quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Da ladra, dizem alguns...

É a feira das cinco. Da ladra, dizem alguns... Uma feira onde artigos roubados são trocados e vendidos a uma hora da manhã tão precoce que nem a autoridade está desperta para o que se lá passa. Dizem que é o covil dos ladrões de toda a Lisboa, o seu local de trabalho onde tudo se vende e tudo se compra sem que perguntas sejam feitas. Aconselham-me cautela com os pertences que comigo carrego e despertam-me para a provável origem ilícita daquilo que compro.

Eu não vejo isso. Percorro as ruas adjacentes ao grande panteão e vejo magia no ar. Vejo pessoas honestas vendendo o que têm e o que encontram como forma de subsistência ou rendimento extra. Vejo artigos que em lado algum me seria possível encontrar. Vejo mundos muito diferentes desta Lisboa incógnita que se cruzam e intersectam nesta feira anacrónica. Parece que aquele espaço não existe no mundo real. Num dia, enche-se de pessoas e mercadorias e, no outro, nada lá se passa. De cada lado da estrada são dezenas as pequenas bancas que tudo vendem. Pessoas que já ali comercializam as suas memórias desde que há memória e estreantes que ali vão pela primeira vez. Todos vendem o que já não querem, o que já não precisam. Artigos usados, coisas velhas. Bens que nunca poderia ver, tocar, sentir e comprar noutro lado.
Desde as cinco da madrugada que ali são estendidos os lençóis, despejadas as tralhas e esperados os visitantes. Ali não há pregões nem anúncios. Quem vende conhece os seus produtos e sabe que não precisa de os apresentar, eles falam por si próprios, têm uma história e uma vivência que, por vezes, antecede o próprio vendedor. Quem compra não precisa de convite, sabe ao que vai e sabe escutar os objectos que procura. É a feira das histórias onde apenas isso se vende. Não são produtos ou bens, são histórias. Histórias que se fazem ouvir ao caminhar por entre as bancas, histórias antigas que nos prendem a atenção e nos chamam para um olhar mais atento. Livros antigos de páginas amareladas, postais endereçados sem resposta, fotografias de desconhecidos perdidos no tempo… Memórias que já foram assimiladas por quem devia e que agora estão ali à disposição para alimentar a curiosidade e o sonho compradores interessados. São objectos que saltam de geração em geração cuja origem e propósito fica desconhecido levando-nos a imaginar toda a viagem. 

O ambiente é de magia e a nostalgia envolve-nos. Somos transportados do mundo físico a que estamos habituados para um espaço intermédio onde o tempo não passa e o sol não queima. O anonimato lisboeta morre e a solidão dos velhos desaparece. Ali fala-se, escuta-se e pergunta-se. A indiferença à história alheia dá lugar ao respeito pela memória que nunca vivemos.

Se alguma vez me perder procurem por mim lá. Conto lá estar, a vender as minhas velharias que em tempos foram novas, a vender as minhas memórias que em tempos foram realidades. Não me digam que é da ladra, pois ladrões há-os em todo o lado. Digam-me antes que é das cinco pois quem lá vai sabe que é a essa hora que se compram os melhores artigos. Digam-me antes que é das histórias pois quem lá vai sabe quantos mundos por lá andam, uns perdidos outros encontrados. 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A ti, musa sem nome

Ontem vi-te. Passava na rua caminhando atarefado, como sempre faço depois do trabalho. Olhei o céu e as nuvens apressadas, olhei as árvores e as folhas que caíam. O meu olhar divagava em meu redor e puderam em ti repousar. Estavas à janela. O teu longo cabelo esvoaçava ao sabor do vento outonal. A tua pele, sempre morena, contrastava com a melancolia do ambiente que te envolvia. Parecia um retrato de onde tu destoavas. Sobressaías da pitoresca fotografia e o teu olhar atraía particular atenção. 

Ontem vi-te. Estavas triste, ou pelo menos o teu olhar assim dizia. Tentei compreender o que ele queria transmitir mas ele era vago e sem alegria. Olhei bem fundo e não gostei do que vi. Sofrimento, apenas sofrimento. Bebias um chocolate que fumegava de tão quente estar. Talvez tentasses aquecer a alma, reconfortar o espírito. 

Ontem vi-te mas tu não me viste a mim. O olhar estava vago e a mente noutro lugar. Parecias viajar a pensamentos inóspitos e divagar em sentimentos dolorosos. Eu observei-te durante algum tempo, vi a tua expressão. Compreendi que não estavas em casa, que não estavas à janela, e dei por mim a desejar que voltasses.

Tu não me viste mas eu vi-te a ti. Queria-te falar, afastar as saudades que já se vão alojando. Todos os dias o meu olhar varre a tua rua e coloca esperanças na tua janela. É instintivo  irracional. Acho que gostava de te ver mais vezes. A tua face bela, a tua expressão ímpar. Gostava de me perder em cada aspecto da tua personalidade, conhecer cada canto do teu ser. Gostava também de conhecer o teu corpo, sentir-te de manhã ao acordar. Tenho muita paixão para te dar, muito amor para te entregar. Queria conhecer-te ao pormenor, saber o que fazes e por que o fazes. Conhecer cada nuance do teu íntimo. Quero também saber como beijas e como amas, ver como te aconchegas e como adormeces. 

Espero que me vejas em breve. Espero ver-te em breve. Poderemos trocar umas impressões, partilhar esse teu chocolate. Se quiseres podes também vir comigo, tenho o carro já ali... Há tantos sítios que gostava de te mostrar, sítios lindos e belos. Vamos fugir desta cidade à qual pertence a nossa rotina. Vamos a sítios novos e exclusivos. Iremos juntos, tu e eu. Rumo a um conhecido que ainda não conhecemos juntos. Iremos e voltaremos de novo, sob as estrelas do céu de Outono. Ontem vi-te e voltarei a ver, se vieres comigo. Nunca mais te procurarei à janela, abrirei a porta e entrarei. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Hoje vi o povo

Uma coisa que escrevi no dia da Manifestação do Ensino Superior 22/11/2012

Hoje vi o povo. Centenas de estudantes que saíram à rua em defesa dos seus direitos, em defesa de um ideal em que acreditam. Vi pessoas como eu que interromperam o seu quotidiano e foram para a rua gritar. Vi rostos desolados, olhares sem esperança. O povo já não ri, o povo já não sonha. Sim, hoje eu vi o povo. Essa entidade da qual todos falam mas que poucos compreendem. Hoje não vi pessoas isoladas, personalidade sozinhas. Vi centenas de estudantes, pessoas, cidadãos, em sintonia perfeita que caminhavam lado a lado. Isso é o povo. Não sou eu nem és tu, somos todos nós, juntos. Uma massa que grita, um conjunto que marcha. 

Não desprezem o povo, não o ignorem. O povo não existe! É uma ideia, um ideal.  Uma categoria uma agregação, pessoas de diferentes realidades. O povo só se forma quando pessoas se juntam, quando há união. O povo só se forma quando o ego desaparece, quando a individualidade se junta ao colectivo. É uma causa comum, um conjunto de indivíduos. Hoje vi esse conjunto. Um ideal que se materializou. Todos quantos ali se reuniram, todos quantos ali gritaram, todos quanto ali expressaram o seu descontentamento formaram esse conjunto, criaram esse conceito. 


Hoje vi o povo. Éramos muitos. Eu também lá estava, fiz parte dele. Ajudei criá-lo e, no fim, deixei-o morrer. Quando a última voz parou, quando o último grito soou, quando o último espírito serenou, o povo morreu. Mas há-de voltar a nascer, há-de-se erguer de novo. Ele virá quando dele precisarmos, quando se sentir a sua falta. Ele há-de vir das brumas, numa manhã de nevoeiro. Aí não seremos centenas de estudantes, seremos milhares de pessoas, milhares de cidadãos. Todos juntos faremos o povo mais forte que nunca e então lutaremos! A injustiça deste mundo, o mal deste país, tudo ruirá. A praia jaz debaixo do chão que calcetámos, debaixo do cimento das nossas estradas. Iremos procurá-la, todos juntos! Uns irão cantar, outros tocar, uns irão escrever e outros ler, uns irão gerir e outros construir, mas todos iremos governar, guiar o destino e decidir a fortuna

Todos somos diferentes mas todos somos iguais. Há opções e talentos que nos separam mas uma condição que nos une. Chegará o tempo em que daremos as mãos e aceitaremos esta condição. Chegará o tempo em nos veremos como irmãos.

domingo, 25 de novembro de 2012

Um passo no passado, um avanço no futuro

Hoje dei um importante avanço na minha demanda, na busca do meu ser. Olhei-a nos olhos e vi-me, a mim e não a ela. Vi a minha imagem como nenhum espelho alguma vez me mostrou, defini-me como nenhum comentário e opinião alguma vez definiu. Não vi um corpo, com músculos e expressões. Vi uma ideia, um abstracto. Reconheci-me ali. Um constante de mudança e permanência, um conjunto de ideias e pensamentos, um corpo e uma ideologia, sensações e emoções que a linguagem não pode reproduzir. Desviei o olhar. Não suportava mais. Arranjei um assunto qualquer para conversar. 

O meu pensamento divagava sobre o sucedido. Terá ela visto o que vi? Será que a imagem reflectida nos olhos dela lhe chegou até ao cérebro  Será aquilo que ela pensa de mim? Acho que nunca saberei. Não lhe consegui perguntar e agora é tarde demais. Muito tempo já passou e a imagem, se de facto era real, decerto já foi contaminada. 

Eu, como todos os meu semelhantes, não sou uno e indivisível. Não tenho uma identidade única fixa. Não tenho uma história linear. Eu defino-me na minha multiplicidade. Naquilo em que acredito e nas contradições que isso acarreta. Não sou as discussões que venço mas os argumentos que saem frustrados na tentativa de expressar um pensamento. Sou contraditório e as contradições definem-me na minha plenitude. Como pode um espelho reflectir tudo isso? Como pode um juízo identificar tudo quanto sou? Como pode uma opinião apresentar-me por completo?

Eu sou o que digo e o que não digo. Sou o que faço e o que fica por fazer. Sou o que penso e o que transmito. Uma ideia que fica por expressar e outra que grito na rua. Não me digam que me conhecem. Não me digam que previam o que iria fazer. Não me digam que sabem quando da sabedoria todos estamos privados. Não tenho paciência para hipocrisia nem falsos filósofos  Nem aquela que me viu, me viu realmente. Viu-me a alma, a essência, mas logo esqueceu, logo poluiu a sabedoria. Olhou mas não viu, espreitou mas não apreciou. Quando olhou de novo já não viu o mesmo. 

Parece que o universo em seu redor se transformou profundamente nos instantes entre olhares. Parece um cubo de Rubik. As faces do cubo alteram-se entre si mas, no fundo, nunca deixamos de estar perante essa forma. Faces da realidade que nós não víamos assumem a sua posição à mercê do espectro visível e, a mesma forma, assume novas realidades tangíveis. Como uma obra de arte, sempre igual a si própria mas sempre diferente a cada apreciação. Vemos sempre faces diferentes da realidade de uma forma que nunca muda. É um defeito humano, olhar e não ver. É uma qualidade humana, re-inventar a realidade sem nela sequer tocar. É tudo uma perspectiva, uma ideia. E garanto-vos que a ideia é a coisa mais forte que existe neste mundo. Uma coisa sim, não palpável nem visível mas com uma coisidade própria. Podem-nos tirar tudo, até a esperança, mas uma ideia persiste na mente e tem a capacidade de se reproduzir e de crescer a uma velocidade ainda pouco compreendida pela inteligência das pessoas. Hoje, olhei-a nos olhos e vi-me, a mim e não a ela. Recordei uma personalidade, uma essência. Características que criei e que transporto comigo todos os dias do quotidiano. Hoje, recordei o que fui, recordei o que sou, recordei o que serei, num futuro que não conheço. Hoje, recordei o futuro.