sábado, 22 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - Quando te verei pela primeira vez?

Um dia iremos casar. Tu de branco, pela pureza, com um vistoso vestido, redondo em baixo e justo em cima. Será feito à medida para o teu lindo corpo e bordado à mão com infinitos motivos a linha dourada. Ficarás deslumbrante, digna de uma grande rainha do antigamente. Eu irei de preto com um fato de modelo exclusivo feito pelo melhor alfaiate do país. Seremos o casal perfeito e completar-nos-emos na nossa perfeição. Quero viajar contigo, conhecer-te, beijar-te... Em menos de nada carregarás o nosso primeiro filho no ventre e, depois dele, mais quatro virão. Sempre quis ter cinco filhos! Cinco petizes a correr e a brincar pela grande casa que teremos no campo. Sonho com uma grande herdade, com cavalos e grandes prados. Imaginas o quão felizes seremos e o quão felizes poderemos fazer os nossos filhos? Crescerão num berço de ouro, sempre em contacto com a natureza,o ar-livre, as árvores... Poderás tomar conta deles, educá-los. Obviamente que não te terás de preocupar com trabalho e outros incómodos mundanos. Terás ajudantes contigo para cuidar da casa e regar os jardins, terás a dispensa sempre cheia e a mesa posta para recebermos as nossas visitas. O dinheiro não será problema.

Tenho tudo planeado! Concretizar o plano será fácil, penso eu. Tudo virá naturalmente, vais ver. Não é assim nas grandes histórias de amor? A pobreza é para quem não ama, para quem não sabe amar... Não vejo que seja possível vivermos o nosso amor num apartamento dos subúrbios, sem filhos e sem fartura. O amor não soa melhor quando é pintado em tons aristocráticos? Os nossos desejos estão destinados à concretização e passar a eternidade a teu lado é o que desejo acima de todas as coisas. Bem sei que apenas nos escrevemos há cinco meses mas não podia estar mais certo do meu desejo. Tens a minha promessa de que, no que depender de mim, tudo farei para que a vontade encarne a realidade. Enquanto viver, serás a minha prioridade absoluta e toda a razão da minha existência. Jamais deverei quebrar esta solene promessa.

Sabes uma coisa? Todos os dias levanto-me com um sentimento de dever para cumprir. Sinto que algo chama por mim, um destino. Estudo muito todos os dias. Praticamente é tudo quanto faço. Dizem-me que se estudar vou ser alguém no futuro, alguém importante. Vivo ansioso com a chegada desse futuro e a possibilidade de ele ser um ilusão consome-me. Quando não estou a escrever estas cartas que te endereço, estou sentado à minha secretária a lutar por ser o melhor. Um sentimento como este que nos une merece ser coroado com a concretização de todos os nossos desejos: a casa, as crianças, o bem-estar... É por isso que luto! Mal posso esperar por esses tempos que virão. Mal posso esperar por te ter nos meus braços. Quando te verei pela primeira vez?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - A carta que nunca lerás

Meu amor, meu sonho esquecido. Lembras-te dos tempos em que nos namorávamos por carta? Lembras-te de como éramos felizes e comprometidos sem sequer nunca nos termos visto e tocado? Três anos namorámos assim, à distância, à distância de uma caneta e de uma folha de papel. As palavras eram a nossa relação, o nosso mundo. 

Oh! e como éramos fiéis. Na altura estudávamos na universidade e mesmo assim não havia exame nenhum que nos impedisse de ler e responder aos bilhetes de amor que trocávamos por correio. Era uma troca constante se bem te lembras. As tuas palavras eram sentidas e reflectidas, uma obra-de-arte. Via-se que cada carta continha muitas horas de escrita e outras tantas de pensamento e reflexão. Sabia que cada palavra era escolhida a dedo para demonstrar o teu afecto por mim, o teu compromisso, a tua dedicação, a tua lealdade. Sabia-o porque elas transpareciam-no e porque também eu fazia o mesmo. Nessa altura fui feliz! Bem sei que dormia e que estudava sozinha, que ria sozinha e que passeava sem ti, de mão dada com o espectro da minha imaginação que figurava à tua imagem. 

Nunca te tinha visto… Sabia que estavas lá, que existias, que me amavas e isso bastava para preencher com cor aquele espectro informe. Depois daquela vez, a tinta da tua caneta permanente nunca mais secou embora ainda tivesse demorado um bocado até usarmos todo aquele material que foste comprando para adornar o nosso primeiro encontro. Sinto saudades desse tempo, sinto saudades tuas. Será que ainda existes? Será que ainda me amas? 

Agora já não me escreves, a criatividade das tuas palavras secou de vez. Nem é suposto que o faças, afinal de contas habitamos a mesma casa, vivemos juntos! Esta carta que te endereço é um exercício de futilidade, um evento sem nexo. É simplesmente um grito ao vazio, o grito de quem chora… Provavelmente nunca a irás receber pois nunca a irei enviar. Se não a deitar fora, arranjarei um baú ou o fundo de uma gaveta escura que trancarei para todo o sempre. Jamais estes meus sentimentos se destinam a ser conhecidos e muito menos por ti. Precisava apenas de relembrar os velhos tempos, relembrar a felicidade. Precisava apenas de me exprimir como já há muito não fazia. Sonho contigo, connosco, com o amor. Quero tempo contigo, conhecer-te, explorar-te. 

Será possível viver casada com um homem que não conheço? Quando falas, a tua voz soa-me estranha. Quando sorris, os teus olhos mentem-me. Mas a tua escrita… Oh! a tua escrita conheço eu bem. Conseguiria identificar a tua letra em qualquer parte do mundo e encontrar uma frase tua no meio de um livro. Porque será que penso não te conhecer?

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Crónica de um amor burguês - Ama-la?


A Crónica de um amor burguês está de volta e, desta vez, parece que veio para ficar... 
Espero que gostem.


- Fazias qualquer coisa por ela? Adiar uma reunião importante para ir com ela ao cinema, cancelar um jantar de negócios para jantarem à luz das velas, deixar a empresa nas mãos do teu sócio por uns tempos e fugirem para longe, um género de escapadela romântica… Ama-la?
- Claro que era capaz! Faria tudo por ela! Ela é a mulher da minha vida, qualquer tempo ao seu lado é melhor do que ficar no escritório a trabalhar.
- Sim, isso é uma grande verdade! Se fosse bom não lhe chamavam trabalho. Trabalhar é trabalhoso, dá trabalho…
- Desprezo o trabalho, eu quero é ver montanhas, sentir o mar! Abraçá-la sentado na areia e correr pelos prados verdejantes segurando a sua mão…
- Então porque não fazes isso? Porque ainda continuas aqui? Vais aí ao teu tablet e marcas o avião já para amanhã. Ou então vais de carro, sempre planeias melhor o percurso e têm mais liberdade.
- Humm… Amanhã vem cá o fornecedor-responsável do material informático e depois de amanhã tenho a reunião com a empresa do marketing. Talvez possa marcar para sexta-feira e assim até apanhamos logo o fim-de-semana!
- Sim, faz isso! Mas cuidado, não adies mais…
- Não vou adiar. Agora é de vez! O meu amor já merece um tempinho a sós comigo… Espera lá, que dia é hoje?
- Ora bem, hoje é dia vinte.
- Vinte!? Isso quer dizer que Sábado é vinte e quatro! Tenho aquele congresso de negócios de que te falei… Coisa internacional, em grande. Vêm directores de todo o lado, até da América! Dá para imaginar? Todo o peixe graúdo do mundo dos negócios reunido debaixo do mesmo tecto. Absolutamente imperdível!
- Então e a tua viagem? Então e a tua mulher?
- Ah deixa lá isso! Vamos noutra altura, para a próxima semana talvez… Depois logo se vê.
- Andas a brincar com o fogo, a adiar o inevitável… Já pensaste por que razão ainda não tens filhos? Já pensaste que ainda não constituíste família porque andas a adiar o namoro com a tua mulher? A vida é para ser vivida e tu já te casaste sem passar pelo namoro, pelas viagens, pelos passeios, pelos fins-de-semana enroscados a verem filmes no sofá, pelas tolices de um jovem casal… Saltaram uma etapa! Mas essa etapa esquecida está a voltar para assombrar a vossa relação, o vosso amor. Volto a perguntar-te: ama-la?
- Não há adiamento nenhum nem etapas perdidas, deixa de ser chato! Simplesmente a vida não é só brincadeira e viagens por aí. É preciso trabalhar e ganhar dinheiro para orientar a vida! Eu quero fazer alguma coisa que se veja, que fique para a história!
- Fazer alguma coisa que se veja? Olha para ti, tens vinte e oito anos e já estás no top 100 dos mais ricos deste país. Logo que acabaste de estudar crias-te esta empresa fruto de uma ideia absolutamente brilhante. Que é feito dos teus colegas de faculdade dos teus amigos… Onde estão eles agora e o que já fizeram eles assim de tão notável?
- Pois, que posso eu dizer? Nesse aspecto a vida tem sido boa para mim…
- Pois tem, mas será que a tens aproveitado?