sábado, 3 de novembro de 2012

O sol nasce e faz renascer

Quando o sol nasce, invade todo o ambiente com alegria e cor. Os espectros sombrios ganham uma nova face e enquadram-se na explosão de emoções. De sombrios e imperceptíveis passam a agradáveis e identificáveis. Esvoaçam pelo mundo e ficam sob o olhar sonhador de quem observa. A caixa rígida desaparece e a acção sem limites toma o seu lugar.
O raio de sol que passa pela janela desbota a minha serenidade tornando-a, desajeitada, numa nuvem bonita. Oh! nuvem bonita, sem ti o que faria eu num quadro inocente despido de maldade e ambição que representa uma campainha desagradável que toca sem parar quando menos a desejam? O olhar que me fita do quadro feio ao fundo da sala causa-me estranheza e transporta-me para o Oriente como homem que sou. A minha viagem não me leva a lado nenhum. O sol continua a irritar a minha pele e uma pessoa passa rápida por mim levantando o vento melancólico daquilo que relembro. A cadeira em que me sento é uma campainha desagradável que toca sempre que me tento levantar. Nada naquela porta me tenta a atravessá-la e, no entanto, o tapete carinhoso transporta-me pelo ar para onde quero ir. A cadeira prende-me frente ao quadro inocente que se mancha agora de um vermelho intenso e corrompe a sua essência. Sinto repulsa de tudo isto. O sol queima-me a face.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 8ª parte

Naquela altura, uma viagem desta natureza demorava vários dias a completar. O comboio era um luxo que não podiam pagar e a sua cobertura era muito deficiente. O cavalo era a melhor forma de chegar ao destino. Cavalgaram de dia e descansaram de noite. Geralmente, pernoitavam no meio do campo ou do mato, onde faziam fogueiras e camas de folhas secas. António recordaria para sempre aquela viagem como a jornada da sua vida. Nunca tinha passado tanto tempo com o seu pai ou visto tantas coisas diferentes. A cada dia que passava, o seu pai fascinava-o mais. Nunca lhe fora possível imaginar um homem tão sonhador e romântico. A sua atitude cabisbaixa e atarefada do dia-a-dia não deixava ver o que se escondia dentro daquele homem fantástico. A atitude forte e rude que António aprendeu a imitar não era afinal característica de seu pai.
- Conheces aquela estrela ali? - perguntou o pai a António apontando para o céu com as suas grandes mãos.
- Se a conheço? O que queres dizer? Como posso eu conhecer uma estrela? Ela não fala, não corre, não sorri, não ama...
- E alguma vez eu te dei todas essas coisas? E tu conheces-me, ou não? Sou eu, o teu pai... Sempre fui.
- Sim eu sei... Mas é diferente... - respondeu António atrapalhado.
- Conhecemos uma coisa quando a observamos tempo suficiente para sabermos de cor cada detalhe seu. Aquela ali conheço-a como se fosse a minha melhor amiga. Passava horas a fio a admirá-la deitado junto ao regato da aldeia. Agora não posso deixar de pensar que estava errado...
- Errado? Como assim?
- Sim... Aqui junto ao Tejo parece que a pequena estrela ganha outro tamanho. A vida é um ponto de vista sabes? A verdade que construires durante a vida será a tua e mais ninguém a possuirá. Venha o que vier, é algo que nunca te poderão tirar.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 7ª parte

António e seu pai partiram nessa noite rumo ao desconhecido. Tal aventura sempre mudou a vida de quem a fez, o que António não sabia é que a mudança seria tão boa para si. A ignorância que revelava e a desconfiança face ao que é novo resultavam de nunca ter saído daquela pequena localidade em que vivia. No entanto, a necessidade fala sempre mais alto e o mundo daquele rapaz de dezassete anos foi forçado a desabrochar. A despedida de Manuel foi o que mais lhe custou. Seu amigo de toda a vida, aliás, o único amigo que alguma vez tivera ficaria preso no local de onde António fugia. Não obstante, o que o prendia naquele lugar não conseguiu ser mais forte que o chamamento da novidade. Tinha perfeita noção o quanto custava ao pai viver no local onde tinha perdido o seu grande amor, aliás, também sentia a presença constante da sua mãe naquela casa. Era um fardo de que se queria livrar e de que queria livrar o seu pai. As memórias devem ser o nosso refúgio do passado e não aquilo que nos persegue e impede de viver o presente.
- Se for bom não regressarei mais, se for mau cá me terás novamente... - disse António em jeito de despedida.
- Se não voltares, irei eu procurar por ti! O que para ti é bom para mim também será certamente! - respondeu Manuel tentando aliviar o tom pesado a conversa.
Abraçaram-se então num gesto que selou aquela grande amizade para sempre. António soube então que, onde quer que acabasse, iria voltar a encontrar Manuel pois as grandes amizades estão destinadas a serem vividas a dois.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O romance que está para vir - 6ª parte

António olhava o seu pai estupefacto. Em dezassete anos nunca ouvira algo semelhante da sua boca. Seu pai era um homem reservado, marcado pelo lado mais sofrido da vida. Não abria a sua alma dessa maneira desde que a sua companheira de vida partira. A dor que tal infortúnio lhe causou funcionava como barreira para a exteriorização dos seus sentimentos, principalmente com o seu filho. Acrescentava-se a dor que sentia de não conseguir acompanhar o crescimento de António e de tão pouco ter uma lar e uma família feliz para lhe oferecer. O sentimento de culpa inibia-o de demonstrar afecto por António pois sabia que esse acto se esgotaria em si mesmo.
- E existirá tal lugar? O pai não vê que o mundo já está cheio de pessoas que já ocuparam todos os bons sítios desde tempos muito antigos?
- Um vendedor ambulante falou-me de um sítio chamado Carregueira. Disse-me que o senhorio de toda aquela terra morreu e que os filhos estão de partida lá para Lisboa. Pelo que sei, estão a vender as terras onde viviam os trabalhadores da herdade por um preço que não se encontra em parte alguma. É para lá que iremos, se quiseres ir.
- Será verdade isso que diz? Não perderei o meu amigo de toda a vida e o sítio que me viu nascer por uma história mal contada...
- Se é verdade não o sei, mas tenciono ir lá ver com os meus próprios olhos. Se tal lugar não existir encontraremos outro para viver e trabalhar. Pior do que estamos agora com certeza não ficaremos.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O romance que está para vir - 5ª parte

A sete de Abril de 1894 assim o fez. Nesse dia, António fazia dezassete anos. Tinha combinado ir com Manuel ao baile da aldeia que um vizinho prestável tinha organizado. A música ficava ao seu encargo. António era um excelente tocador de realejo. Nas redondezas ninguém desafiava a sua habilidade. Normalmente, ficava encarregue de animar os bailes quando alguém oferecia a sua casa para a festa. Nesse dia, não tocou nem dançou. Seu pai chegou a casa mais cedo do que o normal, até antes de si, o que nunca tinha acontecido. As malas estavam feitas e a casa encontrava-se vazia. Já não lhes pertencia, seu pai tinha-a vendido aos patrões e usado parte desse dinheiro para comprar o belo cavalo que estava preso no lado de fora.
- Ata a carga ao animal. Partimos ainda hoje!
- Partimos?! - perguntou António atónito. E para onde é a jornada?
- Seguiremos para qualquer lugar filho! Onde houver um sítio melhor que este. Já não suporto esta terra, já não suporto esta vida. Tu és a única coisa que me resta meu filho, quero passar o meu tempo contigo! Nunca gostei da vida de campino, aliás, passei por casa do patrão e anunciei que partiria. Vendi-lhe também a casa, penso que a usará para alojar algum trabalhador seu. Aquele cavalo que ali vês, comprei-o por pouco. Já trabalhava há muitos anos para o patrão, há anos demais até. Fez-me um preço jeitoso mas com certeza não ficou a perder. Oh, eles nunca ficam a perder! O cavalo já é velho, é um belíssimo animal mas não aguentava o trabalho por muito mais tempo. Sabes, tenho sonhado com um lugar que não sei se existe. Queria um lugar para viver onde pudéssemos ter o nosso próprio campo, onde tivéssemos mais vizinhos como nós, um lugar onde pudéssemos cultivar e vender os nossos frutos. Não gostavas de ter um lugar onde vivêssemos e trabalhássemos juntos como pai e filho que somos?

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O romance que está para vir - 4ª parte

Eram tempos difíceis para quem vivia no campo e pertencia ao povo. A comida escasseava assim como o dinheiro. Tudo o que desejava era uma porção de terra que pudesse cultivar de forma a sustentar-se a si e ao seu filho. Queria desfrutar da sua casa, do seu filho, dos seus vizinhos, dos bailes que por vezes se faziam e da calma que só o campo oferecia. Desde que António começou a trabalhar no campo dos seus vizinhos, seu pai guardou sempre o dinheiro que este ganhava. Um pequeno pote dentro do guarda-fatos escondeu durante dez anos os frutos do seu trabalho de agricultor e o que começou como uma ninharia transformou-se no passaporte de ambos para um sítio onde a vida lhes reservasse melhores condições. O pai de António pensou neste plano numa das suas divagações enquanto pastava o gado pelo campo. Teve cerca de dez anos para o aperfeiçoar, talvez tenha sido por isso que resultou. Sempre tinha governado a casa com o seu próprio salário de campino, não seria a ninharia que António ganhava que iria encher a mesa ou matar a sua
fome. Então, sem lhe dizer nada, começou a guardar tudo quanto o seu filho lhe entregava. O seu sonho era uma casinha modesta num sítio sossegado. Queria boa vizinhança e um terreno que pudesse cultivar. Desde sempre que sentia a vontade de trabalhar a terra e que sonhava com o prazer de comer o que era fruto do seu trabalho e suor. Como nunca teve nada de sua posse, sentia esta vontade de trabalhar o seu próprio campo. O trabalho de campino era um suplício que tinha de aguentar. Na terra onde nascera, em pleno Ribatejo, a tauromaquia era a actividade que ocupava todo o povo e que divertia toda a nobreza. Não teve propriamente escolha. Para além disso, a sua casa de família, onde residia com António, nunca teve terreno cultivável. O que mais lhe custava na vida diária era a memória constante do seu amor que partira. Sempre ali vivera com aquela que era a mulher da sua vida e a sua morte deixou-lhe eterna saudade. Desejava partir para onde não houvessem lembranças da vida passada.

domingo, 28 de outubro de 2012

Crónica de um amor burguês - 2ª parte

...continuação


Já lá vai algum tempo desde que o carteiro me entregou a última carta. Foi uma óptima surpresa, chegar a casa, abrir o correio e ver aquele envelope que estava ali, sozinho, à espera de ser encontrado. Até vinha em correio azul, devias ter pressa que eu lesse as tuas palavras... Se assim era, porque me deixas cinco meses à espera? Sim, faz hoje cinco meses desde essa última carta. Durante este tempo, nada soube de ti. Não sei o que vestes, não sei o que comes, não sei o que fazes nem tão pouco o tempo que faz por aí onde moras. Há cinco meses que não me contas o que vês ou o que sentes, o que ouves e o que cheiras. Eu quero ver através dos teus olhos. Quero ler as tuas palavras e sentir através delas, fazer a viagem espiritual até ti. Costumavas contar-me o quanto apreciavas estar sentada no baloiço do jardim que o teu pai fez, com as suas próprias mãos, quando eras pequena, mas agora... Agora já nem sei se ainda te baloiças nesse teu refúgio enquanto observas as montanhas a Este. Já nada sei. Não gostaste da tinta da minha caneta, da qualidade do meu papel? Procurei o melhor... Até selei o meu amor com o brasão de família que trago sempre enfiado no dedo. A aristocracia das minhas palavras, qualidade que afinei ao longo dos tempos, ficou contida nesse envelope bege que te enderecei. Disso eu tenho a certeza... Até perfumei o papel com o odor que trago no corpo, um perfume de qualidade que uso regularmente. Queria que sentisses o meu cheiro quando abrisses a carta e sentisses a minha presença aí, contigo. E as pétalas de rosa? Vermelhas como a paixão, acompanharam a carta para simbolizar a minha ardente paixão por ti. Serão pétalas frescas como essas que eu espalharei na nossa cama quando nos encontrarmos pela primeira vez e todo o quarto será inundado de velas que espalharão um suave perfume capaz de nos transportar para o paraíso. Se queres saber, até já tenho em minha posse as que penso usar, mandei vir de bem longe. Uma pequena fortuna diria eu, mais do que pagaria em condições normais. E também já sei onde as irei colocar para que o seu efeito seja o mais perfeito possível. As pétalas não virão de uma rosa qualquer... Já descobri onde posso ir buscar as flores mais frescas e vistosas da região. Tenciono comprá-las a todas e não olharei a custos!
Tenho feito o trabalho de casa, hein? Tive cinco meses para pensar tudo ao pormenor, para procurar os melhores ingredientes que tenciono juntar a este amor que sinto. Na minha cabeça está tudo montado e sinto que vai funcionar, que vai ser perfeito. As despesas são um assunto proibido! O amor exige tudo de nós, o melhor. E o melhor terás! Agora só falta a tua carta, a tua resposta. Penso que terei pelo menos outros cinco meses para preparar este encontro e, sinceramente, começo a duvidar que alguma vez ele venha a ter lugar. Não o posso fazer sozinho, preciso de ti. Sem ti não posso celebrar este meu sentimento nem posso fazer este encontro. Mas tu não me respondes, nada me dizes. Não me correspondes o sentimento ou terei feito algo de errado? Se calhar assustei-te... Ou não te dei o melhor que pude, precisas de mais... Bem, o encontro está gravado na minha cabeça, na minha imaginação. Continuarei a procurar novos instrumentos com que te agradar, apesar de não estares aqui, e comprarei tudo quanto encontrar. Tenho a tinta da caneta a acabar e ainda não escrevi tudo quanto queria. Coisas terão de ficar por dizer, por escrever, por sentir... E agora? Pergunto eu. Agora, só falta a tua carta.

FIM