A escova deslizava suavemente
entre os longos cabelos cor-de-avelã. O espelho refletia uma imagem serena, um
rosto plácido, uma má interpretação do que a alma sentia e do que nos olhos se
podia ler. A escova penetrava continuamente a generosa cabeleira em movimentos
mecânicos que oscilavam entre a brusquidão e a carícia terna. O olhar era vago.
Tinha deixado a sua mente à mercê dos pensamentos assaltantes que o sol do
meio-dia propiciava e a sua nostalgia consentia. Pensava sobretudo no que já
tinha passado e assustava-se com o que iria ainda acontecer. Não sabia se temia
mais o que deixara para trás e perdera ou o que poderia vir a ganhar num
distante cada vez mais próximo.
Ou se teria perdido que deixara para trás, ou
se ganharia algo com o que ainda estava para vir e nunca mais chegava. A
incerteza dominava-a, retirava-lhe o espírito daquela sala que apenas o seu
corpo habitava. Olhou para baixo e sabia que tinha de voltar, sabia que tinha
chegado a altura de enfrentar sozinha todas as suas incertezas, viver a vida,
jogar o jogo… E não queria. Preferia infinitas vezes ficar ali naquela quarto,
indeciso entre a escuridão e a iluminação dos raios de sol, a deixar o seu
espírito divagar e voar independente do seu corpo que bem podia permanecer
sentado a pentear os cabelos sem cessar. Mas não sabia, os dados já estavam
lançados, ela própria tinha-o feito quando escolhera estudar no estrangeiro
durante um semestre. Agora era altura de assumir as consequências da sua
decisão, tinha decidido ir a jogo. A sua mente divagava pelos momentos do dia
anterior, o aterrar do avião, o pisar solo português pela primeira vez, as
emoções que tudo isso despoletara. Foi nesse momento que percebeu que tinha
chegado ao ponto de não retorno, que estava ali, sozinha naquele país estranho
e que não iria regressar a casa durante seis longos meses. Mas sabia ela que,
no final de tudo, o longo tempo que agora se agigantava à sua frente lhe iria
parecer curto.
Tinha
vindo para Lisboa ao abrigo de um programa de intercâmbio de estudantes a fim
de aprender o seu caminho junto da língua portuguesa e da cultura do país.
Acima de tudo, queria algo diferente daquilo a que estava habituada nos Estados
Unidos, tudo quanto tinha conhecido até então. Lisboa era, para si, uma porta
de entrada na Europa, um ponto de partida para um novo mundo que queria
explorar. O programa tinha-lhe atribuído uma família de acolhimento que lhe
daria abrigo e orientação durante os seis meses. Era no quarto que lhe tinha
sido destinado na casa da sua família de acolhimento que escovava agora os seus
cabelos e deixava o pensamento fluir. Vinha-lhe à mente a saudade da mãe, a
figura ausente do pai e a preocupação do irmão mais velho mas, sobretudo,
pensava no companheiro de três anos que deixara em casa. Não sabia o que fazer:
deixar fluir a saudade e derramar a primeira lágrima que já começava a aflorar
no canto do olho ou conter as incertezas e pensar no momento presente, na sua
grande experiência.
Nem
por um segundo esquecia o motivo da sua viagem: excitação, paixão, sentir algo
diferente do que aquilo que poderia alguma vez sentir nos Estados Unidos.
Queria o exótico, buscava o diferente. Queria-se perder nos meandros de uma
nova cultura, de uma língua fascinante. Sempre sentira uma falta de paixão na
sua vida e viajava agora para preencher esse vazio. De certa forma queria-se
encontrar e sabia que não seria capaz de o fazer perto de casa, na América.
Precisava do modo europeu, ansiava por ele embora não soubesse exatamente do
que se tratava. Não que Portugal fosse melhor que os Estados Unidos, ou o
inverso, mas o ser humano sempre quer o que não tem, sempre busca o que não
pode encontrar e sempre o faz no longe e na distância. É por isso que na casa
do ferreiro o espeto é de pau e que o voluntário sempre escolhe combater a fome
nalgum lugar perdido de África enquanto pessoas esfomeadas lutam ao seu lado
por um pedaço de pão. É uma raça invulgar a humana, escolhe sempre o caminho
mais difícil, o mais tortuoso, nem sempre onde o proveito é maior. Queria
apenas o diferente. Nunca antes na sua vida se tinha sentido arrebatada,
totalmente esmagada por uma sensação positiva que não conseguisse controlar e
não tinha em mente emoções radicais ou perigos aventureiros. Queria algo
profundo, algo permanente. Um bom vinho tomado à luz de uma vela, um passeio de
descapotável sob o sol escaldante que sorri em Lisboa como em nenhum outro
lugar. Não queria ver cultura como se estivesse num museu, queria vivê-la.
Mais
que apreciar a obra do artista, queria viver o processo antes da chegada ao
quadro que pende na parede da galeria. Ser o modelo que é pintado ou a musa que
é escrita, cantada nos poemas eternos que sempre serão lidos pela humanidade.
Também não queria ver o filme ou ler o livro, queria viver a história, criá-la,
ser parte dela, conhecer e influenciar os personagens, manipulá-los como
marionetas. Ver-se envolvida em situações desconhecidas que jamais poderia
controlar. Queria esquecer as tardes no shopping,
as compras de impulso, o acumular de tralha que a sua casa conhecia e o cartão
de crédito permitia. Ansiava por ver mais além, para além da maquilhagem que
cobre os autómatos na vivência do quotidiano, da rotina. «Abaixo a rotina! Que
morram os planos», pensava com convicção. Queria conhecer, viver, rir e sonhar.
Não sabia o que queria, apenas que o queria todo, a experiência completa, tudo
quanto houvesse. E, no entanto, ali estava ela, sentada naquele quarto inundado
pela escuridão, trespassado pelos raios de sol que atravessavam a janela
entreaberta. Escovava o seu cabelo de forma automática. O olhar vago indicava a
ausência do seu espírito, o devaneio da sua mente que fervilhava na excitação da
proximidade dos seus desejos, tudo tão perto e ela permitia ao seu corpo
permanecer ali sentado, a escovar os cabelos incessantemente e a fitar o
espelho como que à procura do sentido de profundidade, inibido de toda a ação,
de todo o ato que poderia tornar realidade os seus desejos mais profundos.
Era
como se esperasse pacientemente pela concretização das suas vontades sem que
para isso colocasse algum esforço, alguma procura, como se elas se fossem
concretizar por si próprias. Inconscientemente, tomava a posição de um cidadão
da civilização que visita a selva e espera observar a interação animal na sua
máxima amplitude e de forma instantânea ou como o turista que passa pelos
lugares recônditos do mundo e assume uma postura resguardada, de algum modo
superior aos locais tidos como inferiores por não verem o mesmo horizonte, como
se não houvessem vários horizontes nesta vida ou como se o mesmo não pudesse
ser visto de várias perspetivas. Como se Portugal fosse um país de poetas
apaixonados que espreitam o mundo em cada jardim, cada esquina, em cada janela.
Como se na Europa todo o indivíduo fosse dotado da sensibilidade artística e da
capacidade para a concretizar. Tinha pensado em tudo mas não sabia nada.
Queria-se
envolver com a cultura, descobrir um mundo pitoresco de emoções e sensações
onde a natureza e a natureza humana se imiscuíssem e sobrepusessem ao artifício
da sociedade mas não tinha pensado que para concretizar tal objetivo teria de o
procurar, nem como o iria fazer. Como o leão que caminha pela floresta caçando
as suas presas para o turista ou o menino faminto que corre atrás do jipe do
ocidental que está de passagem espalhando a magia e a felicidade, ela pensava
que poetas e escritores, pintores e escultores viriam ter com ela, fazendo fila
para a conhecer e lhe apresentar um qualquer segredo da sua cultura. Esperava
tacitamente que, tal como artifício da sociedade moderna, tudo acontecia
naturalmente, tudo lhe seria dado e revelado sem que de fato o procurasse. O
mais estranho e improvável é que, de alguma maneira, aquela rapariga que
escovava os cabelos sentada na escuridão do quarto que a luz lutava por
penetrar tinha, de fato, razão.
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