sábado, 27 de julho de 2013

O livro que Eliseu leu - terceira parte

... continuação

Tal como se previra e Eliseu adivinhara. No seu juízo precipitado, apenas o julgamento da história se viu errado, não era impercetível, nem estranha, nem invulgar. Antes, era bem familiar e acolhedora. Sem saber muito bem como, nem porquê, a articulação daquelas letras feitas palavras formava um conjunto com um significado que Eliseu começava a achar próximo a cada página que passava. 

Como poderia aquele livro, perdido e encontrado, encontrado porque perdido, transportar uma qualquer mensagem capaz de penetrar Eliseu? «Que feitiçaria seria aquela?», pensou ele a determinado momento. Eliseu fechou o livro repentinamente. Tinha abandonado todos os cuidados e mariquices com que tratara aquele velho livro até então. Olhou em redor, para a esquerda uma vez, para a direita outra; chegou até a virar-se para trás. Quem estaria a observá-lo? Não viu ninguém.


Levantou-se e arrumou a cadeira em que tinha estado sentado, debaixo da mesa. Pegou no chá fumegante que bebericava naquela tarde solarenga, olhou em redor uma vez mais (pertenceria aquele livro a alguém e o dono estaria a observá-lo?), pegou no livro e colocou-o debaixo do braço, preso no sovaco direito. Dirigiu-se para a esplanada do café. A mesa a que se sentou erguia-se junto ao pilar que ajudava a suportar as arcadas da fachada do prédio. O seu novo assento deixava-o de costas coladas ao pilar, de frente para o rio, com vista privilegiada a toda a sua volta. 

Eliseu não estava confortável em mexer naquele livro, nem com a situação, nem consigo mesmo. Escolhera um lugar que impossibilitasse a surpresa à retaguarda, aproveitando-se alguém do seu ângulo morto de visão. A razão por que o fez nem ele próprio a conhecia. Olhou de novo em seu redor, para a esquerda uma vez, para a direita outra, como se alguém se interessasse pelos interesses de um velho homem num velho livro. Já tudo na sua ação era inconsciente, irrefletido, a roçar a paranoia. 
Então leu, abriu de novo o livro poeirento de capa velha e roçada e leu. 

Continua...

Sem comentários:

Enviar um comentário