Paralisada no banco do
autocarro, entorpecida pelo sol do fim de tarde, os seus pensamentos teimavam
em repetir as palavras ditas pela amiga que, no seu discurso habitual e
tipicamente característico, descrevia um rapaz…
Por instinto ou puro devaneio, sentiu que tinha de conhecê-lo ou pelo menos tentar. Impulso estranho esse, que a fazia começar a duvidar da sua sanidade mental. Sentir tanta atração, tanto desejo, tanta curiosidade? Nunca antes fora dada a esse tipo de atitudes, parecia uma miúda de quinze anos. E ainda nem o conhecia! Talvez fosse essa a lenha que alimentava o fogo que agora lhe crescia por dentro. Da rapariga que escovava os cabelos naquele quarto escuro sobrava já muito pouco, quase nada, um nada disforme. Agora envolvia-se violentamente, a placidez parecida ter ficado guardada na mesa da cómoda do quarto. Normalmente não fazia isso, não se deixava envolver dessa maneira. Normalmente controlava a ansiedade, reprimia o desejo pelo mistério e desconhecido. Mas que teria a perder agora? Já não estava em casa, nem tão pouco perto dela, já não estava no seu “normalmente”, era tempo do diferente. Na sua mente decidiu deixar o fogo alastrar, como se tivesse escolha. E como se tivesse escolha deixou o seu coração palpitar com força e rapidez.
Queria conhecer o rapaz. Sentada naquele banco de autocarro, pensava na melhor maneira de perguntar à amiga a seu lado como o poderia fazer. Não queria parecer uma qualquer desesperada que corre atrás de um qualquer rapaz. Não conhecia a amiga há tanto tempo assim e não tinha com ela essa cumplicidade que permite ver para além das palavras. Por isso, tinha de as escolher bem. Estava em Lisboa não fazia ainda uma semana e aquela era a sua única amiga, ainda não tivera tempo de conhecer outras pessoas. Com aquela dividia a sua casa, ou melhor, a amiga é que dividia a sua casa consigo. Filha da família que a acolhera, tecnicamente sua “irmã de acolhimento”, era imperativo transparecer uma boa imagem. Não queria parecer muito interessada no rapaz que a amiga descrevia, ainda para mais depois de uma longa conversa sobre o seu namorado deixado em casa, no outro continente. Não era correto. Mas também não o era reprimir aquela vontade, aquele desejo do diferente, do novo, do desconhecido. Afinal era para isso que ali estava. Olhou simplesmente nos olhos da sua companheira e, calmamente, disse-lhe:
- Tenho de o conhecer.
A resposta foi o
silêncio, um olhar cúmplice que lhe penetrou a alma e a acalmou como quem diz
«relaxa, está tudo tratado». Do bolso da mala, a sua amiga tirou uma folha e
uma caneta. Passou-lhe papel e entregou-lhe a caneta ordenando-lhe que lhe
escrevesse as seguintes palavras:
“Concede-me
a honra de o conhecer?
Atenciosamente,
A rapariga dos cabelos cor-de-avelã”
Nada mais precisou de ser
dito, nada mais precisou de ser escrito. A rapariga viria a conhecer o rapaz e
esse evento mudaria a sua vida.
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