terça-feira, 21 de maio de 2013

Diário de um voluntário


Lembro-me da primeira vez que fiz trabalho voluntário. Estava entusiasmado por ajudar as pessoas, por servir a comunidade! Nessa noite, não consegui dormir… Nem nas seguintes. A miséria que presenciei, os rostos que vi, nada me saía da mente quando finalmente repousava a cabeça na almofada. Tantas histórias por aí perdidas, tantas vidas que ficaram a meio. E nós, distraídos com os mais mundanos assuntos, chafurdando na riqueza que chamamos de escassa. Quando cheguei a casa, por volta das três da manhã, depois de fazer a volta numa carrinha por Lisboa a distribuir comida e mantas aos que na rua se abrigam, comecei a digerir tudo quanto os meus olhos haviam visto naquela noite. Só aí, quando a minha mente repousou, tanto quanto é possível repousar depois da primeira vez que se desempenha tal tarefa, comecei a processar tudo quanto vira e sentira. No momento, a urgência do bem-fazer e o pragmatismo de ajudar tantos quanto possível não permitem que o cérebro elabore sobre o que os olhos vêm e torna-os imunes ao que à nossa volta vai tendo lugar. Mas depois não é assim... 

Quando finalmente chegamos ao lar que chamamos de nosso, disfrutamos de uma refeição quente e abundante e nos deitamos num colchão macio é que nos apercebemos que aquela gente não tem nem lar, nem cama e a refeição é escassa. O processo seguinte é olhar para o telemóvel de segunda geração, para o computador já desatualizado e para o risco que se tem na porta do carro e perceber que são esses os nossos problemas mais urgentes. Damos por nós a desejar possuir a gama mais alta de tudo quanto tocamos e esse desejo só desaparece naquele momento, quando chegamos à cama depois de uma volta nas carrinhas da noite. E acreditem, elas andam aí todas as noites. Sempre que estiverem confortavelmente a dormir nas vossas camas delicadas, sempre que estiverem a desejar por um telemóvel mais avançado, por um computador topo de gama ou por uma pintura nova para o carro. Têm de andar. Para aqueles voluntários não há outra maneira, outra opção. Eles já viram a realidade, já não estão protegidos no nosso castelo de marfim onde os sonhos vêm através de um ecrã de alta resolução. Eles já viram a miséria, a pobreza, a dificuldade. Já não conseguem ignorar o assunto.


Lembro-me da primeira vez que fiz trabalho voluntário. Lembro-me particularmente de estar no duche e lavar essencialmente a alma, as mágoas, e não o corpo que não estava sujo comparado com a sujeira que os meus olhos tinham visto nessa noite. Subitamente dei pela minha mente a vaguear e os meus desejos já não eram os mesmos. Mil ideias assaltavam a minha mente, ideias empreendedoras para combater a pobreza e acabar com tudo o que tinha visto. E eram boas ideias! Numa só noite consegui identificar vários problemas graves que necessitam de solução e identifiquei também algumas soluções. Ideias... Ideias que a pequenez da idade e a ingenuidade do saber não permitiram que saíssem da mente. Nunca na minha vida me senti tão impotente. Um sentimento apenas comparável ao amor não correspondido. Algo tão arrebatador que nos prende num colete-de-forças, corpo e alma. Somos esmagados pela vida, por tudo quanto nos rodeia e não temos qualquer meio ao nosso alcance para escapar a tal fado. 


Lembro-me também que era uma sexta-feira, noite de festa para muitos jovens. Lembro-me de uns bêbedos, outros a meio caminho, uns com as namoradas, outros à procura delas, todos alheios à realidade que estava a acontecer ali mesmo ao lado. Quantos passaram, no seu caminho para os bares ou discotecas desta cidade, e nem um olhar de preocupação nos deitaram, nem curiosidade tampouco. Jovens iludidos pelos prazeres mundanos, imediatos, efemeridades que buscam incessantemente e que lhes roubam o tempo para pensarem no que significa a vida. Será que só cá andamos para viver as coisas boas, experimentar o radical, ir ao limite e ter a sensação que de facto estamos a desafiar a perigosidade? Que há mais de limite do que alimentar um sem-abrigo nas ruas de uma cidade indiferente? Que há mais de limite do que conhecer as histórias de quem já foi como nós e agora vive assim, sem nada? Nada, eu vos digo, nem que saltem de um avião. Aí, terão sempre um para-quedas... Não há para-quedas que nos salve a alma quando olhamos nos olhos de um sem-abrigo e não lhe sabemos explicar por que razão é ele quem está ali, vestindo as roupas da sua condição, e não nós que nascemos numa família que nos deu pelo menos o mínimo indispensável.


Um homem não é aquele que enfrenta o touro ou o abismo, que faz truques com o carro ou com a bicicleta, que desafia o medo com qualquer desporto estúpido. Um homem é aquele que chora ao ver a miséria, o sofrimento. Não é um choro de prostração, de incapacidade. É sim um choro de quem se abre ao mundo para o compreender, de quem se abre às emoções, às sensações, e se deixa tocar. Já pouco toca o homem, ser que se fechou aos sentimentos. Já nem o amor encontra o seu caminho até à alma do sujeito. Que esperança há para uma humanidade assim? Uma humanidade que vê a miséria e desvia o olhar pensando apenas na noite maravilhosa que vai ter com os seus amigos num bar qualquer por aí... Não basta ver o sofrimento, nem tampouco ajudar a corrigi-lo. É preciso sentir, sentir o mundo, sentir os nossos semelhantes. É isso que nos torna humanos! A nossa capacidade de sentir e de nos deixamos tocar por sentimentos, emoções e sensações. A ajuda é bem-vinda e necessária mas esgota-se em si mesma quando não parte de uma alma tocada. Tal como acontece ao relacionamento amoroso que não tem o amor por sua base.


Nessa noite não dormi. Foi a minha chamada de atenção. Julgava que ia colecionar mais uma experiência, uma vivência sem sentido, mas foram aquelas pessoas que acabaram por colecionar mais um voluntário para a sua causa, mais uma alma tocada pela miséria que se esconde debaixo de um viaduto secundário ou num canto resguardado dos olhares curiosos. Senti uma tristeza muito grande. Ver-me naquela situação, conhecer aqueles que nada têm e apenas me vinham à memória as caras dos transeuntes anónimos que passavam alegremente por nós. Que alegres eles estavam, que felizes! Como se pode ser alegre ou feliz quando ao nosso lado tem lugar a plena degradação humana? Como pode isso não tocar a alma de alguém? Que angústia sentia eu naquela altura! O peso nos ombros de toda aquela situação, carregar comigo aquela mala de viagem tão pesada e os outros à minha volta sem me oferecer ajuda ou sequer reparar que a transportava comigo.

Aquela noite foi decisiva na minha maneira de pensar, de ver o mundo. Não mais poderia ser um caçador de experiências efémeras, de futilidades passageiras. Não mais seria o mesmo, não depois de experienciar todos aqueles sentimentos tão fortes e poderosos. Decidi que chegara o momento de fazer algo por aquela gente e por esta sociedade que vive tão despreocupada e enganada. Decidi que iria dedicar a minha vida a criar algo, a desenvolver uma obra, algo que fizesse a diferença na vida das pessoas, na sociedade do meu país. Decidi que iria meter mãos à obra para, um dia mais tarde, ser capaz de dar o meu contributo para reverter ou, pelo menos, atenuar esta situação. Foi assim que abri os olhos para o que está a acontecer à minha volta, foi assim que percebi o significado de ser humano, de estar vivo, de habitar este mundo. Foi assim que me tornei num voluntário.

2 comentários:

  1. Sempre que retiro uns minutos do meu dia, dia em que mais uma vez, me queixei, me irritei, me indignei, etc; e venho ao teu blog na perspectiva de encontrar algo que me conforte a alma, que me prove que muitos dos sentimentos que um ser sente, mas que teima em não falar, em não querer sentir, em não querer viver; dá-me a mim, uma rapariga tola, que acredita no sentimento na sua forma mais pura e sincera, um alento à alma! Nos teus textos, meros textos, expões algo que neste momento parece ser um assunto tabu, todos sabem que existe, mas não falam dele...não admitem senti-lo. O Amor!
    Contudo, este texto, esta maravilhosa partilha de sentimentos, colocou os meus queixumes diários num patamar de irrelevância total. Fez-me pensar no amor numa outra perspectiva, numa perspectiva humanitária. Todos nós deveríamos ter a sensibilidade para ajudar aqueles que mais precisam. Eles não pedem, nós passamos por eles e fingimos que não estamos a ver, mas no entanto, eles estão lá. Pessoas sós, que naquele momento não precisam de muito, na verdade, precisam apenas que alguém se importe com eles durante uns poucos minutos.
    Tu atingiste mais um grande feito. Para além de falares do tal assunto tabu, vivenciaste uma realidade desconhecida voluntária ou involuntariamente para muitos e partilhaste-a. Fizeste os outros pensarem nela. Permitiste que o pensamento de mais uma pessoa fosse para além das trivialidades da vida…
    Muito Obrigado!!!

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    1. Eu é que agradeço o comentário e todos esses minutos que tira ao seu dia para ler o este blogue.

      Este texto, mais que um texto, é uma chamada de atenção para as coisas que existem sem que nos apercebamos disso. Mais do que eu, há pessoas que dedicam grande parte das suas vidas a ajudar os outros e a grande maioria de nós nem se apercebe que isso acontece sem o nosso contributo. Vivemos enclausurados no dia a dia e não conseguimos despertar para o que acontece à nossa volta. Este texto não é mais que uma chamada de atenção, o meu singelo contributo.

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