segunda-feira, 6 de maio de 2013

Vencida

Ela olhava-me do fundo da sala. Um olhar penetrante, vago, trespassava-me o corpo, carne e osso, e parecia contemplar um qualquer objeto  à minha retaguarda, inacessível ao normal olhar humano por escondido pela minha presença. Pensei que me olhava com os seus dois olhos, grandes, azuis. Mas que via ela? Que veria ela em mim digno de lhe prender a atenção de tal forma? Tanta interrogação me surgia na mente, o meu espírito irrequieto. E eu sentado, na poltrona, quase no centro do salão. Naquela altura escrevia, ou pelo menos tentava. Escrevinhava qualquer coisa invertebrada que nem se punha de pé. Desconexa. Era o ruído da televisão, ali bem do meu lado direito a berrar-me no ouvido coisas sem qualquer interesse e o olhar dela que me atraía como um íman. Que irrequieto eu estava! As palavras saiam-me às golfadas, sem tempo de se articularem entre si, o burburinho da televisão soava junto a mim e o olhar dela captava com muita eficiência a minha atenção. 

O esforço que fazia para escrever era anulado pelo que me rodeava, e pelo meu estado de espírito. Lutava para me prender ao papel, para articular o meu raciocínio com aquela tinta azul mas parecia que o meu pensamento acabava sempre por ser atraído pela força vinda do canto da sala. Não sei que escrevia, nem porquê. Sei apenas que não conseguia parar. Não tinha consciência das letras que desenhava, das palavras que constituía, do raciocínio que formava (ou se formava algum). A minha mente estava num frenesim. A atenção fixamente presa à interrogação que se impunha no momento era sempre soberana sobre a luta que travava por me concentrar na escrita. Mas que pensava ela sobre mim? Mas que via ela no meu ser ali sentado, ou através dele? Os seus olhos não mexiam, não pestanejavam. O olhar era fixo e ininterrupto. Penetrava tão fundo que indicava o vazio de objetivo. Olhava mas não via. Ou pelo menos assim parecia ser. Se calhar apenas tinha conseguido retirar esse filtro, o da visão. Mantinha apenas um olhar concentrado que recolhia toda e qualquer informação, por mais insignificante que parece-se, e levava-a diretamente ao cérebro onde o pensamento tratava de formar o juízo. Mas que juízo seria essa? A interrogação matava-me, consumia-me por dentro! Oh, que inferno! Que inquietação! E, no entanto, ali estava eu, sentado na poltrona, tão sereno quanto a um homem convém, dando a impressão de não me importar com a sua presença, de não me sentir afetado com as suas ações (ou falta delas). Porque um homem deve sempre ser sereno e altivo, deixar as emoções de lado no trato com a mulher, guardá-las para si, para o seu eu enquanto pensa ou escreve. 

A mulher testa o homem, põem-no à prova, mede a sua paciência e o seu carácter, a sua versatilidade face aos ambientes mais estranhos e adversos. Pelo menos aquela procedia assim e eu, nada. Sereno como o trigo nos campos sob o sol que abana ligeiramente de um lado para outro ao sabor da brisa. Ela queria-me testar mas eu não respondia aos estímulos, ficava para ali, altivo e sereno, como a um homem convém. E reparem que ela tentava de tudo! Olhar especada para mim durante tempos infinitos era a menor das provocações. Oh, mas só eu sei como isso me afligia! Só eu sei porque nunca mencionei nada relacionado ao tema, nem dei a entender. A sala estava tranquila, o silêncio apenas era interrompido pelo som entediante da televisão e por um ronco ou outro do que dormitava no sofá, mas travava-se ali uma batalha, uma luta épica, um braço de ferro renhido que, no fim, eu iria ganhar.

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