O livro poeirento de capa velha e roçada estava
em cima da mesa mesmo no centro do café. Eliseu olhou-o. A tinta que dava forma
às letras da capa estava sumida, gasta pelos anos de uso, tantos quantos tinha
aquele livro - adivinhavam-se muitos e longos. Os cantos das páginas eram arredondados,
não por qualquer opção editorial ou estética publicitária mas pelo
envelhecimento natural do papel, pelo roçar dos cantos nas pastas de cabedal, e
depois nas mochilas de tecido e também nas estantes de madeira e de metal pelas
quais tinha passado. Era velho, usado, antigo. Era poeirento e comido, pelo sol
claro está. A capa castanha, como se usava no seu tempo de publicação,
conferia-lhe um ar pesado, aborrecido até. Fazia-se adivinhar que no seu
interior as letras formavam palavras chatas e compridas, daquelas que já não se
usam, daquelas que já nem sabemos o significado, palavras que se regem por
outras leis, outras ortografias. Adivinhava-se também que a junção dessas
palavras formava uma história sem interesse, um relato impercetível de uma
vivência estranha e invulgar, como já não há nem pode haver. As histórias
perdidas no tempo que já não é presente e que, por isso mesmo, já não têm lugar
no mundo de hoje, no mundo que já não é o mesmo e que fechou as portas aos modos
antigos de fazer, e de ser. Eliseu olhava-o. Pensava que ali não iria encontrar
nada de interessante, nada digno do esforço da leitura, nada que o
enriquecesse. O livro poeirento de capa velha e roçada repousava no tampo da
mesa no centro do café, quase como se estivesse perdido e desejasse ser
encontrado. Estranho pensamento, um livro não tem desejos, vive à mercê dos
acontecimentos que resultam do desejado por outros.
Continua...
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