Composição VIII, parte do meu livro "O Grito de Quem Chora Lágrimas Azuis"
Nunca tive intenção de acabar
o que foi outrora começado. A enorme sombra que se reflectia no solo quando
entrelaçava-mos as mãos dava ao que nos unia uma aparência sobrenatural. Mas a intocabilidade
reflectida na sombra nunca se figurou sozinha. Desde sempre que no negrume sombrio
se expiava uma dor agónica que não era fácil de suportar. O medo crescia face
ao perigo desconhecido mas ainda assim nunca pretendi roubar o que teu era por
direito. E o que era teu também meu era e muito me custou perdê-lo. Mas agora
tenho tudo quanto quero. O prazer de partilhar a vida contigo foi agora
substituído pela satisfação de ver realizados os mais loucos desejos que se
escondiam num canto da alma.
A explosão imensurável de prazer que me trouxe a descoberta
de novas coisas estrangulou a dor e a memória que já se vinham afirmando no meu
pensamento. As amarras que nasciam do solo e me castravam os movimentos, nada
puderam contra a inviolável leveza do ser que se manifesta quando da nossa
mente apenas provém a liberdade. As condições exteriores são as que nos prendem
menos. É na nossa mente que a fera fica enjaulada e se acaba por amestrar mesmo
sem darmos conta. O instinto que nos incita a fugir de qualquer coisa
desconfortável é inimigo da descontracção que poderíamos ter. Por mais rápido
que consigamos correr, a nossa sombra acompanha-nos sempre. A flor que cresce
lá no fundo deslumbra os sentidos. Pela janela fito a dança eterna que decorre
onde não posso conhecer. O preto que o homem traja funde-se com o branco que a
mulher ostenta. O vulto daquela cena ficará para sempre gravado no muro despido
que se impõe à direita de quem entra.
De incógnitos a realizados, fiz tudo o
que me satisfazia e nada disso te envolveu. Agora, a tristeza mora ao lado e o
passado também. Posso não ser o escolhido mas quem elege tem a condição de
júri. A distinção não está em quem é preferido mas sim em quem o prefere, e
isso faz toda a diferença. É uma oportunidade que se perde, uma porta que se
fecha. As janelas que se abrem são mais pequenas e dificultam a passagem. É
claro que são um caminho e que a diversos sítios conduzirão, mas estão longe de
ser a opção óptima. Não existem segundas oportunidades. A vida não volta atrás
nem se apaga a ela própria. Existem apenas outros caminhos distintos e outras
oportunidades que são também elas únicas.
E quando a memória se desvanecer sei
que a posso substituir. Sei também que estive fora por muito tempo. Cheguei a
pensar que já não estava vivo. Mas a vida agora encarregou-se de me presentear
com circunstâncias que são tão boas quanto novas e adapto-me a elas para as
aproveitar. A vida já nos impõe tantos combates e tantas decisões que não vale
o sacrifício estar sempre a desejar algo mais. Se as nossas acções nos levaram
a certa situação, então é porque podemos aprender algo daí. A plenitude está em
nós, não nos momentos ou coisas.
Ai que prazer! Poder desfrutar da vida sem os grilhões
da consciência. O prazer está algures entre o querer e o poder. Isto digo eu… Outros,
algo diferente dirão.
Sem comentários:
Enviar um comentário