sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Ulisses

Para hoje, um pequeno texto da minha autoria feito para a Livros de Ontem e baseado na magnífica ilustração do nosso logótipo, feita pela Nádia Amante. O imaginário do Ulisses está-se a construir...



Ulisses, terna criança que de seu destino pouco sabe. Outrora destemido guerreiro, abençoado pelos Deuses e aclamado pelos seus súbditos, tem agora o trabalho mais difícil de toda a sua existência: levar a sabedoria aos quatro cantos do planeta.

Despojado do seu corpo forte e viril, Ulisses renasceu para o mundo no corpo de um menino que, sozinho, carregará eternamente todo o conhecimento dos antepassados. Os Deuses atribuíram-lhe a missão de levar os livros, objecto do conhecimento, a todos quantos deles necessitem enquanto é forçado a iniciar uma busca pelos sábios escritores do amanhã.
Pobre menino, com tão grande fardo. Trazer sobre as suas frágeis costas os livros do antigamente para que os escritores do amanhã se revelem. Que nobre missão! Será Ulisses capaz?

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A cultura por cá


"A auto publicação é uma ferramenta na qual a LeYa se torna pioneira em Portugal mas que internacionalmente tem vindo a ganhar milhares de adeptos."

Começo este meu post com uma citação retirada do site do novo serviço da LeYa: Escrytos. Ao que parece, o lançamento deste novo serviço tornou o grupo editorial português pioneiro na auto publicação em Portugal, apagando simplesmente todo o trabalho já desenvolvido por outras entidades e pessoas. Parece que esta ideia caiu do céu para a LeYa que, na qualidade de entidade iluminada e mais perspicaz que todas as outras, a colocou em prática de forma inédita! O que vale é que as empresas portuguesas acham sempre que são pioneiras nalguma coisa e ninguém se parece importar com isso. Creio ser um abuso esta apropriação do trabalho alheio e o desprezo que a LeYa demonstra pelo estado da cultura portuguesa. Esta infelicidade do citado grupo editorial só vem reforçar a ideia que as editoras portuguesas são grupos empresariais de tamanho intolerável, orientados exclusivamente para o lucro, completamente alheados da realidade cultural e completamente impermeáveis à iniciativa do autor. Será pedir demasiado que as editoras se dediquem ao que, supostamente, é o seu objectivo essencial: editar autores e publicar obras de mérito para a cultura? Será pedir demasiado que os executivos responsáveis por estes grupos de orientação financeira desçam à sociedade civil e procurem os autores de mérito e de futuro? 

Parece-me absurdo esta pompa e circunstância no lançamento que não traz nada de novo ao mercado e ainda vem potenciar o reforço do distanciamento das editoras aos autores. "Para a LeYa esta plataforma vai ao encontro daquela que tem sido a sua estratégia no contexto da estimulação da criatividade editorial e até mesmo no da procura de novos talentos de língua portuguesa." Sim, talvez seja só mesmo para a LeYa que esta plataforma traz todas essas maravilhas. O que traz é tão simplesmente o reforço da precarização do papel do autor e a dilaceração da cultura escrita portuguesa. O que se pede às editoras é que apostem nos escritores, que os agênciem e que os aconselhem, que consigam filtrar o talento e o ajudem a florescer. Sem fazerem isso bem, é um erro absoluto a aposta em meios de auto publicação. Para isso já existem outras entidades que o fazem e de forma bastante competente. 

Enquanto a LeYa brinca aos empresários e à suposta inovação, há autores que ficam por ser descobertos, há textos de qualidade que ficam na gaveta, há aposta na inovação editorial que não é feita. Mas o importante é que o autor recebe 25% das suas vendas.

Baseado na notícia do P3 visível através do link: http://p3.publico.pt/cultura/livros/5775/grupo-leya-cria-escrytos-uma-plataforma-que-facilita-autopublicacao

Já não quero ser escritor!

Já não desejo ser escritor!
Esta ideia ocorreu-me depois de visionar o filme "Anna Karenina". Para ser mais preciso, trata-se de uma não-ideia e ocorreu-me ainda quando assistia ao dito filme, miserável, um embuste! Sou capaz de o rotular como o "pior filme que já vi", não por ser de facto de o pior, mas por ter sido o que causou mais decepção. Depois de ver este filme, já não desejo ser escritor. Enquanto assistia ao espectáculo, o único pensamento que me ocorria levava-me para junto do criador da história, fazia-me estar a seu lado perante tal atrocidade. Mesmo antes da indignação, um sentimento de pena arrebatou-me: pobre Tolstoi, deve estar às voltas na campa! É todo um trabalho destruído, todo um legado manchado. Uma vergonha, um ultraje! Deveria haver uma entidade responsável para proibir o nome do filme. Este deveria-se antes designar de "Visão do senhor Joe Wright e sua equipa acerca da obra Anna Karenina de Lev Tolstoi", ou então, "Mediocridade americana baseado no romance Anna Karenina de Lev Tolstoi". Pega-se num dos maiores clássicos da literatura realista e produz-se um filme com o mesmo nome de forma absurdamente subjectiva e parcial. Uma vergonha! Faz-se um filme baseado numa obra que dela apenas tira a história, o esqueleto da narrativa. Histórias há muitas e se calhar até melhores que aquela. A arte está na forma de a contar, de transmitir a mensagem. Se se quer brincar às mensagens subjectivas e às interpretações de realizadores então escolha-se outra história qualquer. Depois disto, não mais serei escritor! De que serve criar uma obra-prima se outros a destruirão? De que serve escrever a minha visão se outros virão que a deturpem por completo? De que serve escrevinhar uma mensagem se ela ficará esquecida quando se contar a história? Não quero pactuar com estes crimes à arte e à literatura! Talvez não deixarei de escrever, daí isto tudo ser uma não-ideia, mas certamente irei deixar no meu testamento que jamais se poderá cometer um perfeito homicídio contra qualquer das minhas obras. Talvez nunca chegue a ter obras que sejam boas para destruir... De qualquer modo, hoje estou de luto. Hoje sinto que a literatura ficou mais pobre, que a arte empobreceu. Que desperdicem a sétima arte em filmes de violência e histórias sem interesse, eu ainda posso tolerar. Um assalto desta natureza aos clássicos da literatura, é um escândalo! Não haverá limites para a mediocridade cinematográfica?