alguém souber de outro que seja melhor para me trazer consolo, que me diga por favor! De qualquer modo penso que não vale a pena. De que serve demonstrar tristeza quando ninguém está lá para nos ajudar, para se preocupar? As coisas e os actos não têm valor intrínseco, não valem nada. Só valem quando lhes atribuímos um valor. É tudo uma construção nossa. Como chorar...
continua...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Recuerdo de Madrid

Aquela tarde passada entre a barbáries ajudou-me a compreender e a admirar melhor as minhas gentes. Estive entre um povo que reúne massivamente ao fim do seu dia de trabalho para desacarregar as suas frustrações e recalcamentos numa cerimónia de evocação de uma memória colectiva que tem tanto de abstracta como de estúpida e bárbara. Eram aos milhares aqueles que, naquela que é a maior praça da Europa, celebraram o sangramento e morte de seis touros num exercício colectivo que nada tem de espectáculo e que conta com muito poucos floreados artísticos. O touro entra, é toureado com capas, picado com lanças e estacas e logo depois é morto em plena arena com um sabre enfiado pelas costras dentro, por um indivíduo que tem o papel máximo em toda a cerimónia. O ritual repete-se mais cinco vezes e, em todas elas, não há uma emoção, um espectáculo, uma situação que nos faça ficar ansiosos ou até ficar perto de atingir algum tipo de catarse. Não... É apenas um ritual, chato e repetitivo, muito apreciado pelos locais. Para eles, todas essas emoções acontecem quando vêm o touro morrer diante de seus olhos. Porém, isso acontece sempre da mesma forma, o toureiro, a pé, toureia o touro com uma capa vermelha, praticamente sempre da mesma maneira e depois espeta-lhe uma comprida espada no zona do pescoço, sendo tanto a melhor a sua prestação quantas menos vezes ele necessitar de voltar a espetar o animal. É sempre tudo igual. Não há surpresas, não emoções, não há criatividade humana. Às vezes, quando a situação falha ao controlo do toureiro e o animal lá se consegue libertar do hipnotismo da capa para ir marrar em cheio na carne humana diante de si, lá escapa uma emoçãozinha que, fugazmente, preocupa e emociona toda a audiência. Fora isso, nada... Oh meu povo, como eu desdenhava de ti e dos teus costumes! Perdoa-me a minha ignorância e as minhas duras críticas! Nunca da minha boca ouvirás uma palavra de apreco pelas touradas, mas, percebo agora o esforço que empreendeste para criar um espectáculo onde antes só havia morte. Sejam os toureiros a tourear com o seu resplandecente cavalo, sejam os forcados que, demonstrando enorme coragem, defrontam o touro de igual para igual, há qualquer coisa de diferente no espectáculo que criaste. Conseguiste dar a uma tradição bárbara um floreado artístico capaz de até a mim me empolgar quando o vejo. Criaste uma massa de aficcionadas por um espectáculo e não por uma simples morte, bárbara e sem sentido. Por tudo isso tens mérito mas nunca deixarás também de ter a culpa.