terça-feira, 20 de novembro de 2012

Para recordar o futuro

Por vezes desejamos esquecer. Esquecer um passado que não nos foi favorável ou que não decorreu segundo o nosso critério. Tarde compreendemos que tal não é possível. Podemos recalcar as memórias desafortunadas e aprisioná-las no canto mais remoto da nossa mente. Podemos até disciplinar o nosso espírito para viver o quotidiano sem que a memória indesejada aflore à superfície mas, quando as nuvens encobrirem o sol asfixiando a beleza dos seus raios dourados e quando a euforia do verão for substituída pela melancolia do outono, então essas memórias indesejadas voltarão para nos assombrar com mais força do que nunca. Os sentimentos e sensações de cuja memória queremos apagar, sempre voltam à ordem do pensamento quando deixamos de controlar o que nos envolve e uma coisa é garantida, não estaremos no controlo total do nosso ser para sempre. Haverá um acontecimento inesperado, um estado de espírito com que não contávamos, uma perturbação no meio que nos rodeia. Aí, os sentimentos recalcados e as memórias indesejadas que estão bem enterradas lá no fundo do pensamento irão voltar à ordem das ideias e assaltarão violentamente o quotidiano. Uma idiotice se a minha opinião for permitida. Uma ideia de quem não pensa, um vazio. Pensar assim é um luxo a que não me posso dar. Será que há quem acredite que o um desaparece quando vem o dois? É do domínio geral que o dois surge da adição ao um, que o precedeu. Não seremos também nós dessa maneira? Ser é existir que, por sua vez, implica viver. Uma soma de experiências, sensações, emoções, ideias e tantas outras coisas que se precedem numa lógica aditiva. Nada substitui nem é substituído  Tudo quanto faço, penso e sinto será a vivência que me compõe e nada será apagado da minha identidade. A pessoa é formada em profundidade e não no mero momento temporal. É por isso que, geralmente, se atribui uma determinada idade à chamada maturidade. Reconhece-se que o ser humano precisa de acumular uma série de experiências, vivências e normas para formar o seu carácter. Ainda me falam em mudar? Uma comédia, um gracejo! Ainda gostava eu de ver esse momento tão excepcionalmente marcante capaz de apagar uma vida de ideias e pensamentos. Tal coisa não existe. Claro que todos mudamos, o progresso é a ordem natural da vida. Mas não me falem em mudar o carácter do homem através de uma experiência ou momento pois tal é mera ficção. A mudança existe e é inerente ao homem mas ela é feita num processo e em moldes definidos pelo carácter anterior da pessoa. O passado não desaparece quando passamos ao presente ou consideramos o futuro. O passado, as memórias, estará sempre lá e é bom que aprendamos a conviver com ele. Aproveitar o que fomos e quanto fizemos para melhor formar o somos hoje e seremos amanhã. 
Eu não penso em esquecer. Não posso esquecer. É algo que me ficou proibido pelo medo que tenho de perder a memória e não me lembrar de tudo quanto fiz e aprendi. É o meu maior medo! Uma vida construída no presente para um amanhã melhor e ele poderá não vir. Apenas um vazio. Uma falha na memória que nos oculta tudo quanto fizemos. Oculta-nos quem somos. Como posso eu querer esquecer? Como pode alguém querer esquecer? Se esquecemos há uma parte de nós que morre. Um espaço de tempo que é apagado e desaparece do continuo da vida. Ficamos com um carácter retalhado, com falhas. Um processo que deveria ser contínuo e cumulativo. Se agora desejar esquecer, chegará o tempo em que quererei lembrar. Aí, não haver forma de recuperar esses pequenos momentos, parte de quem eu sou. 
O artista escolhe os seus maiores medos e pensamentos permanentes num período considerável da sua vida e disserta sobre eles na tentativa de os superar. No meu caso trabalho para a minha salvação. Vivo aterrorizado com a possibilidade de perder a memória, de perder tudo quando sou, fui e serei. A minha identidade. Então escrevo. Escrevo para mais tarde recordar. Coloco quem sou num bloco de apontamentos. Tento nunca esquecer o passado pois sem ele não poderei recordar o futuro. Só assim conseguirei não me perder. Quando esquecer, poderei ler para lembrar. Obviamente que não me interessa todo o momento do quotidiano. Interessa-me mais o conjunto que a soma das partes. Interessa-me a essência que surgiu do dois e não da mera adição dos dois uns. 
Quem sou eu? Uma projecção de quem fui? O resultado majorado de todos os pequenos momentos do passado. Não sei quem sou. Sei que não sou quem dizem eu ser, nem tão pouco aquela imagem que me aparece no espelho. Eu não sou nada disso, sou mais. Como podem os outros saber quem eu sou se nem eu próprio sei? Como pode o espelho mostrar-me quem eu sou se não me reconheço nele? Vivo constantemente nesta busca. A mim não me interessa riqueza ou glória, apenas saber quem sou, o que faço aqui.