... continuação
Tal como se previra e Eliseu adivinhara. No seu juízo precipitado,
apenas o julgamento da história se viu errado, não era impercetível, nem
estranha, nem invulgar. Antes, era bem familiar e acolhedora. Sem saber muito
bem como, nem porquê, a articulação daquelas letras feitas palavras formava um
conjunto com um significado que Eliseu começava a achar próximo a cada página
que passava.
Como poderia aquele livro, perdido e encontrado, encontrado porque
perdido, transportar uma qualquer mensagem capaz de penetrar Eliseu? «Que
feitiçaria seria aquela?», pensou ele a determinado momento. Eliseu fechou o
livro repentinamente. Tinha abandonado todos os cuidados e mariquices com que
tratara aquele velho livro até então. Olhou em redor, para a esquerda uma vez,
para a direita outra; chegou até a virar-se para trás. Quem estaria a
observá-lo? Não viu ninguém.
Levantou-se e arrumou a cadeira em que tinha
estado sentado, debaixo da mesa. Pegou no chá fumegante que bebericava naquela
tarde solarenga, olhou em redor uma vez mais (pertenceria aquele livro a alguém
e o dono estaria a observá-lo?), pegou no livro e colocou-o debaixo do braço,
preso no sovaco direito. Dirigiu-se para a esplanada do café. A mesa a que se
sentou erguia-se junto ao pilar que ajudava a suportar as arcadas da fachada do
prédio. O seu novo assento deixava-o de costas coladas ao pilar, de frente para
o rio, com vista privilegiada a toda a sua volta.
Eliseu não estava confortável
em mexer naquele livro, nem com a situação, nem consigo mesmo. Escolhera um
lugar que impossibilitasse a surpresa à retaguarda, aproveitando-se alguém do
seu ângulo morto de visão. A razão por que o fez nem ele próprio a conhecia.
Olhou de novo em seu redor, para a esquerda uma vez, para a direita outra, como
se alguém se interessasse pelos interesses de um velho homem num velho livro. Já
tudo na sua ação era inconsciente, irrefletido, a roçar a paranoia.
Então leu,
abriu de novo o livro poeirento de capa velha e roçada e leu.
Continua...
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