sábado, 10 de novembro de 2012

Esclarecimento sobre "Crónica de um amor burguês"


Quero começar a minha resposta à Carla com um agradecimento pelo comentário tão extenso e tão bem escrito que publicou aqui no blogue. Para mim é muito comovente ver que as minhas mensagens estão a chegar a algum lado, ao outro lado. Ver que os textos que escrevo não estão a morrer no arquivo virtual destas páginas imaginadas e que estão realmente a chegar a pessoas que os lêem e se interessam por eles ao ponto de comentar as ideias que deixo por lá. Quero mais uma vez frisar que são todos muito bem-vindos a comentar o blogue seja com ideias pessoais, sugestões, textos próprios ou apontamentos aos meus. Farei o meu melhor para responder a todos eles.

Antes de chegar ao comentário que a Carla fez no texto "Crónica de um amor burguês - 2ª parte", apraz-me salientar que apesar do meu estilo de escrita me levar, frequentemente, a escrever na primeira pessoa, tal não significa que as experiências ou as ideias presentes no texto sejam minhas e que as tenha vivido na primeira pessoa. A escrita na primeira pessoa é uma opção literária consciente que eu adopto para dar aos meus textos um lado mais humano, algo que os aproxime mais dos leitores. Obviamente que os meus textos não se desligam de mim, afinal sou eu quem os escreveu e eles partiram directamente das minhas ideias e visões sobre os assuntos, mas a escrita na primeira pessoa é utilizada para humanizar os sentimentos e sensações e não para relatar eventos específicos que se tenham passado comigo.

Falando agora, mais especificamente, sobre o texto "Crónica de um amor burguês" quero dizer que ele não reflecte a minha posição sobre o amor. Trata-se de uma crítica ao modo como a sociedade moderna tem tratado o assunto sem, porém, efectuar nenhum juízo de valor. Acima de tudo, pretendia demonstrar que a sociedade moderna tem abordado o amor, tanto como os outros sentimentos, segundo uma perspectiva que se coaduna quase na perfeição com o modo de organização social, ou seja, que uma sociedade de valores orientados para a competição, o lucro e a maximização tem abordado os vários sentimentos numa lógica de acumulação de bem-estar pessoal através da materialização especializada das manifestações públicas. Com isto quero chamar a atenção para o fenómeno de industrialização dos sentimentos que está a monopolizar o campo das manifestações e demonstrações sentimentais. Coisas como a simbolização de datas ou produtos específicos em torno de sentimentos: o dia dos namorados, o dia da mãe, o dia de todos os santos, etc. Os exemplos são infindáveis. Mais uma vez quero chamar a atenção para a ausência de juízos de valor neste meu argumento. Isto não é bom nem mau, é um facto. Como tal, temos de o compreender a aprender a lidar com ele. O facto de existir o dia de todos os santos em que está institucionalizada a ida ao cemitério para visitar os defuntos não deve inibir que o culto e homenagem aos antepassados se faça apenas nesse dia. O meu argumento surge neste sentido para compreender estas dinâmicas. O assunto é muito interessante e seria objecto para muitas e muitas páginas de reflexão pois este facto social incorpora toda uma dinâmica própria e manifesta-se sob dezenas, centenas ou até milhares de formas, formas sobre as quais eu ainda nem reflecti. É por isso que me quero focar no amor, para ir de encontro ao meu texto que originou este esclarecimento. A minha perspectiva pessoal sobre o amor e os sentimentos está contida de forma muito fidedigna no meu livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis", cujo excerto tive oportunidade de colocar aqui no blogue. Uma forma de abordar o amor que vá muito mais ao centro da questão e que não se fique pela superficialidade retratada na "Crónica de um amor burguês". Penso que o amor não pode ser burguês, ou seja, não se pode refugiar nas manifestações materiais a que nos habituámos a identificar como formas de de demonstrar que gostamos de alguém. Claro que o meu argumento não é radical, ou seja, acho que é muito importante que nos dediquemos a escrever cartas com tinta permanente ou decorar o local de um encontro com pétalas e velas desde que isso não seja o nosso objectivo último. Tudo isso que foi descrito na "Crónica de um amor burguês" deve ser uma forma de agradar à outra pessoa para a mimar e tratar bem desde que não seja encarado como a totalidade do sentimento. O amor é algo profundo do ser humano e a sua análise deve ser feita através de uma introspecção que mergulhe no carácter e na essência da pessoa, ultrapassando a efemeridade do presente ou da perfeição da tinta. A parte não pode ser tomada pelo todo porque o amor é tão mais profundo quantas camadas conseguir penetrar e quanto menos visível se conseguir tornar para a efémera visão humana.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Segunda Parte - Composição I


A esta altura, na sequência do texto que publiquei "Crónica de um amor burguês", faz todo o sentido clarificar a minha posição e ideias sobre o amor. Para tal, deixo aqui um excerto da Composição I que é parte integrante do meu primeiro livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis", podendo ser encontrado na Segunda Parte do livro. Escolhi este excerto pois acredito que ele dá uma ideia muito mais clara sobre a minha forma de ver o amor em detrimento da "Crónica de um amor burguês", escrita em tom de crítica ao modo como a sociedade moderna encara este tema.

Q



uando sinto a chuva a acariciar-me o rosto, são as tuas lágrimas que caem sobre mim como agulhas incandescentes e se entranham na minha alma. Quando sinto o sol beijar-me a pele, é a ira que transparece nos teus olhos e me leva numa viagem até às profundezas de tudo e me queima como uma labareda infinita. Quando sinto o vento passar por mim, é a tua raiva e a fúria que faz levitar tudo à nossa volta e que me trespassa o coração, tal lança afiada e pontiaguda que é. Quando sinto a areia seca que me escapa por entre os dedos, é a tua tristeza e desilusão que me causa uma dor aguda e me faz também querer desintegrar-me e desaparecer. Sentir que te faço sofrer, causa-me vergonha e desorienta o meu humilde ser. Abala toda a minha consciência e os meus sentimentos pois a minha razão de ser é a tua felicidade. Oh! Só Deus sabe como eu nasci para isto… Eu nasci para te encontrar e para te fazer feliz. E seremos então a união perfeita de dois seres humanos. A união mais perfeita que pode existir. Oriento toda a minha acção para este supremo objectivo. Quando não o consigo, os quatro elementos libertam as suas amarras que acorrentam o meu espírito e o deixam eternamente na masmorra do esquecimento. Mas eis que surge a sombra no fundo da caverna. És tu que te levantas atrás de mim e fazes deslizar suavemente pelo vazio a espada dourada de dois gumes. Não importa onde me agarre, hei-de sempre ferir a minha pele sensível. Por mais robusto que me torne, nunca poderei estar preparado para o que de ti surge. Pego na mesma. Não havia de ser por isso que recusaria algo teu. É então que olho para trás. Aceito a mão que me estendes e ergo-me nas minhas sólidas pernas. Saímos juntos para o desconhecido. São pétalas de moribunda rosa que nos cercam e caem sobre os flancos! Estendo o braço sobre os teus ombros. No escuro da sala, nem reparas nos arpões que voam de nenhures com destino a ti mesma. O meu braço que te cerca, protege-te de toda a dor e recebe com agrado as furiosas ferroadas de tão pontiaguda arma. Não importa! Estás a salvo… Olhas os meus olhos. O preto funde-se com o castanho, o castanho funde-se com o verde, o verde funde-se com o branco que o circunda. No fim, resulta tudo num vermelho intenso que sai dos enormes buracos onde o metal da seta se funde com a carne do meu braço. A perfeição do momento resulta do brilho intenso que nasce dos teus olhos. Dois poços da juventude, dos quais anseio por beber… Maravilhados, os meus feios olhos esquecem a dor profunda e gritante e partilham da amorosa genuinidade que dos teus análogos jorra. Perfeição! Os quatro elementos estão em harmonia… Das labaredas infernais domestica-se o fogo que me é oferecido por ti, oh Deusa Suprema! É o amor e a paixão que me deste um dia a conhecer. Incendeias a minha alma sempre que te aproximas e, quando me tocas, todo eu broto numa tocha imensa que arde sem se ver. E então os teus lábios tocam os meus num beijo profundo e eterno. A tua saliva semeia em mim uma frescura incontrolável. É fonte que corre sem cessar e rega tudo à sua volta, fazendo florir perfeitos frutos do amor. Depois sussurras-me ao ouvido palavras eternas de carinho. A brisa que traz tão doces palavras depressa se apressa e corre… Corre não, voa… Voa por mim fora e todo o mundo e todos os mundos ouvem as juras eternas de amor. Testemunhas serão! Testemunhas de tão sincera paixão, proferida pessoalmente pela Deusa das deusas. Na terra ficará para sempre marcada a pegada vermelha do amor incondicional. Para que todos possam ter conhecimento e seguir esse modelo. Porque só uma vida sofrida no seio do amor, é de facto uma vida e fica para sempre marcada no manto de estrelas que cobre a terra. A perfeição existe! Está na carícia que o simples mortal faz à Deusa para esta cair num sono tranquilo e descansado. Um só beijo desta magnífica entidade e atingirei a plenitude… 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 10ª parte

Junto ao enorme portão da residência mais rica da aldeia figurava um pequeno sino suspenso. António tocou-o energicamente na esperança que alguém os viesse receber. Naquele dia, o silêncio e a quietude foram os porteiros daquela casa.
- Os Senhores não estão! - disse uma voz vinda de trás. - Saíram quero eu dizer...
António assustou-se com a voz inesperada. Virou-se para trás procurando de onde vinha. Um homem de idade já avançada, apoiado num cajado que, pela aparência imperfeita, fora feito pelo próprio de um tronco de uma árvore olhava-os com uma certa desconfiança.
- Os Senhores não estão. - repetiu ele. - Desejam alguma coisa?
- Penso que o nosso assunto apenas pode ser tratado com os “Senhores”. - respondeu António com tom irónico – Queríamos uma casa sabe... Acabámos de chegar de uma longa viagem e viemos para ficar!
- Tanta determinação a um rapaz tão novo. Decerto trará novidades aqui à aldeia! Não costumamos ter por cá muita gente nova... Fazemos o seguinte, por hoje ficam em minha casa. Amanhã tratam do futuro!
- Agradeço-lhe imenso meu bom senhor, mas não me parece certo dar-lhe todo esse trabalho e, para além disso, para quê adiar o inevitável? - respondeu amavelmente o pai de António. - Hoje ou amanhã, o que é certo é que teremos de comprar uma casa para viver...
- Não seja parvo senhor! Tenho todo o gosto em recebê-lo em minha casa e a minha mulher ficará radiante por ver caras novas. Ela adora saber as novidades do que por aí se passa... Hoje os Senhores não estão. Foram numa caçada e só voltaram amanhã.
- Pai, está a escurecer... Talvez devêssemos acompanhar o senhor... - disse António baixinho a seu pai.
- Escute o seu filho, homem! É sensato o rapaz. Vê-se que sabe tomar decisões. Venham daí, a patroa já deve ter a ceia pronta. Não a queiram enfurecer, é um conselho que vos dou...
- Bem, se o dono não está, não vale a pena esperar aqui ao frio a noite toda. Se nos oferece a sua casa temos todo o gosto em por lá pernoitar.
António e o seu pai seguiram então o velho que os guiou para uma casa não muito longe dali.

domingo, 4 de novembro de 2012

O romance que está para vir - 9ª parte

Este era antes um homem sonhador que lhe contava histórias fantásticas da sua vida de criança e que partilhava com ele, de forma doce e suave, as perspectivas que tinha para o desconhecido que estavam prestes a conquistar. Mal saberia que daí a alguns anos, seria a sua vez de contar aos seus filhos tudo o que viu nessa grande viagem entre o Ribatejo e a Carregueira. Todas as povoações, todos os prados e planícies, todas as pessoas que viu e conheceu ao longo do Tejo ficariam-lhe para sempre gravadas na memórias com traços de uma pintura romântica que nos aquece a alma e nos traz a saudade ao espírito.
Quando, em meados de Maio, pai e filho chegaram à Carregueira, António experimentou uma sensação para a qual nada nem ninguém o podiam ter preparado. Os sonhos que o pai lhe descrevia de como imaginava a futura localidade onde iriam morar eram entusiasmantes, mas aquilo... Ver com os seus próprios olhos a materialização de todas as suas expectativas fez António saltar de repente da parte de trás do cavalo e correr pelos caminhos da aldeia que albergava a sua nova casa. Tudo lhe parecia saído de um sonho, nada parecia real. Era bom de mais para ser verdade! Todas as casas estavam dispostas ao longo de uma estrada de terra que continuava até perder de vista. Eram todas sensivelmente do mesmo tamanho e caiadas de branco contendo na parte de trás, uma porção pequena de terreno arável que, para os olhos embevecidos de António, deveriam ter pelo menos um ou dois hectares. A aldeia respirava de vida. De um lado e de outro, os homens cavavam, as mulheres lavavam e os petizes brincavam. Tudo parecia estar no seu lugar, conjugado harmoniosamente, no entanto, certas casas encontravam-se silenciosas. António dava especial atenção a essas pois sabia que, muito provavelmente, iria morar numa delas. Caminhava calmamente ao lado de seu pai, que ainda montava o cavalo, e dirijam-se para a casa mais alta e maior da povoação onde residiam os nobres proprietários. A vizinhança olhava-os cautelosamente sem porém nunca deixarem de fazer as suas tarefas. Não era comum avistar-se gente estranha por aqueles lados, mas também não se recebia por lá ninguém com maus modos. António e seu pai iriam comprovar isso na primeira pessoa.