... continuação
Eliseu olhava o livro. Parecia-lhe que ele
causava alguma espécie de atração sobre si, uma atração que suplantava todos os
pensamentos de rejeição àquele velho livro que lhe cruzavam a mente. Apesar de
o seu pensamento tecer considerações pejorativas que formavam um juízo negativo
sobre o livro, o seu olhar não conseguia não repousar sobre ele. Era um livro
misterioso, velho mas misterioso, misterioso porque velho. Eliseu olhava-o.
Olhou-o até se conseguir levantar da cadeira, mover-se até à mesa onde o livro
se encontrava e lhe deitar a mão. Então segurou-o. Eliseu mexeu-lhe, folheou-o,
cheirou-o, tossiu com a asma a dar de si. Eliseu era velho, tão velho quanto
aquele livro.
Eliseu estava gasto, tão gasto quanto aquele livro, tão roçado
pela vida, tão comido pelo sol. Os anos tinham passado e com eles vieram as
dores, o ranger dos ossos, as maleitas múltiplas que acusavam as múltiplas
vivências. Sentou-se de novo no lugar que era seu apenas pela ocasião de se ter
ali sentado primeiro que qualquer outra pessoa naquela tarde e leu. O livro
rangeu ao abrir, tal como rangeu a anca de Eliseu ao sentar-se na cadeira.
Segurava as páginas com cuidado, a medo, como se o papel se fosse desintegrar
ao toque da pele ensebada e engrossar a poeira que jorrava de entre as mesmas.
Eliseu segurava-o muito direito, pousado em cima da mesa, e manuseava-o com
extremo cuidado e interesse. A cada virar de páginas servia a ponta do polegar
e do indicador para segurar a pontinha da folha e o mindinho, esticado, para
indicar a cautela da operação. O interior, esse, era aborrecido. As letras que
enchiam as páginas amareladas e bolorentas formavam palavras chatas e
compridas, daquelas que já não se usam, daquelas que já nem sabemos o
significado, palavras que se regem por outras leis, outras ortografias.
Continua...
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