Um dia iremos casar. Tu de branco, pela pureza, com um vistoso vestido, redondo em baixo e justo em cima. Será feito à medida para o teu lindo corpo e bordado à mão com infinitos motivos a linha dourada. Ficarás deslumbrante, digna de uma grande rainha do antigamente. Eu irei de preto com um fato de modelo exclusivo feito pelo melhor alfaiate do país. Seremos o casal perfeito e completar-nos-emos na nossa perfeição. Quero viajar contigo, conhecer-te, beijar-te... Em menos de nada carregarás o nosso primeiro filho no ventre e, depois dele, mais quatro virão. Sempre quis ter cinco filhos! Cinco petizes a correr e a brincar pela grande casa que teremos no campo. Sonho com uma grande herdade, com cavalos e grandes prados. Imaginas o quão felizes seremos e o quão felizes poderemos fazer os nossos filhos? Crescerão num berço de ouro, sempre em contacto com a natureza,o ar-livre, as árvores... Poderás tomar conta deles, educá-los. Obviamente que não te terás de preocupar com trabalho e outros incómodos mundanos. Terás ajudantes contigo para cuidar da casa e regar os jardins, terás a dispensa sempre cheia e a mesa posta para recebermos as nossas visitas. O dinheiro não será problema.
Tenho tudo planeado! Concretizar o plano será fácil, penso eu. Tudo virá naturalmente, vais ver. Não é assim nas grandes histórias de amor? A pobreza é para quem não ama, para quem não sabe amar... Não vejo que seja possível vivermos o nosso amor num apartamento dos subúrbios, sem filhos e sem fartura. O amor não soa melhor quando é pintado em tons aristocráticos? Os nossos desejos estão destinados à concretização e passar a eternidade a teu lado é o que desejo acima de todas as coisas. Bem sei que apenas nos escrevemos há cinco meses mas não podia estar mais certo do meu desejo. Tens a minha promessa de que, no que depender de mim, tudo farei para que a vontade encarne a realidade. Enquanto viver, serás a minha prioridade absoluta e toda a razão da minha existência. Jamais deverei quebrar esta solene promessa.
Sabes uma coisa? Todos os dias levanto-me com um sentimento de dever para cumprir. Sinto que algo chama por mim, um destino. Estudo muito todos os dias. Praticamente é tudo quanto faço. Dizem-me que se estudar vou ser alguém no futuro, alguém importante. Vivo ansioso com a chegada desse futuro e a possibilidade de ele ser um ilusão consome-me. Quando não estou a escrever estas cartas que te endereço, estou sentado à minha secretária a lutar por ser o melhor. Um sentimento como este que nos une merece ser coroado com a concretização de todos os nossos desejos: a casa, as crianças, o bem-estar... É por isso que luto! Mal posso esperar por esses tempos que virão. Mal posso esperar por te ter nos meus braços. Quando te verei pela primeira vez?
sábado, 22 de dezembro de 2012
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Crónica de um amor burguês - A carta que nunca lerás
Meu amor, meu sonho esquecido. Lembras-te dos tempos em que
nos namorávamos por carta? Lembras-te de como éramos felizes e comprometidos
sem sequer nunca nos termos visto e tocado? Três anos namorámos assim, à
distância, à distância de uma caneta e de uma folha de papel. As palavras eram
a nossa relação, o nosso mundo.
Oh! e como éramos fiéis. Na altura estudávamos
na universidade e mesmo assim não havia exame nenhum que nos impedisse de ler e
responder aos bilhetes de amor que trocávamos por correio. Era uma troca
constante se bem te lembras. As tuas palavras eram sentidas e reflectidas, uma
obra-de-arte. Via-se que cada carta continha muitas horas de escrita e outras tantas
de pensamento e reflexão. Sabia que cada palavra era escolhida a dedo para
demonstrar o teu afecto por mim, o teu compromisso, a tua dedicação, a tua
lealdade. Sabia-o porque elas transpareciam-no e porque também eu fazia o
mesmo. Nessa altura fui feliz! Bem sei que dormia e que estudava sozinha, que
ria sozinha e que passeava sem ti, de mão dada com o espectro da minha
imaginação que figurava à tua imagem.
Nunca te tinha visto… Sabia que estavas
lá, que existias, que me amavas e isso bastava para preencher com cor aquele
espectro informe. Depois daquela vez, a tinta da tua caneta permanente nunca
mais secou embora ainda tivesse demorado um bocado até usarmos todo aquele
material que foste comprando para adornar o nosso primeiro encontro. Sinto
saudades desse tempo, sinto saudades tuas. Será que ainda existes? Será que ainda
me amas?
Agora já não me escreves, a criatividade das tuas palavras secou de
vez. Nem é suposto que o faças, afinal de contas habitamos a mesma casa,
vivemos juntos! Esta carta que te endereço é um exercício de futilidade, um
evento sem nexo. É simplesmente um grito ao vazio, o grito de quem chora…
Provavelmente nunca a irás receber pois nunca a irei enviar. Se não a deitar
fora, arranjarei um baú ou o fundo de uma gaveta escura que trancarei para todo
o sempre. Jamais estes meus sentimentos se destinam a ser conhecidos e muito
menos por ti. Precisava apenas de relembrar os velhos tempos, relembrar a
felicidade. Precisava apenas de me exprimir como já há muito não fazia. Sonho
contigo, connosco, com o amor. Quero tempo contigo, conhecer-te, explorar-te.
Será possível viver casada com um homem que não conheço? Quando falas, a tua
voz soa-me estranha. Quando sorris, os teus olhos mentem-me. Mas a tua escrita…
Oh! a tua escrita conheço eu bem. Conseguiria identificar a tua letra em
qualquer parte do mundo e encontrar uma frase tua no meio de um livro. Porque
será que penso não te conhecer?
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Crónica de um amor burguês - Ama-la?
A Crónica de um amor burguês está de volta e, desta vez, parece que veio para ficar...
Espero que gostem.
- Fazias qualquer coisa por ela? Adiar uma reunião
importante para ir com ela ao cinema, cancelar um jantar de negócios para
jantarem à luz das velas, deixar a empresa nas mãos do teu sócio por uns tempos
e fugirem para longe, um género de escapadela romântica… Ama-la?
- Claro que era capaz! Faria tudo por ela! Ela é a mulher da
minha vida, qualquer tempo ao seu lado é melhor do que ficar no escritório a
trabalhar.
- Sim, isso é uma grande verdade! Se fosse bom não lhe
chamavam trabalho. Trabalhar é trabalhoso, dá trabalho…
- Desprezo o trabalho, eu quero é ver montanhas, sentir o
mar! Abraçá-la sentado na areia e correr pelos prados verdejantes segurando a
sua mão…
- Então porque não fazes isso? Porque ainda continuas aqui? Vais
aí ao teu tablet e marcas o avião já
para amanhã. Ou então vais de carro, sempre planeias melhor o percurso e têm
mais liberdade.
- Humm… Amanhã vem cá o fornecedor-responsável do material
informático e depois de amanhã tenho a reunião com a empresa do marketing. Talvez possa marcar para
sexta-feira e assim até apanhamos logo o fim-de-semana!
- Sim, faz isso! Mas cuidado, não adies mais…
- Não vou adiar. Agora é de vez! O meu amor já merece um
tempinho a sós comigo… Espera lá, que dia é hoje?
- Ora bem, hoje é dia vinte.
- Vinte!? Isso quer dizer que Sábado é vinte e quatro! Tenho
aquele congresso de negócios de que te falei… Coisa internacional, em grande.
Vêm directores de todo o lado, até da América! Dá para imaginar? Todo o peixe
graúdo do mundo dos negócios reunido debaixo do mesmo tecto. Absolutamente
imperdível!
- Então e a tua viagem? Então e a tua mulher?
- Ah deixa lá isso! Vamos noutra altura, para a próxima
semana talvez… Depois logo se vê.
- Andas a brincar com o fogo, a adiar o inevitável… Já
pensaste por que razão ainda não tens filhos? Já pensaste que ainda não constituíste
família porque andas a adiar o namoro com a tua mulher? A vida é para ser
vivida e tu já te casaste sem passar pelo namoro, pelas viagens, pelos
passeios, pelos fins-de-semana enroscados a verem filmes no sofá, pelas tolices
de um jovem casal… Saltaram uma etapa! Mas essa etapa esquecida está a voltar
para assombrar a vossa relação, o vosso amor. Volto a perguntar-te: ama-la?
- Não há adiamento nenhum nem etapas perdidas, deixa de ser
chato! Simplesmente a vida não é só brincadeira e viagens por aí. É preciso
trabalhar e ganhar dinheiro para orientar a vida! Eu quero fazer alguma coisa
que se veja, que fique para a história!
- Fazer alguma coisa que se veja? Olha para ti, tens vinte e
oito anos e já estás no top 100 dos
mais ricos deste país. Logo que acabaste de estudar crias-te esta empresa fruto
de uma ideia absolutamente brilhante. Que é feito dos teus colegas de faculdade
dos teus amigos… Onde estão eles agora e o que já fizeram eles assim de tão
notável?
- Pois, que posso eu dizer? Nesse aspecto a vida tem sido
boa para mim…
- Pois tem, mas será que a tens aproveitado?
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