sábado, 8 de dezembro de 2012

Da distância e da ausência

A minha estreia absoluta em poesia tenta imaginar a resposta que a mulher do soldado do poema de Konstantin Simonov daria quando o seu marido chegasse a casa são e salvo após uma longa ausência. A distância é uma provação dolorosa e, de uma forma ou de outra, todos passamos por ela. Por vezes, ela pode destruir laços, terminar relações, causar incerteza... É sem dúvida a derradeira prova, um selector natural. O que à distância resiste, por nada mais será destruído. 


Esperei por ti, eu bem sei.
Da tua memória cuidei.
Esperei-te noite e dia,
escutei a tua voz em cada melodia.
Que saudades tinha eu de te tocar,
ver, ouvir e cheirar!
Esperei por ti todos os dias,
no fundo, sabia que ainda me querias.

Certo dia, as cartas cessaram
e os sinos não mais tocaram.
O Amanhã enegreceu e o Ontem definhou
mas, no meu coração, nada mudou.
Continuei-te a amar
mesmo quando o teu irmão deixou de brincar
e o teu cachorro parou de ladrar.

A altura chegou
em que o relógio parou,
em que cada hora, cada minuto,
impediram o meu luto.
Sabia que não tinhas sido vítima da morte
mas não te conhecia a sorte
e definhava lentamente,
nesta incerteza, nesta realidade indiferente.

Horas, dias, meses, anos,
tempo demais para ficar longe de quem gostamos.
O tempo passava e de ti não sabia nada,
se vivias ou jazias pela espada.
Mas eu esperei por ti,
abracei a saudade e contra a incerteza me revesti.
Aguardei a tua chegada,
à tua legítima morada.

Meu amor o que sofri...
Nesta incerteza, nesta dor que vivi.
A dor de te amar
e tu longe sem me beijar.
Quando eles beberam e rezaram,
a seu lado não me sentaram.
Permaneci sólida e levantada,
sabia que, algures, era por ti lembrada.
E certo dia tu chegaste,
pela porta, sozinho e cansado, entraste.
O meu mundo desabou: nem queria acreditar...
Meu amor, voltas-te para me amar!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Espera-me


Hoje trago-vos um poema de que gosto muito. Amanhã o inesperado.

Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Espera-me pelas manhãs vazias,
nas tardes longas e nas noites frias,
e, outra vez, quando o calor voltar.
Ai, nunca deixes de me esperar!
Espera-me, ainda que, aos portais,
as minhas cartas já não cheguem mais.
Ainda que o Ontem seja esquecido
e o Amanhã já não tiver sentido.
Espera-me depois que, no meu lar,
todos se cansem de me esperar.
Até que o meu cachorro e o meu jardim
não mais estejam a esperar por mim!
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Não dês ouvidos nunca, por favor,
àqueles que te dizem que o amor
não poderá os mortos reviver
e que é chegado o tempo de esquecer.
Espera-me, ainda que os meus pais
acreditem que eu não existo mais.
Deixa que o meu irmão e o meu amigo
lembrem que, um dia, brincaram comigo
e, sentados em frente da lareira,
suponham que acabou a brincadeira…
Deixa-os beberem seus vinhos amargos
e, magoados, sombrios, em gestos largos,
falarem de Heroísmo ou de Glória,
erguendo vivas à minha memória.
Espera-me tranquila, sem sofrer.
Não te sentes, também, para beber!
Espera-me. Até quando, não sei.
Um dia, voltarei.
Esperando-me, tu serás mais forte;
sendo esperado, eu vencerei a morte.
Sei que aqueles que não me esperaram
–  que gastaram o amor e não amaram –
suspirando, talvez digam de mim:
“Pobre soldado! Foi melhor assim!”
esses, que nada sabem esperar,
não poderão jamais imaginar
que das chamas eternas me salvaste
simplesmente porque me esperaste!
Só nós dois sabemos o sentido
de alguém poder morrer sem ter morrido!
Foi porque tu, puríssima criança,
tu me esperaste além da esperança,
para aquilo que eu fui e ainda sou,
como nunca, ninguém, me esperou!
Poema de Konstantin Simonov
Tradução de Hélio do Soveral

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Será que nos é permitido amar?


Será que nos é permitido amar? Amarmo-nos um ao outro com puro sentimento. E será que nos é permitido viver esse amor? Unirmos os nossos corpos e os nossos espíritos num só e estender através da vida do outro a nossa própria. Seremos realmente donos da nossa vontade? Conseguiremos nós domar todas as adversidades e tornar soberana a nossa união? Perguntas que me atormentam, respostas que eu não tenho. Não são inocentes as minhas questões. Pergunto aquilo que quero saber, aquilo que me preocupa. Procuro um futuro, uma união, uma relação. As minhas perguntas desfilam pelo longo caminho da dúvida, da incerteza. São tudo inquietações que escolhi ter, uma decisão que fiz há já algum tempo, no primeiro contacto, na primeira carta, no primeiro beijo... Agora vejo-me perante um ponto decisivo. As cartas foram jogadas e o jogo encontra-se todo em cima da mesa. As perguntas que fiz não foram inocentes. Fi-las porque gosto de ti, porque me interessas, porque quero descobrir o futuro. Será um futuro a dois ou longa estrada para um velho caminhante? O sentimento começa a remover as teias que prendem o coração e o espírito começa a ganhar um novo ânimo. Desta vez será permanente? E eis que partes. Vejo-me novamente sem ti. Fomos tudo e agora somos pouco. Vivemos da memória dos dias dourados, da lembrança da felicidade. Tudo o que tínhamos desfez-se com a distância. Agora estás longe, lá para os lados de Coimbra e eu aqui, sozinho, na capital. Voltámos a viver das cartas, das mensagens pontuais do desejo de novo encontro. Ainda ontem te tinha nos braços. Os teus lábios tocavam nos meus a toda a hora e conduzia por Lisboa contigo a meu lado, com a tua mão na minha perna. Nunca me esquecia da tua presença. A constante das mãos entrelaçadas, as conversas imperdíveis, os silêncios reparadores... Foi tudo tão mágico! Da incerteza do desconhecido à necessidade da companhia, da presença. O receio de te conhecer, de vir a não gostar de ti, foi suplantado pelo fascínio dos teus loiros cabelos, pela doçura da tua voz, pela tua rectidão. De postura direita e de trato refinado, projectaste uma imagem que eu vi como um guia, um modelo. A tua perfeição, a tua postura sobre as matérias leva-me a admirar-te e a esforçar-me por te acompanhar. És como uma imagem de perfeição que eu tento alcançar e a tua presença é um guia para mim, um modelo para seguir. Gostei do que vi, gostei do que senti. As palavras que me endereças-te em todas aquelas cartas tiveram a sua materialização perfeita. Agora só nelas me posso refugiar. Agora só podemos existir na sua releitura. Mas não só das nossas palavras se faz a história, também o que outros escreveram antes de nós, os nossos antepassados, entra para a equação. Tenho lido os grandes clássicos da Rússia, os escritos dos grandes mestres do romance. De alguma forma, consigo rever-te através das personagens fictícias e reviver o nosso fugaz romance através das suas eternas juras de amor. Ainda não tenho as respostas para as minhas perguntas e talvez nunca venha a ter. A vida deve ser vivida, dia após dias e, para ajudar essa vivência, temos a experiência, a memória, o passado... O futuro ao futuro pertence e nele estão todas as respostas que procuro. Não devemos procurar saber demais, conhecer o inteligível, antecipar o nosso fado. Não sei o que temos nem o que vamos ter, não sei o que somos nem o que vamos ser. Mas sei o vivemos naqueles dias, lembro-me do que tivemos nas nossas mãos. Gostava de saber que o amor está ao nosso alcance agora como esteve nesses dias. Que a distância que nos separa não separa as nossas almas, as nossas mentes. Que esta aposta que fazemos não é um erro, uma árvore sem frutos, estéril... As cartas já foram jogadas e o jogo está em cima da mesa, à vista de todos. Abandonamos a sala ou continuamos a jogar?