Eu não vejo isso. Percorro as ruas adjacentes ao
grande panteão e vejo magia no ar. Vejo pessoas honestas vendendo o que têm e o
que encontram como forma de subsistência ou rendimento extra. Vejo artigos que
em lado algum me seria possível encontrar. Vejo mundos muito diferentes desta
Lisboa incógnita que se cruzam e intersectam nesta feira anacrónica. Parece que
aquele espaço não existe no mundo real. Num dia, enche-se de pessoas e
mercadorias e, no outro, nada lá se passa. De cada lado da estrada são dezenas
as pequenas bancas que tudo vendem. Pessoas que já ali comercializam as suas
memórias desde que há memória e estreantes que ali vão pela primeira vez. Todos
vendem o que já não querem, o que já não precisam. Artigos usados, coisas
velhas. Bens que nunca poderia ver, tocar, sentir e comprar noutro lado.
Desde as cinco da madrugada que ali são
estendidos os lençóis, despejadas as tralhas e esperados os visitantes. Ali não
há pregões nem anúncios. Quem vende conhece os seus produtos e sabe que não
precisa de os apresentar, eles falam por si próprios, têm uma história e uma
vivência que, por vezes, antecede o próprio vendedor. Quem compra não precisa
de convite, sabe ao que vai e sabe escutar os objectos que procura. É a feira
das histórias onde apenas isso se vende. Não são produtos ou bens, são
histórias. Histórias que se fazem ouvir ao caminhar por entre as bancas,
histórias antigas que nos prendem a atenção e nos chamam para um olhar mais
atento. Livros antigos de páginas amareladas, postais endereçados sem resposta,
fotografias de desconhecidos perdidos no tempo… Memórias que já foram
assimiladas por quem devia e que agora estão ali à disposição para alimentar a
curiosidade e o sonho compradores interessados. São objectos que saltam de
geração em geração cuja origem e propósito fica desconhecido levando-nos a
imaginar toda a viagem.
O ambiente é de magia e a nostalgia envolve-nos.
Somos transportados do mundo físico a que estamos habituados para um espaço
intermédio onde o tempo não passa e o sol não queima. O anonimato lisboeta
morre e a solidão dos velhos desaparece. Ali fala-se, escuta-se e pergunta-se.
A indiferença à história alheia dá lugar ao respeito pela memória que nunca
vivemos.
Se alguma vez me perder procurem por mim lá.
Conto lá estar, a vender as minhas velharias que em tempos foram novas, a
vender as minhas memórias que em tempos foram realidades. Não me digam que é da
ladra, pois ladrões há-os em todo o lado. Digam-me antes que é das cinco pois
quem lá vai sabe que é a essa hora que se compram os melhores artigos. Digam-me
antes que é das histórias pois quem lá vai sabe quantos mundos por lá andam,
uns perdidos outros encontrados.